Será que olhar maçãs é pecado?
Sigo, lentamente, pela Avenida Alfredo da Silva. Olho a calçada feita a dois tempos.
Paro na esquina da Livraria Bocage, um espaço carregado de memórias.
Paro e mergulho no tempo. Penso. No outro lado da rua existia a Biblioteca Municipal. Agora, sinto o cheiro e as cores das frutas. Vejo maçãs, laranjas e toda a verdura da natureza.
Paro, no pensamento onde mergulhei.
Ah, é verdade, foi ali, naquele espaço de silêncio meditativo, que eu li Dostoievsky. Tardes sucessivas a deliciar-me com os seus romances, num tempo antes de Abril acontecer...
Dou comigo a percorrer as páginas do grosso volume dos «Irmãos Karamazov».
Fico suspenso no pensamento, tal como outrora, recordando aquela frase que ficou a cintilar, por toda a vida, nos meus neurónios : “Se Deus não existe tudo é permitido!”
Paro. Olhos as maçãs verdejantes e penso, apenas isso: Será que olhar maçãs é pecado?
António Sousa Pereira
Lavradio - 9 de Julho 2012
