Há uma grande diferença entre ter princípios e ter opinião. Ter princípios é ter objectivos, é ter valores que se traduzem em actos que dão sentido às nossas vidas. Os princípios são marcas que mantemos ao longo da vida. Vivemos e assumimos.
Ter opinião é expressar olhares sobre os acontecimentos. As opiniões mudam com as circunstâncias e, normalmente, estão sempre actuais movem-se com a história e com as estórias.
O futuro é sempre a projecção do nosso presente. O presente é tudo o que nós escolhemos.
O futuro será todo esse tempo que vamos construir, a partir deste presente, um tempo que vamos melhorando e enriquecendo com as nossas aprendizagens e as nossas escolhas.
Todos nós, cada um de nós, escolhe aquilo em que acredita, por isso, o futuro é tudo aquilo que acreditamos, porque a gente só escolhe aquilo em que acredita.
Somos, neste presente, tudo aquilo, quanto fomos acreditando, escolhendo e construindo ao longo da vida. Sempre que optámos, decidimos futuro.
O futuro será sempre tudo aquilo que escolhemos em cada presente, por isso, só por isso, o futuro não é amanhã. O futuro começa sempre – hoje!
Quando vivemos dias marcados de muitas incertezas e angústias, há uma coisa que aprendemos de certeza – o que é sobreviver. Isso é uma grande lição.
Entre o sobreviver e o viver há grandes diferenças.
Sobreviver é aguentar. Viver é lutar.
Sobreviver é existir. Viver é ser.
Quem aprender esta lição, de cabeça erguida, sem rastejar, de certeza que fica apto a entender as muitas peripécias que fazem a vida e os tempos que se vivem.
O associativismo é um dos valores de cidadania herdado de lutas dos séculos XVIII e XIX, contribuindo para que fossem dados passos positivos nas vivências sociais das comunidades. Em Portugal, as suas raízes centrais remontam à Monarquia Constitucional.
Quando as Paróquias deixaram se ser o centro da vida das comunidades e nasceram as freguesias deram-se passos muito positivos na promoção da cidadania activa na vida das comunidades, sendo criados novos modelos de associações e organização da cidadania, à margem das organizações cívicas vigentes – Misericórdias ou Irmandades. Nasceu o associativismo moderno - mútuas, cooperativas, associações filarmónicas.
Um novo tempo . Uma nova etapa na separação do civil e do religioso.
O Movimento Associativo foi uma pedra angular na promoção de uma cultura emancipadora, acima da acção politica partidária e religiosa. Nasceu uma cultura centrada nas palavras – Liberdade: o direito voluntário de aderir; Igualdade – gestão marcada pelas decisões democráticas; Fraternidade – ao serviço da comunidade e com respeito pelas diferenças.
Esta é a cultura associativa recebida de lutas de muitas gerações, com contradições, mas, na qual ao longo de mais de um século, sempre, o associativismo se afirmou com um espaço de democracia e respeito pelas diferenças e separado de partidos e religiões.
Assim deve ( ou devia) continuar a ser, e, na verdade, por isso devem lutar os homens livres que acreditam que a cidadania é um caminho libertador e emancipador. Foi por isso que muitas lutaram e ergueram estes espaços de liberdade e democracia.
Antes do 25 de Abril foram muitas as associações que resistiram e nunca abdicaram de separar as águas, o mesmo tem acontecido depois do 25 de Abril.
Os valores do associativismo são claros. O mal não está nos valores do associativismo. O mal está nos dirigentes que, quando assumem o poder nas colectividades, não respeitam a sua história, as lutas de muitas gerações e acham que devem, por crenças próprias, colocar a associação ao serviço de um partido ou de uma religião.
Foi isso que fez o regime fascista em Portugal. É isso que, infelizmente, ao longo da história, muitas vezes, tem acontecido, quando uma associação se afirma como espaço partidário ou como ligada ao culto de uma religião. É isso que afasta as pessoas. É isso que reduz o espaço de vivências de cidadania activa em liberdade.
