Um cidade- aldeia : em cada esquina encontramos uma memória
Estou parado no semáforo, aguardo que a cor verde dê o sinal que posso seguir a minha viagem. Um carro para ao meu lado.
“Tem que ir fazer uma reportagem para o Rostos, sobre a horta comunitária”, diz a Isabel. Seu filho Daniel acrescenta que a horta está cada vez mais bonita – “Tem que divulgar”.
Acertámos contactar para marcar uma visita. Uma Horta Comunitária que está a funcionar ali para os lados da Cidade Sol. – “Tenho que lá ir”, pensei.
O verde acendeu. Seguimos viagem. Antes, pela minha frente passou uma professora do Ensino Básico, que acenou e sorriu. Ia conversando ao telemóvel.
A propósito de Ensino Básico, um destes dias, no âmbito das conversas que tenho ido fazer nas salas de aula, sobre o 25 de Abril, estive na Escola do Ensino Básico nº 1 do Lavradio. Na altura reparei e estive para comentar, numa das crónicas ‘por dentro dos dias”. Não o fiz, faço-o agora. A União de Freguesias do Barreiro e Lavradio está de parabéns. Está feita uma bela obra. São daquelas obras que melhoram o presente e o futuro.
A passagem que foi construída para ligar os dois edifícios escolares, valoriza a escola, gera melhores condições e permite a protecção do sol e das chuvas.
Uma obra meritória, daquelas que só quem utiliza se apercebe, e ninguém elogia.
Gostei. Está de parabéns a União de Freguesias, quer pela construção do Telheiro, quer pelas novas instalações sanitárias, que eliminaram as existentes que remontavam aos idos anos do século XX.
Será que no Dia B, deste ano, aquelas colunas do Telheiro vão ser pintadas? Gostava de ver…ficava mais colorido.
Encontrei, na Rua Miguel Bombarda, a minha amiga Margarida. Falou-me de uma entrevista que está combinada. Comentou que Portugal é a sua terra. “Vocês adoptaram-me. Este é o meu país”, disse.
Olhei e notei uma lágrima a cair nos seus olhos. Talvez os recentes acontecimentos de Angola estejam a tocar os seus sentimentos.
“Vá lá, força!”, disse-lhe.
“Gosto muito dos teus textos”, comentou.
Beijamo-nos. Sorrimos. Ela tem um rosto lindo e uns olhos rasgados como o luar.
Olhei. E senti um sorriso triste, no brilho dos seus olhos.
É assim, a vida no Barreiro, em cada esquina encontramos uma memória, um amigo, uma terra onde todos nos conhecemos, e, quando não conhecemos há aquele que conhece alguém que nos conhece. Esta cidade-aldeia. Naturalmente, como em todo ao lado, aqui, de súbito nas esquinas, também aparecem os outros, aqueles que olham de lado- “os amigos do peito”.
Houve um tempo que isso me incomodava. Agora sei que isso faz parte da vida real. E, quando os vejo, não os vejo, penso palavras e divirto-me.
Cá por mim, prefiro os amigos que abraço e beijo – “os amigos que estão à porta do coração”. Mas gosto mais, mesmo mais, dos “amigos do coração” – esses são mesmo muito especiais. São aqueles com quem partilhei a vida, os dias, e nunca esquecemos os passos que percorremos em comum. Porque nos descobrimos mutuamente nas causas e nas paixões da vida.
Hoje, pela manhã, na esquina da Avenida do Bocage, encontrei o meu amigo Torres. Não o via há mais, muito mais de uma década. Cumprimentei-o. Ele olhou. Fixou-me o olhar. "Não me está a conhecer?", interroguei.~"Não", disse ele.
Identifiquei-me. "Olha que malandro", comentou. Recordámos os dias da Escola Aberta da Quimigal, que funcionava no Estádio Alfredo da Silva. Já lá vão anos.
"Quanto anos já tem, 80 ?" - perguntei. "Faço dia 26 de Maio, 90", disse o meu amigo Torres. "Mas continua um jovem", disse-lhe.
Recordamos tempos idos. E, após aqueles instantes de reencontro, lá fomos cada um para o seu lado. Eu fiquei pensando em tempos idos. E, senti, naquele encontro, as memórias do tempo que guardamos e não esquecemos.
Por aqui me fico...
António Sousa Pereira

