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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

Um modelo de cidade. Um modelo de concelho-cidade (II) . Barreiro um concelho com memórias

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No «Forum Participativo» que encerrou o «Congresso Barreiro 2030», depois de ter participado em algumas das Oficinas, considerei que deveria expressar algumas das minhas opiniões, sobre a visão estratégica para o concelho do Barreiro.

Já editei um primeiro texto de reflexão, sobre o “pensar o território”, agora, quero colocar as minhas reflexões sobre essa temática da «identidade».

A primeira nota que considero essencial será pensar se o Barreiro é um concelho com «memória» ou com «memórias».
Ou seja, ao pensarmos este actual território do concelho, com cerca de 120 anos, em que medida o peso dos séculos XIX e XX, marcam o que se considera ser a sua «identidade».
Ao pensarmos este território, sabemos e temos consciência, que muito do que existe nas suas «memórias» são heranças. São «memórias enxertadas».
Um concelho de «cultura enxertada».
Mas, sublinho, são memórias que devem ser valorizadas e potenciadas e assumi-las como pertença, por vezes milenar, porque estão, de facto, inscritas neste território, que, hoje, é o concelho do Barreiro.

O Barreiro de hoje é diferente, muito diferente, daquele que existiu para gerações anteriores.
Mesmo das gerações mais recentes, que sentiram e viveram, com paixão e labor, a vila industrial.
O concelho do Barreiro que nasceu em 1521, para retirar potencialidades económicas ao concelho de Alhos Vedros e ao concelho de Coina, gerando um novo porto de transporte de mercadorias para Lisboa, em nada, correspondia territorialmente à sua actual realidade. Ficava-se pela Verderena, Barreiro e parte do Alto do Seixalinho. Talvez o território da actual cidade.

Quando falamos da Real Fábrica de Vidro, em Coina, estamos a falar do concelho de Coina.
Quando falamos de Descobrimentos, estamos a falar do concelho de Alhos Vedros.
Quando falamos do vinho bastardinho, estamos a falar do concelho do Lavradio.
Quando falamos da sitio arqueológico do Bico da Passadeira, estamos a falar na localização, neste território, de um dos primeiros lugares ao nível europeu, onde o homem iniciou vida sedentária e desenvolveu novas tecnologias – pela primeira vez o uso do boi para agricultura ou pela primeira vez a produção de sal. E, registado por investigadores europeus, ao nível de estudos de civilizações neolíticas, nos rios da Europa. Esta está referenciada, no Rio Tejo.

Quando falamos da Mata da Machada, estamos a falar do concelho de Alhos Vedros. E, diga-se, a Mata da Machada entrou na «cultura local» nos finais do século XX. Foi ontem.
Apesar de ter sido caso de estudo no século XIX.


A cultura ferroviária foi de grande importância na afirmação do concelho do Barreiro, na sua realidade actual, marcou gerações, formou gerações.
Essa, sim, estamos a falar do concelho do Barreiro.
Uma cultura muito ligada à indústria da cortiça que influenciou o urbanismo local, até à sua deslocalização para Alhos Vedros, anunciando a chegada da construção civil.
Um nota marginal, recordo que, nos anos 80, do século XX, fui a Palhais, e, ali, algumas crianças na escola primária, nunca tinham viajado num comboio, nem visto um barco no Tejo.

Ali, pela zona de Santo André, no século XX, surgiram vindos de Aveiro – o Galitos tem essa génese – as famílias ligadas à Seca do Bacalhau e aos bacalhoeiros. Era outro mundo. Outra gente.
Os «não barreirenses». Era o Barreiro das «profundezas», do pessoal que, quando vinha ao Barreiro, dizia – “Vou à Vila!”.
Aliás, o mesmo acontecia com o Lavradio. Embora, a partir de 1957, o território do Lavradio – deixou de ser Vila – porque foi integrado na Vila do Barreiro, de forma a garantir a prestação do serviço dos Transportes Colectivos do Barreiro.

A «cultura CUF» marcou a identidade local, nos séculos XIX e XX, e, fez que, durante décadas, o Barreiro fosse, isso, apenas isso, uma terra de trabalho.
O território da actual cidade, gerou mesmo uma «população autóctone», de relações familiares, porque a CUF, sempre estimulou a ligação da empresa à família.
Os operários, com condições salariais diferentes, tudo faziam para dar aos seus filhos um Curso Superior. Os engenheiros e doutores filhos de operários, que assumiam com orgulho essa dimensão cultural marcando o “ser barreirense”
“Sou do Barreiro”, era afirmado e, é afirmado, com satisfação. Era diferenciador.

Depois, nos anos 70, começou a era dos «Refugiados», na qual me incluo, quando Lisboa começou a expurgar para a periferia milhares de pessoas.
Aqui nasce um novo Barreiro. O Barreiro dormitório, ao lado do Barreiro Operário e com vida própria. O Barreiro que trabalha na região e vive no Barreiro. Muitos integram-se na vida local pelas portas do movimento associativo.
Novas gentes, os migrantes que fizeram explodir demograficamente o concelho. São milhares de novos «barreirenses», uma nova geração, que legou ao Barreiro milhares de filhos. Essa gente vinda de muitos lados.

