Vão-se os anéis e ficam os dedos…. Finalmente discute-se a saída do euro!
Desde há alguns anos, pelo que fui escutando, de opiniões diferentes, dado que não sou economista, não percebo nada de economia, mas, sinto os efeitos na pele como cidadão, que tenho pensado – só temos uma saída, ficar na Europa, mas sair do euro.
As decisões dos «laboratórios» europeus, de macro estudos, olhavam para Portugal e diziam: têm que reduzir o deficit, é preciso «cortar as gorduras do estado», é preciso privatizar, é preciso «europeizar Portugal».
Como fazer isso, de facto, num país, com séculos de história a viver e a existir com base numa «cultura de estado»?
Desde que começou esta dita politica de «austeridade» tem sido uma realidade de muitos portugueses, principalmente da sua classe média –alta e baixa – viver o drama do constante «empobrecimento» porque, de acordo com os estudos «macro-laboratoriais» Portugal tinha que se aproximar dos níveis de «deficit» impostos pelo facto de integrar o «sistema monetário».
O caminho traçado, de acordo com as regras definidas no «plano laboratorial» era eliminar as ditas «gorduras do estado» , num país que, todos sabem, durante séculos cresceu desenvolveu-se e afirmou-se à sombra do estado.
Foi o «estado» que decidiu dar a Portugal a sua dimensão mundial quando apontou como caminho abrir os caminhos para a India, e, como defende Miguel Real, contribui para que este cantinho à beira-mar plantado se afirmasse como «potência» e uma realidade sócio- económica, com «identidade» cultural muito própria no mundo, na Europa e na península Ibérica.
Foi o Estado, sempre o Estado, que marcou a nossa «cultura colectiva», na Monarquia Constitucional, na República, no regime Salazarista-Marcelista, no PREC, e, continua a ser hoje o Estado o maior empregador do país.
As empresas dependem do Estado, a classe média depende do Estado, o país depende do Estado.
São talvez 2, 3 ou 4 milhões de portugueses que directa ou indirectamente dependem do Estado. Foi assim na monarquia. Foi assim na República. Foi assim no PREC. Foi assim no Cavaquismo. Continua a ser assim.. e são esses portugueses que tudo decidem e vão continuar a decidir. Ora votando PSD, ora votando PS, ora optando pela abstenção, como no passado apoiaram Salazar, ou no PREC foram revolucionários.
Todos os partidos portugueses, após o 25 de Abril, com base nesta nossa realidade sócio- politica e sócio-cultural, pela dimensão do processo revolucionário, e por “negação” ao regime ditatorial, nasceram com uma «cultura de esquerda», todos eram pelo «socialismo» - do «socialismo humanista» ao «socialismo maoista». Todos eram pelo Estado e todos vivem do Estado.
Entramos na Europa, porque somos parte dessa realidade cultural – (greco- romana e judaico-cristã).
Foi um tempo de sonho e de utopia. Os líderes do nosso país sabiam que estavam a «vender-nos» uma ilusão.
Mas a Europa era uma porta que se abria à esperança de construção de um novo Portugal.
Entraram fundos europeus. Deu para tudo. Não vale a pena arranjar culpados. Todos embarcamos nesse barco.
O estado era, mais uma vez, o motor da economia, o número de desempregados, diminuía com a formação, com os projectos europeus.
Depois entrámos para a União Monetária. Era um esforço que se exigia, era uma aposta para nos aproximarmos da realidade europeia.
Mas, aqui, continuava a ser o estado o motor da economia, vieram as scuts, as energias renováveis.
Este era um país cujo único rumo seria continuar a ter no Estado o seu suporte.
A crise mundial veio acelerar as dificuldades de um Estado que não tinha recursos para responder aos seus próprios compromissos.
As decisões dos «laboratórios» europeus, de macro estudos, olhavam para Portugal e diziam: têm que reduzir o deficit, é preciso «cortar as gorduras do estado», é preciso privatizar, é preciso «europeizar Portugal».
Como fazer isso, de facto, num país, com séculos de história a viver e a existir com base numa «cultura de estado»?
Vai de austeridade. Vai de tomar medidas que reduzam o «deficit» para que Portugal entre no ritmo de países que estão a «anos-luz» do nosso modelo e da nossa realidade sócio-económica.
Essa era a única forma de nos mantermos no euro.
Recordo que quando foi anunciada a célebre medida da TSU que foi contestada e repudiada, quando a vi explicada, até, pensei, talvez esta seja uma boa forma de estimular a economia.
Mas, de facto, isso era impossível num país que vive do estado, conta com o estado e onde o estado é o centro da economia, o maior empregador.