Felizmente os homens passam e as associações ficam e serão sempre, apesar de tudo, uma referência dessa cultura herdada de tempos de mudança, tempos que marcam uma forma de estar e sentir o pensamebnto europeu, esse sentir que se escreve com as palavras : Fraternidade – Liberdade – Igualdade.
É uma sensação agradável voltar a um lugar onde vivemos parte da nossa vida. De súbito não somos nós no tempo de hoje, estamos ali, em dois tempos reais. Um, aquele que somos nós na actualidade. Outro, o tempo que emerge por dentro da memória.
Parece que temos duas vidas: a real e a que está na memória viva. Recuamos e revivemos situações, contextos com uma intensidade única.
É agradável esse reencontro com o tempo vivido. Sentimos que somos todo esse tempo vivido. Somos diferentes, agora de cabelos brancos, mas somos iguais, porque somos nós e todo esse tempo que guardamos com ternura.
É por isso que é belo ter a consciência do tempo vivido e sentir a felicidade de reviver com as mesmas emoções, todo o tempo que guardamos no coração.
Os dias são marcados por diferentes emoções. Toca o telemóvel. Atendemos. Escutamos. Dialogamos. Sorrimos. Uma boa notícia. Abrimos a caixa do correio. Olhamos. Rasgamos. Nem dá para dialogar. Sentimos. Uma má noticia.
É assim a vida, entre o bom e o mau que faz este tempo que vivemos. Gerir e equilibrar os sentimentos que brotam de diferentes circunstâncias é, afinal, um desafio constante. Ora chove. Ora faz sol. O tempo move-se. A vida move-se.
Conseguimos viver quando, no meio de todas as contradições, perante as adversidades e as alegrias, no final do dia, sentamo-nos e sorrimos. Não baixámos os braços, não desistimos e serenamente sentimos que há sempre mais vida, para além, muito para além, das emoções que fazem um dia e o dia, se assim não fosse, ficávamos prisioneiros de todos os presentes.
É por isso que o presente é sempre uma aprendizagem e, quer as boas, quer as más noticias, apenas são contributos para rasgar os caminhos, como dizia o poeta: é preciso continuar o caminho, porque o caminho faz-se caminhando!
Hoje, ao acordar, olhei o sol escondido entre as nuvens, uma luz prateada a brilhar. Gaivotas em terra, sempre foi dito – sinal de vendaval. Para mim, gaivotas em terra é sinal que estamos próximos de rio ou de mar.
Fui até à Avenida J.J. Fernandes, pela manhã, está sempre movimentada, na Tabacaria, então, o movimento estava animado. É dia de euromilhões. Todos tentam a sorte. No meio disto ocorreu-me ao pensamento que o meu pai, viveu uma vida inteira, alimentando semana a semana o sonho que um dia havia de ganhar o totoloto. Nunca viu o seu sonho realizado. Mas, uma coisa tenho a certeza, todas as semanas, ano após anos, ele alimentou e nunca desistiu do seu sonho. E acreditou nesse sonho, sempre, até ao limite.
Passei pela caixa do multibanco. Um ritual. Há um pequena fila. Acho engraçado que junto à caixa do multibanco são quase sempre os mesmos comentários. Não levante todo. Não há muito para levantar. Eles levam tudo. “É vida, é assim temos que viver um dia de cada vez!”, comenta-se.
Encontrei o meu amigo Torrão, um companheiro de lutas das Direcções da Cooperativa e da SFAL. Homem de luta e de trabalho. Recordo quando o via com os carrinhos de mão do armazém para a Loja (após o seu dia de trabalho na Equimetal), para abastecer as prateleiras. Ou, a sua dedicação a acompanhar os atletas do trampolim. Uma vida dedicada a fazer futuro.