O tempo dos construtores civis, que faziam casas, mas não faziam arruamentos, nem jardins, nem passeios.
Em simultâneo, começa a crise nas indústrias, obsoletas, com elevados níveis de poluição e sem capacidade de responder a preços de novos mercados internacionais.

E, é neste cenário que nasce o 25 de Abril.
A desindustrialização era inevitável. Os investimentos de «elefantes brancos» feitos após o 25 de Abril, ajudaram à completa degradação do território da ex-CUF. O Poder Central olhava para o lado. Deixa cair.
Em boa hora, Sardinha Pereira e sua equipa, lançaram a ideia do Parque Empresarial. Não resolveu nada, mas evitou a desertificação, como aconteceu no Seixal.
Tudo isto são memórias do Barreiro. Um Barreiro resiliente que nunca baixou os braços.

Mas, o Barreiro, pela sua «CULTURA ASSOCIATIVA» que foi sempre um elemento de coesão social, de integração, de sociabilização, afirmou-se no desporto, com muitas memórias.
No futebol, foi um nicho dos grandes de Lisboa, do Sporting, do Benfica, do Belenenses. Só estas memórias davam para fazer um Museu do Futebol
Por exemplo, no Mundial de 1966, da selecção portuguesa, três era naturais do Barreiro, e, ao, longo dos anos quantos nomes o Barreiro inscreveu nas páginas de ouro do futebol nacional.
E no Basquetebol, no Xadrez, na Vela, no Remo, no Ciclismo, no Hóquei Patins, no Judo e em tantas outras modalidades. Os Jogos Juvenis do Barreiro, como experiência pioneira na formação juvenil.
Com as tecnologias que existem hoje, criar um Museu interactivo do «Desporto do Barreiro», era uma memória geradora de postos de trabalho e de visitação ao concelho.

Mas, há memórias na música, no teatro, na ciência, é, por tudo isso, que considero que o Barreiro é um concelho com «Memórias» e não com «Memória».
A diversidade de realidades epocais e históricas que hoje integram o território que faz o concelho do Barreiro – do Neolitico, aos Descobrimentos, da Cortiça ao Bacalhau, da indústria moageira à indústria química, dos ferroviários ao aos pescadores, dos Operários aos serviços – ainda há dias alguém focava a importância do Barreiro na implementação pioneira da actividade de Seguros, em Portugal. Esta é uma riqueza imensa.

E, para mim, a grande memória, essa que inscreveu o Barreiro nas palavras de resistência e luta, que inspirou Manuel Alegre, ou Lopes Graça.
O Barreiro essa terra da Liberdade, com muitas cores, da Igreja aos Operários, dos Anarquistas aos Comunistas, dos Socialistas aos sem opções.
O Barreiro- terra da Liberdade. De homens e mulheres que foram presos no Tarrafal, em Caxias ou Peniche.
Quantas vezes, tenho falado de ser feita uma geminação entre Peniche e Barreiro.
E, colocar nos passeios da Avenida da Liberdade, até ao Polis, um cravo – individual - com o nome dos mais de 400 barreirenses presos.

É, isto, e muito mais, que me leva a sublinhar, que o passado deste território – hoje concelho do Barreiro – tem uma riqueza enorme, onde é possível criar, transformando a cultura e o desporto, numa fonte de criação de postos de trabalho e de afirmação de um modelo de cidade , num concelho cidade.
O Barreiro - um concelho com memórias.

Uma nota final, quando saía do Forum Participativo comentei para o Augusto Sousa, da Rumo – “passamos a vida a dizer que o Barreiro está num beco. Isto já cansa”.
É que estamos a 15 minutos de Lisboa, de barco, numa ponta do concelho e a 30 minutos de Lisboa, de comboio, noutra ponta do concelho. Acho que criamos o estigma do beco. Isto, obviamente, reconhendo a importância da melhoria das acessibilidades.
“Vamos dar a volta a isto. Façamos do beco. Um (B)ecocidade.”, disse-lhe.
É isso, vamos construir uma (B) ECO-CIDADE.
Uma cidade que tem eco na região, pela sua criatividade, dimensão desportiva, artistica, gastronómica. Que vale a pena visitar.
Uma cidade – ecológica – com uma bela zona ribeirinha, uma espectacular Mata da Machada.
Com uma ampla cultura associativa. Onde vale a pena viver.
Uma cidade onde há espaços para construir e instalar empresas e com uma cultura de gente de trabalho e empreendedora – onde vale a pena sonhar- futuro.
Se, eu ainda cá estiver, em 2030, com cerca de 80 anos.
Vou recordar estes dias!

António Sousa Pereira

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