Desde há alguns anos, pelo que fui escutando, de opiniões diferentes, dado que não sou economista, não percebo nada de economia, mas, sinto os efeitos na pele como cidadão, que tenho pensado – só temos uma saída, ficar na Europa, mas sair do euro.
Se a Europa não percebe, ou não quer perceber, por razões culturais, de vivências diferentes, de histórias diferentes, que a «união monetária» tem que estar associada a «união socio-política», de forma que possam existir a definição de politicas que apontem para realidades diferentes, diferentes politicas, obviamente que a «cultura monetária do deficit» é insustentável, sim, é insustentável, porque conduz à miséria, à pobreza ao definhar de povos que não estavam preparados para esta nova realidade, agravada, ainda por cima pela crise mundial.
Portugal era um deles, por razões históricas, da sua dependência do Estado, e, até, porque com a entrada na União Europeia as politicas agrícolas e as politicas de pescas, impostas para recebermos fundos comunitários, destruíram esses dois sectores económicos a jusante e a montante.
Quanto à nossa pouco dimensão industrial, já estava em crise antes do 25 de Abril e depois aprofundou-se.
A desindustrialização era uma realidade. Em substituição veio a politica do betão, das autoestradas.
Na indústria, ainda recebemos uns «elefantes brancos» no negócio com o FMI, no tempo de Mário Soares, para entrarem uns milhões construindo fábricas que sabia-se, à partida, «não tinham futuro» numa perspectiva da economia global emergente. O Barreiro foi uma terra bafejada com essa prenda.
Chegámos aqui, sem indústria, sem agricultura, sem pescas, um país cuja actividade económica tem por base as pequenas e médias empresas.
Chegámos aqui, um país, habituado ao longo de séculos a viver do estado e que continua a viver do estado, onde, agora à força, querem reduzir o estado, como quem faz «harakiri» e demonstrando á outra Europa, de outra dimensão, de outra cultura – a cultura do protestantismo, que não é a nossa Católica – que somos «bons alunos», somos «competentes», nem que para isso tenhamos que morrer uns milhões.
E morrer não é apenas morrer, como dizia o poeta - «de morte matada» - é morrer como pessoas com dignidade, com esperança, com valores.
Em suma, finalmente, está na rua a discussão adiada, sucessivamente adiada, porque o mundo que voa lá por cima, rumo a Bruxelas, ou outros lugares, não a queria, mas, agora, sente que esta é uma discussão inadiável.
Ficar na Europa e sair do euro. Por mim, que não percebo nada disto, mas que vivo neste país, e quero ser feliz aqui, de há muito esta discussão devia ter sido aprofundada, sem dramas, sem tragédia.
Um país que vive do Estado, não pode estar no euro, porque essa «união monetária» exige outras dinâmicas.
Portugal só tinha um caminho sair do euro. Escutei algumas vozes a clamar no deserto e a serem vilipendiados por defenderem esta opinião.
Hoje o assunto está na Praça pública. O debate está aberto.
A saída do euro, aliás, parece-me ser a única via para salvar o nosso sistema politico-constitucional e recomeçarmos um novo caminho, com novas dificuldades, mas, se calhar, se formos capazes, podemos começar a preparar o caminho para a nova realidade mundial que já está a ser anunciada – o mercado económico que vai unir a Europa aos Estados Unidos.
Já está em discussão. Acreditem e vai avançar.
E, de facto, sendo nós uma importante plataforma Atlântica que pode servir a Europa, se formos capazes de antever o futuro, e se o Estado, tal como no tempo que nos empurrou para a afirmação da nossa identidade, através dos Descobrimentos, conseguir ser o motor estratégico de investimentos que preparem esse futuro, talvez, como povo, possamos de novo ser um país livre e com destino.
Ficar no euro, assim, só com a «regra de ouro» da austeridade, numa Europa de duas realidades que esqueceu os fundamentos da sua criação solidária, o que temos pela frente é fome, é miséria, é um país adiado, gerido por tecnocratas insensíveis, porque não pensam Portugal, pensam com a troika e ao lado da troika.
Por mim, quanto mais depressa sairmos do euro melhor…porque vão-se os anéis e ficam os dedos.
Fica a nossa dignidade e a possibilidade de irmos construindo um país diferente, com as lições da história, mas que é este país real…o Estado é o maior empregador.
Mudar isto, sim, mas demora anos e não são sete anos de adiamento das maturidades que vão resolver este nosso problema estrutural.
Será difícil perceber isto…ou querem mesmo matar-nos à fome!
António Sousa Pereira
LER
http://www.rostos.pt/inicio2.asp?cronica=15250&mostra=2
Desde há alguns anos, pelo que fui escutando, de opiniões diferentes, dado que não sou economista, não percebo nada de economia, mas, sinto os efeitos na pele como cidadão, que tenho pensado – só temos uma saída, ficar na Europa, mas sair do euro.