Após a compra do jornal fui até à esplanada do Café Gerações. Sentei-me a fumar. Não me apetecia fazer mais nada, apenas, e só, estar ali, fumando, lendo o jornal e o livro que trouxe comigo. Viver e aproveitar os instantes. Chegou o Gama, meu companheiro de vida militar no Estado Maior do Exército. “Então, militar de Abril”, diz ele. Sorriu. Sei porque ele diz isso, muitas vezes recorda aquele dia do Plenário com o Gneral Carlos Fabião. “Foste lixado!”, refere. Recorda a minha intervenção, ali em pleno PREC, aqueles dias de sonho e luta.
De tarde, fui assistir à apresentação do jogo pedagógico «Aventura na Reserva Natural», onde se falou da importância da Mata da Machada e Sapal do Rio Coina para promoção de uma nova imagem do Barreiro. Enquanto estou ali e observo o Tejo, recordo conversas recentes. Alguém que me dizia que a Mata da Machada – “não é estratégica para o Barreiro, porque Matas há em todo o lado. Isso não é um elemento diferenciador”. Depois ocorre-me, aquela intervenção, no debate sobre o Arco Ribeirinho Sul, alguém que falou sobre Turismo no concelho do Barreiro e dava relevo à Mata da Machada, como algo importante, mas que só poderá ser um produto turístico quando se afirmar como uma “oferta” – na sua biodiversidade e referência histórica. Aliás, em comentário, ao defensor da ideia que a Mata da Machada não tinha importância estratégica, contestei e argumentei que podem existir muitas Matas, mas na Península de Setúbal e até na AML, não há nenhuma Mata com um Sapal como o Rio Coina, nem com as referências históricas ligadas aos descobrimentos, como tem aquele espaço – património ambiental e histórico.
Pois, mas, essa é verdade, não é, ainda não é, oferta turística, para que tenha atractividade, nem sequer é, ainda, oferta de lazer para os próprios barreirenses, devidamente estruturada. Será um dia, será um dia…e será estratégica na valorização e concretização do conceito de «concelho-cidade». Por aqui me fico.
Hoje, dia 9 de Maio, poucos minutos depois das quatro da tarde, neste, que é o Dia da Europa, ali, naquela artéria que liga o Barreiro ao Lavradio, no território marcado de resíduos de memórias da extinta vila-cidade industrial, um espaço outrora fechado à vida urbana, vivi um momento que gravei, daqueles momentos que sentimos as emoções à flor da pele, quando milhares de palavras e memórias percorrem o nosso interior em segundos. Recordei, que, por aquele lugar, muitas vezes, percorri as distâncias de motorizada, no meio de chuva de ácido dos Contactos, rumo à fábrica de Zinco Metálico, onde exerci funções de operário. Recordei que aquele era um espaço vedado à cidade, onde não era permitido circular. Recordei que aquela artéria, hoje, liga as extintas freguesias – Barreiro e Lavradio – sendo, afinal com algum simbolismo a linha que as une, numa união que muito ainda terá que unir, de memórias e estórias.
Viajava no meio de uma chuva torrencial, que transformava a estrada num verdadeiro rio. Na Antena 2, naquele instante, escutava os sons de Handel – Aleluia. Os sons da chuva misturavam-se com os sons do coro em autêntica apoteose melódica. A chuva trepidava nos vidros. Dilúvio. No caminho, de repente, vinda do nada, surge uma pomba a esvoaçar rasgando a paisagem. Uma imagem de uma grande beleza. Única. Fotografei com o olhar. Ao fundo as chaminés. Os sons de Handel emocionavam, misturados com aqueles sons das gotas de água a bater nos vidros. A pomba esvoaçou na distância. Segui seus movimentos em zoom do meu olhar. O ritmo. O pulsar. O sentir. O viver. Um instante único, hoje, ao meio da tarde, com os nervos emocionados pelos sons de Handel, as memórias da vida operária a brotar nos nervos, e, aquele movimento feito de ternura de uma pomba a rasgar o céu, pensei: Isto é lindo! É isto, é mesmo isto, a poesia!
