Por dentro dos dias As ruas pertencem à nossa memória
De facto, um tempo novo começava a nascer nos meus nervos.
Escrevo estas palavras e mergulho nas emoções que ficam escritas nas ruas e nos lugares, onde vivemos, ali, deixamos os nossos passos. As ruas pertencem à nossa memória, são marcas que forjam o tempo que gravamos no fundo de nós mesmos.
“Eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida”, escuto estas palavras, misturadas nos sons da guitarra, um eco na distância. Um carro de som anuncia alguma actividade, certamente, relacionada com o Dia 8 de Março. Os sons propagam-se e vão-se diluindo, enquanto o carro se afasta e penso nestes sonhos e sons que se perdem na memória.
Saí de casa e, de repente, os sons rebentam nos meus nervos, ali, perante a vida real. Olho. Na minha frente, junto ao contentor do lixo, um homem vasculha, remexe. Na distância ainda escuto os ecos : “Eles não sabem, nem sonham…”.
Sigo o meu caminho. Uma amiga faz-me sinal e diz-me: “Olhe lá uma coisa, como é que posso mandar para o Rostos notícias das actividades da minha Igreja?”. Disse-lhe como podia fazer. Ela agradece e comenta: “Nós promovemos muitas actividades e queríamos divulgar. Sou da Igreja da Assembleia de Deus”.
Continuo o meu caminho. Junto ao «Café da Nana», será sempre o «Café da Nana», uma jovem está sentada. Caminho e vou saboreando a minha cachimbada.
“Olha, sempre com o cachimbo. Sempre o conheci com o cachimbo. Se não fosse o cachimbo, agora, nem o conhecia”, diz-me, com um grande sorriso. Os seus olhos brilham, parece que mergulha por dentro de memórias perdidas no tempo. Sorri.
Cumprimentei e continuei o meu caminho. Ela olhava para mim e continuava com um enorme sorriso nos olhos, certamente, revivendo outros momentos nas suas memórias.
Chego à Avenida J.J. Fernandes. Passo junto à Farmácia. De repente dou comigo a pensar nas memórias que tenho daquela Avenida. São tantas. Começo a rir sozinho. Olho as montras da Farmácia e recordo aquela noite que um automobilista, ao entrar na Avenida, espetou-se pela montra da Farmácia. Por acaso estava ali próximo. O ponto de encontro da noite, naquele tempo era, por vezes o Café Capri (outras vezes o Café Catita) e depois de fechar ficávamos por ali na esquina da Padaria a conversar.
O homem saiu do carro, pisando os vidros estilhaçados. Seus passos eram uma verdadeira dança. Olhou para nós e com um ar calmo e sereno disse-nos: “Eu enganei-me. Fui por ali, porque na minha frente vi duas avenidas. Eu fui por esta e bati na montra”.
Sorrimos. Eram esses sorrisos que me ocorriam, ao pensamento, numa manhã de quinta-feira, deste Março de 2016.
Pensava naquela situação de ver duas avenidas. É real. Tempos depois confirmei. Eu próprio vi duas Avenidas. Aliás eu vi duas Igrejas. Mas sabia porque caminho devia seguir, mas que vi duas Igrejas, lá isso, tenho a certeza que vi, naquela noite de 25 de Novembro.
Tinha sido declarado o «estado sítio» e recolher obrigatório, a partir da meia-noite. Eu fiquei na conversa na casa de um amigo até às 3 horas. Conversamos e bebemos uns copos. Resolvi sair, regressar a minha casa e não ligar ao recolher obrigatório. Silêncio na noite. Nem um movimento. Enquanto percorri as ruas nem cães se escutavam. Caminhei e ao começar a subir a Avenida J.J. Fernandes, ali, na zona central, olhei, e, de facto, confirmei a versão, daquela noite junto à Farmácia. Vi duas Avenidas – uma para cima e outra para baixo e lá estavam duas Igrejas (naquele tempo, ainda sem torres, nem sinos).
Segui o caminho certo, aquela que ia para baixo. Entrei em casa e adormeci, suavemente. Lá fora continuava o recolher obrigatório. Os dias da revolução, do PREC, ali, esgotavam-se. Dias antes, poucos dias antes, tinha terminado o meu serviço militar. Tinha sido convidado a fazer o espólio de um dia para o outro, quando ainda faltavam alguns meses para o tempo que devia cumprir.
De facto, um tempo novo começava a nascer nos meus nervos.
Escrevo estas palavras e mergulho nas emoções que ficam escritas nas ruas e nos lugares, onde vivemos, ali, deixamos os nossos passos. As ruas pertencem à nossa memória, são marcas que forjam o tempo que gravamos no fundo de nós mesmos.
Tenho tantas memórias desta Avenida central e desta terra Lavradio – a terra dos meus filhos, dos meus mortos e de todos os sonhos que, ao longo dos anos, forjaram dentro de mim a palavra amor.
Ah, é verdade. Encontrei, naquela manhã, no Pingo Doce o Aljustrel. Saudámo-nos. Ele comentou: “Tenho que me despachar, porque de tarde vou fazer o Turno no Forno Cal”. De repente não entendi. Ele repetiu e interrogou: “Não te lembras?”. Sorri e disse-lhe. – “Claro que me lembro. Eu vou para o Zinco Metálico”. Sorrimos. Eram meras memórias das fábricas da Quimigal, naqueles dias que fui Operário, no duro, de pó, cinza e ácidos a entrar pelos olhos, em lágrimas. Um tempo em que senti as palavras fugirem do pensamento.
Ali, agora, restam apenas ruínas e espaços vazios, naqueles terrenos conquistados ao Tejo.
Diz-se, talvez, de novo, no futuro, possam voltar a estar ao serviço do rio, aquele rio que nos leva para o mundo e onde pode nascer uma esperança…porque de esperança são feitos os sonhos!
António Sousa Pereira

