Uma pomba a voar – entre o Barreiro e o Lavradio
Hoje, dia 9 de Maio, poucos minutos depois das quatro da tarde, neste, que é o Dia da Europa, ali, naquela artéria que liga o Barreiro ao Lavradio, no território marcado de resíduos de memórias da extinta vila-cidade industrial, um espaço outrora fechado à vida urbana, vivi um momento que gravei, daqueles momentos que sentimos as emoções à flor da pele, quando milhares de palavras e memórias percorrem o nosso interior em segundos.
Recordei, que, por aquele lugar, muitas vezes, percorri as distâncias de motorizada, no meio de chuva de ácido dos Contactos, rumo à fábrica de Zinco Metálico, onde exerci funções de operário.
Recordei que aquele era um espaço vedado à cidade, onde não era permitido circular.
Recordei que aquela artéria, hoje, liga as extintas freguesias – Barreiro e Lavradio – sendo, afinal com algum simbolismo a linha que as une, numa união que muito ainda terá que unir, de memórias e estórias.
Viajava no meio de uma chuva torrencial, que transformava a estrada num verdadeiro rio.
Na Antena 2, naquele instante, escutava os sons de Handel – Aleluia. Os sons da chuva misturavam-se com os sons do coro em autêntica apoteose melódica.
A chuva trepidava nos vidros. Dilúvio. No caminho, de repente, vinda do nada, surge uma pomba a esvoaçar rasgando a paisagem. Uma imagem de uma grande beleza. Única. Fotografei com o olhar. Ao fundo as chaminés.
Os sons de Handel emocionavam, misturados com aqueles sons das gotas de água a bater nos vidros. A pomba esvoaçou na distância. Segui seus movimentos em zoom do meu olhar. O ritmo. O pulsar. O sentir. O viver.
Um instante único, hoje, ao meio da tarde, com os nervos emocionados pelos sons de Handel, as memórias da vida operária a brotar nos nervos, e, aquele movimento feito de ternura de uma pomba a rasgar o céu, pensei: Isto é lindo! É isto, é mesmo isto, a poesia!
É por isso que os lugares, gravados na nossa memória, com emoções de tempo vivido, de repente, se transformam numa corrente de emoções e reflexões.
Aquelas fábricas que ali existiram, investimentos inúteis, porque eram investimentos sem futuro – Zinco Metálico, Forno Cal, Polióis, Kowa- Zeiko…e outros, que geraram toneladas de resíduos e passivos ambientais, que, nos dias de hoje estão a custar milhões para a reconversão dos terrenos, são exemplos de dinheiro perdido e de ausência de projectos com visão de futuro, que dessem continuidade para que aquele que foi o maior complexo industrial da Península Ibérica, evoluísse e se modernizasse.
Recordo os meus dias de operário, numa fábrica que estava a começar a produção e já, então, se dizia que era para fechar.
É por isso que senti, através daquela pomba a voar e nos sons de Handel, hoje, às quatro da tarde, que este território é lindo, é uma pérola cheia de história, memórias e poesia – só é preciso é que existam poetas que inscrevam o seu passado no futuro.
Ainda escuto os sons de Handel e a pomba a voar – entre o Barreiro e o Lavradio – ali, onde era um território proibido, hoje, aberto à cidade…
Ali, afinal, neste tempo europeu – evocando este Dia da Europa, ainda há esperança porque…as pombas voam e os sons anunciam o «Messias», neste território que se deseja que seja uma porta para a Europa e para o mundo.
Talvez assim, um dia, o Barreiro possa dizer bem alto: Foram criados 400, e mais 400 e mais 400, postos de trabalho no Barreiro.
E, acreditem, isto nada, mesmo nada, terá a ver com a eventual existência, ou não, do Terminal de Contentores, porque, ali, naquele território, há muito espaço, e, para ele podem ser pensados muitos projectos e gerar condições para que se afirmem investimentos, com, e para além, dessa coisa «horrível» que alguns consideram que é o Terminal de Contentores. Essa coisa é uma, apenas uma coisa possível.
É que, eu ainda sou do tempo que se sentiam os cheiros do ácido sulfúrico e, vi, na minha frente, com espátulas nas mãos, correr o zinco, como um «rio de prata de esperança»...
Espero que um dia Lisboa olhe, para este território, ou então, de uma vez por todas, que o entregue ao município do Barreiro para o gerir, e, então, sim, essa, será a hora de criar uma Agência de Desenvolvimento Local.
No que por ali vi nascer, nos anos 80, de investimentos industriais, tudo se esfumou…
Por aqui me fico.
António Sousa Pereira