É por isso que os lugares, gravados na nossa memória, com emoções de tempo vivido, de repente, se transformam numa corrente de emoções e reflexões.
Aquelas fábricas que ali existiram, investimentos inúteis, porque eram investimentos sem futuro – Zinco Metálico, Forno Cal, Polióis, Kowa- Zeiko…e outros, que geraram toneladas de resíduos e passivos ambientais, que, nos dias de hoje estão a custar milhões para a reconversão dos terrenos, são exemplos de dinheiro perdido e de ausência de projectos com visão de futuro, que dessem continuidade para que aquele que foi o maior complexo industrial da Península Ibérica, evoluísse e se modernizasse. Recordo os meus dias de operário, numa fábrica que estava a começar a produção e já, então, se dizia que era para fechar. É por isso que senti, através daquela pomba a voar e nos sons de Handel, hoje, às quatro da tarde, que este território é lindo, é uma pérola cheia de história, memórias e poesia – só é preciso é que existam poetas que inscrevam o seu passado no futuro. Ainda escuto os sons de Handel e a pomba a voar – entre o Barreiro e o Lavradio – ali, onde era um território proibido, hoje, aberto à cidade… Ali, afinal, neste tempo europeu – evocando este Dia da Europa, ainda há esperança porque…as pombas voam e os sons anunciam o «Messias», neste território que se deseja que seja uma porta para a Europa e para o mundo. Talvez assim, um dia, o Barreiro possa dizer bem alto: Foram criados 400, e mais 400 e mais 400, postos de trabalho no Barreiro. E, acreditem, isto nada, mesmo nada, terá a ver com a eventual existência, ou não, do Terminal de Contentores, porque, ali, naquele território, há muito espaço, e, para ele podem ser pensados muitos projectos e gerar condições para que se afirmem investimentos, com, e para além, dessa coisa «horrível» que alguns consideram que é o Terminal de Contentores. Essa coisa é uma, apenas uma coisa possível. É que, eu ainda sou do tempo que se sentiam os cheiros do ácido sulfúrico e, vi, na minha frente, com espátulas nas mãos, correr o zinco, como um «rio de prata de esperança»... Espero que um dia Lisboa olhe, para este território, ou então, de uma vez por todas, que o entregue ao município do Barreiro para o gerir, e, então, sim, essa, será a hora de criar uma Agência de Desenvolvimento Local.
No que por ali vi nascer, nos anos 80, de investimentos industriais, tudo se esfumou… Por aqui me fico.
Todos nós temos o lado de cá e o lado de lá, mas, o importante é, nós, nos sentirmos bem do lado em que somos nós mesmos. Tudo o resto é ficção. E, ficção é apenas, e só, ficção.
Viver esse lado, que é nosso, é que é belo. O lado de lá, também ajuda, ajuda a colocar perguntas, a enfrentar desafios, a sentir o mundo e a vida, e, por fim, sentirmos como o lado de cá – o nosso – é sempre a escolha mais linda porque é aquela que nos fazemos a nós mesmos.
Hoje, tive um exemplo, concreto, na vida real, como com pequenos gestos, com muita vontade e querer, na verdade – uma gota num mar imenso – pode ser um contributo para transformar e mudar o quotidiano.
Um exemplo do papel do individuo na história. Ninguém muda o mundo sozinho. Mas um individuo sozinho pode ajudar a mudar o mundo. E, de facto, isso conta, quando se junta nesse querer individual a energia motivadora de agir na comunidade, pela comunidade, com a comunidade.
Por vezes cansa, mas, lá dentro, bem dentro, mesmo que, sentindo uma lágrima a marejar nos cantos do olhar, quando sentimos os resultados, isso, dá uma felicidade única – aquela de observarmos como a nossa acção – essa gota individual - empurra a história e inscreve os nossos actos no tempo que vivemos.