António Ventura nos 500 anos do foral de Alhos Vedros «Não parece correcto enaltecer o papel do Barreiro nos descobrimentos»
Hoje à tarde, no decorrer da conferência integrada no programa comemorativo dos 500 anos do Foral de Alhos Vedros, António Ventura, historiador, sublinhou – “não nos parece correcto enaltecer o papel do Barreiro nos descobrimentos”, porque esse “espaço histórico pertencia a Alhos Vedros”.
O Ciclo Mensal de Conferências “A Memória do que Foi, o Registo do que É, o Projeto do que Será”, no âmbito do programa comemorativo dos 500 Anos do Foral Manuelino, hoje à tarde, prosseguiu no Moinho de Maré, em Alhos Vedros, com o tema “ O Velho Concelho do Ribatejo; O Concelho de Alhos Vedros”.
Espaço histórico pertencia a Alhos Vedros
António Ventura, historiador, abordou o tema . “Alhos Vedros no Contexto da Margem Esquerda do Estuário do Tejo: Uma Perspetiva Económica dos Séculos XIV-XIX”.
Recordou que o território do concelho de Alhos Vedros, conhecido no século XVI como “outra banda”, era “sinónimo da margem esquerda do Tejo”.
Referiu que o concelho de Alhos Vedros estendia-se desde Aldegalega até Palhais e Vale de Zebro, área geográfica que teve grande influência no apoio logístico aos descobrimentos, razão que o motivou a salientar – não nos parece correcto enaltecer o papel do Barreiro nos descobrimentos”, porque esse “espaço histórico pertencia a Alhos Vedros”.
Na sua opinião este território marcou o “centro de gravidade” da actividade económica , até ao século XVI, junto ao Rio Tejo e Rio Coina.
Filhos de pescadores
António Ventura, recordou que o desmembramento do concelho de Alhos Vedros, retirou-lhe a sua importância estratégica, nomeadamente com a criação dos concelhos do Barreiro e Lavradio.
Referiu que o concelho do Barreiro limitava-se a uma área correspondente à zona entre a Feira Nova no Lavradio e a Verderena, enquanto o concelho do Lavradio, estendia-se até Palhais. Vale de Zebro continuou a pertencer a Alhos Vedros.
O historiador recordou que no ano de 1521, quando da criação do concelho do Barreiro, a sua actividade económica era essencialmente piscatória – “50% das pessoas que nasceram eram filhos de pescadores”.
Alhos Vedros secundarizado pela Moita
O concelho do Lavradio, criado em 1670, e o concelho da Moita, criado em 1891, foram decisivos para afastar o concelho de Alhos Vedros das suas actividades ligadas ao rio, porque retirou-lhe os acessos aos principais cais.
“O porto de Alhos Vedros é secundarizado pelo porto da Moita” – sublinha.
Referiu o historiador que este desmembramento do concelho está na origem da opção para as actividades agrícolas, nomeadamente com a exploração do vinho.
Lavradio territórios produtivos
António Ventura, salientou o facto do concelho do Lavradio, no século XVIII – que se estendia à Telha e Palhais – ser marcado por muitas Quintas e Fazendas.
“Eram territórios produtivos que o rei que tinha cumplicidades doava” – referiu.
Crise de subsistência
António Ventura, salientou as tipologia de relações comerciasi que o concelho de Alhos Vedros estabelecia com outros concelhos envolventes – compra de peixe, ou compra de trigo com Santarém e Ferreira do Alentejo.
A “crise de subsistência” afectou a população, sublinhou o historiador, registando um paralelismo entre o aumento dos preços de trigo e o aumento do números de óbitos, no concelho de Alhos Vedros.
António Ventura, recordou que no século XIV, Alhos Vedros assumiu uma grande importância económica com a sua actividade salieneira.
SINOPSE
António Ventura
• "Alhos Vedros no Contexto da Margem Esquerda do Estuário do Tejo: Uma Perspetiva Económica Séculos XIV-XIX"
O antigo concelho de Alhos Vedros ocupava um extenso território desde Sarilhos Pequenos até próximo de Coina, localização privilegiada para abastecimento da cidade de Lisboa naquilo que a capital tanto precisava: sal, vinho, lenha, carvão e madeira, moagem e panificação e outros produtos com o rio relacionados.
Contudo, a sua desintegração em novos concelhos, a progressiva escassez de alguns produtos e o afastamento do "centro de gravidade" para novos locais, nomeadamente a Moita, contribuíram decisivamente para o seu declínio e extinção em meados do séc. XIX.

