Ser e Ter
Um dia, há muitos anos, antes do 25 de Abril, no Café Tico-Tico, Manuel Cabanas, vendeu-me um livro de poemas «Lanço de Alva», de A. Vicente Campinas, meu conterrâneo, que vivia na clandestinidade, em França, militante do PCP.
Manuel Cabanas, fundador do PS, vendia os livros de Vicente Campinas, e, honrou-me ao proporcionar-me a leitura de alguns dos seus romances. Num deles «Fronteiriços», o primeiro romance de Vicente Campinas, um dos personagens é inspirado na personalidade do meu avô, pescador do Rio Guadiana. Mais tarde, após o 25 de Abril, tive o prazer de conhecer pessoalmente Vicente Campinas e regularmente, ele, me enviava pelo correio todos os livros que editava – de poesia ou romances.
Vicente Campinas e Manuel Cabanas, foram duas personalidades com quem tive a honra de partilhar momentos da minha vida.
Manuel Cabanas, muitas vezes, desabafou comigo situações. Fomos amigos. Um amigo que admirei profundamente. Ele soube sempre as minhas opções, e, nada disso, quer antes, quer depois do 25 de Abril, foi razão para impedir a nossa relação de amizade e respeito. Nunca baixámos a cabeça um ao outro. Olhámo-nos sempre, olhos nos olhos.
Vicente Campinas, com quem troquei correspondência e pouco momentos de convívio, acompanhei, e, sei da sua relação próxima e de amizade com Manuel Cabanas.
Talvez, por essa razão, fui um dia convidado a participar numa conferência, na minha terra natal, com o tema – As relações entre Vicente Campinas e Manuel Cabanas.
Mas, tudo isto, veio a propósito de ter recordado, há momentos, um poema de Vicente Campinas, escrito nesse livro «Lanço de Alva», onde o poeta afirmava – «Não me tomem por neutro...nesta luta, nunca me tomem, não. Eu dou o coração p'lo sol que se disputa».
E, ao recordar, pensei, que nunca ao longo da vida fui neutro, ou quis ser neutro, tive, tenho e terei sempre opções.
Ter partido, não é tirar partido. E, sei, convictamente, que, em nenhuma situação, nunca tirei partido. Vivi. Lutei. Desisti.
Mas, também, a experiência de vida, retirou-me a paixão da entrega e vivência da acção, pela acção, porque há cicatrizes que sangram, e, hoje, se transformam não em neutralidade, mas em tristeza, e perda de vontade de agir.
Sim, principalmente, quando vejo, que a ânsia do poder, a sobrevivência, são máscaras, para ter, sendo o ser, apenas, a distância entre a ficção e a vida real.
Não sou neutro. Nunca serei neutro. Nunca fui neutro.
Afinal, mantenho valores, esses valores, que descobri antes do 25 de Abril, e são eles que me dão confiança e força para estar – mesmo que alguns, por vezes, pensem o contrário – acima, muito acima, de uma situação que mate aquilo que mais prezo – a Liberdade!
Com, os meus conterrâneos, Manuel Cabanas e Vicente Campinas, aprendi, essa dimensão do significado da vida, do não ser neutro, do resistir, que, afinal, na vida, vale mais ser que ter – o ser somos nós, o ter são os outros!
S.P.

