Hospital do Barreiro versus Hospital do Seixal Uma discussão sempre adiada a Saúde na Península de Setúbal
Porque, afinal, o que falta é um Plano Estratégico Hospitalar para a Península de Setúbal e articulado no contexto da AML.
Entra um governo lá surgem umas medidas a avulso. Sai o governo e lá volta tudo de novo ao principio.
E, no meio de tudo isto despesas, investimentos, por vezes, alguns que se transformam em “elefantes brancos”.
Na reunião da Assembleia Municipal do Barreiro, na quinta-feira, no período de intervenção do público, João Nunes Feijão, médico e um dos fundadores da Associação Clínica FRATER, colocou um importante tema para reflexão, o qual devia de forma ampla, ser motivo de análise quer do ponto de vista politico, quer técnico.
Expressou João Nunes Feijão as suas preocupações sobre o anunciado projecto de construção do novo Hospital do Seixal.
Referiu que nada tem contra o Seixal, nem com as ambições de, naquele concelho, se exigir a construção de um Hospital, a sua inquietação resulta de se apontar que o mesmo terá, para além das Urgências, cerca de 23 especialidades.
O médico recordou que no Hospital do Barreiro, com um valor semelhante de especialidades, regista-se uma constante falta de recursos humanos, e, o mesmo acontece noutros hospitais da região.
João Nunes Feijão, considerou que é importante que esta matéria mereça a análise dos políticos do nosso concelho, porque, referiu, é essencial defender e valorizar o Hospital do Barreiro.
Esta intervenção no período do público foi, talvez, o que se pode considerar a notícia da reunião da Assembleia Municipal, tema que não mereceu comentários por parte dos deputados municipais, que, perfeitamente, o podiam fazer no período da ordem de trabalhos, seguinte - o ponto antes da ordem do dia.
Mas, para esse ponto da ordem de trabalhos estava reservado ao jogo politico de «sombras chinesas» dedicado, quase na sua essência à discussão de três moções sobre o eventual Terminal de Contentores do Barreiro.
Este assunto fica para outra reflexão, até porque, basta consultar o arquivo do «Rostos» e fica-se com uma noção do que têm sido as diferentes posições politico-partidárias sobre esta temática.
Ontem tudo foi igual, apenas, isso sim, o que mudou foi o Governo.
Voltando à matéria colocada por João Nunes Feijão, sem dúvida, tem sido uma luta da população do Seixal a construção de um Hospital, e, pela informação que foi sendo veiculada o projecto que se aponta é que, ali, exista uma unidade hospitalar, que possa ter algumas especialidades, mas que, no essencial, seja um equipamento que contribua para o desafogo da Urgência do Garcia de Orta.
Igual, ponto de vista tem sido colocado no Montijo, onde se defende a reabertura da urgência naquele concelho, contribuindo para desafogar o Hospital do Barreiro e, portanto, sublinhe-se, em ambos casos, Montijo e Seixal desenvolvia-se uma acção de proximidade hospitalar em algumas valências.
Mas, afinal, o que parece ser uma discussão adiada, em termos de saúde na Península de Setúbal é qual o papel e a importância de três hospitais com condições únicas – Barreiro, Setúbal e Almada, na prestação de serviços hospitalares.
Que valências devem ter ? Que valências devem ser suas próprias especialidades no contexto regional? Ou qual as especialidades que em cada uma destas unidades pode ser dinamizada como referência e de excelência (recordo só o caso da Oncologia do Barreiro).
Que valências podem ser melhoradas? Que valências podem vir de Lisboa para a Península de Setúbal ou ser articuladas com Lisboa? Ou que valências devem ser descentralizadas para Lisboa?
Que valências podem ser eliminadas num Hospital e transferidas para outros, potenciando a gestão de recursos em escala?
Que relação destas unidades hospitalares com o Instituto Politécnico de Setubal?
Foram estas perguntas que me surgiram ao escutar João Nunes Feijão, no ponto antes da ordem do dia na reunião da Assembleia Municipal do Barreiro.
Porque, afinal, o que falta é um Plano Estratégico Hospitalar para a Península de Setúbal e articulado no contexto da AML.
Entra um governo lá surgem umas medidas a avulso. Sai o governo e lá volta tudo de novo ao principio.
E, no meio de tudo isto despesas, investimentos, por vezes, alguns que se transformam em “elefantes brancos”.
Por favor, de uma vez por todas, estude-se, planifique-se, programe-se, faça tudo, no mínimo, para uma década, com base em compromissos que o próximo governo, seja ele qual for, possa continuar a gerir a coisa pública e a melhorar o nosso Serviço Nacional de Saúde.
Que a nossa saúde pública deixe de ser uma arma de arremesso politico. Basta!
E que, ao nível distrital, exista a coragem politica de se discutir e assumir uma estratégia de curto, médio e longo prazo, valorizando as três unidades hospitalares de referência - Almada, Barreiro e Setúbal.
Bom, talvez, a futura eleição directa para a gestão politica da Área Metropolitana de Lisboa possa vir a ser um contributo para se pensar a região e deixar de se pensar apenas Lisboa e considerar a margem sul como um arrabalde – onde não há gente, não há hospitais, um deserto!
António Sousa Pereira

