Há dias que as palavras são…
Há dias que as palavras são papoilas,
ladeando caminhos de sentimentos.
Plantam-se nos nervos. São lágrimas,
silenciosas, são cristais, são rumores,
são memórias, são murmúrios, o limite.
Há dias que as palavras são pétalas, voando,
nas ondas do Tejo e no mar, nas margens,
ali, onde as pegadas são sinais de passos,
palmilhados, com os olhos na Arrábida,
observando as naus, encobertas, no tempo,
trazendo todas as estórias e a história,
em bandeiras e sons a rasgar, o vento,
marinheiros, aprumados, cantando Portugal,
em Junho, nesta margem sul, aqui, Barreiro,
este lugar, dos fornos da Mata da Machada,
ditos de Alhos Vedros, agora Barreiro,
que foram a epopeia de uma vida, de paixão,
que foram inscritos numa memória colectiva,
do homem que acreditou ter sido o mar, no mar,
e pelo mar, que esta terra nasceu e vai ter futuro.
Há dias que as palavras são bandeiras, um som,
evocando manuscritos, Camões e Pessoa, aqui,
mesmo a gritar sozinho no deserto, pelo Álvaro,
aquele que (para ti) foi o primeiro jornalista,
erguias-te na tua loucura, de saberes, protestando,
epistemologicamente, afirmando as ciências,
numa vontade enérgica de quebrar a solidão,
dos anciãos empurrados para esquinas da cidade.
Há dias que as palavras são ondas hertezianas,
por dentro do tempo e do pensamento, a vida,
traduzida em muitos sons que são o epitáfio,
possível, de discussões, de confrontos, de ser,
de todos esses significados e significantes,
escritos, aqui e agora, neste dia de sol, de Maio,
aqui ficam estas palavras, de uma memória,
feita de irreverências, confrontos e diálogos.
Uma eloquência gerada na insatisfação.
Um sonho transformado pela amargura.
Uma solidão que rasgou o vento e o tempo
Um homem lúcido e irrequieto com os olhos,
no Tejo, no Mar, no nevoeiro e nas brumas,
colocou o Barreiro a navegar com Gama
e gritou - Aqui d´el rei D. Manuel, o Barreiro,
é operário, mas no seu território está inscrito,
esse feito, lendário, de um país que navegou,
deixando para trás os Velhos do Restelo,
cruzou os mares, sonhou, isso escreveu,
o Velho, Álvaro, do Barreiro – o tal, o primeiro!
António Sousa Pereira

