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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

O menino de sua mãe, afagado com o olhar, beijado com o coração

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O tempo é um som de silêncio que se distancia entre um lugar de luz de onde vimos, para outro qualquer lugar, dizem de trevas, para onde não sabemos se vamos.

O tempo é esta energia que nos move, força que acalenta poemas, palavras que escrevemos em fontes de lágrimas, seiva de ternura que bebemos no tempo quando o sentimos a navegar em fontes de sonhos.

A poesia é o sentimento que faz a vida renascer para além da morte, porque com ela, também se faz a vida renascer no silêncio que se faz eternidade.

Escrevo estas palavras para partilhar, coisas que tocam a vida por dentro do pulsar do coração. Acasos.

 

Sabem, ontem, pela manhã, no encontro matinal com a vida, essa que pulsa pelas redes sociais, com alegrias tristezas, sorrisos e lágrimas, na verdade, comecei o dia com uma tristeza enorme, a brilhar no pensamento, quando li aquelas palavras, a mensagem de dor, do José Salgueiro, a comunicar aos amigos que, na noite, que ficava para trás, pelas quatro e tal, a madrugada deixou de sentir o bater do coração do seu filho João Salgueiro, e, digo-vos, este, é um daqueles momentos que vivemos intensamente, quando neles sentimos o tempo inscrever-se, um tempo que se faz silêncio ao abraçar o tempo que temos dentro de nós, aqueles instantes que se fazem memória. Inesquecíveis.

Instantes que vivemos e sentimos que pensamento toca o coração, tal com o coração que parou na noite, sentimos o tempo que vivemos beija a nossa interioridade, e, o tempo inscrito dentro de nós, fica em silêncio.

 

Sabem, quando acabei de ler as palavras do Zé Salgueiro, dei comigo encostado, no meio de um ruído de festa, em silêncio, no varandim do Restaurante Manuela Borges, a olhar com emoção, muita emoção, aqueles movimentos de carinho, ternura e afecto da Ângela Salgueiro, que com candura acariciava os cabelos do João, confortava as suas as pernas. Sentia, com o meu olhar, em silêncio, a palavra amor a fluir em gestos. Uma melodia.

O pessoal em festa divertia-se, preparava-se para o momento do corte do bolo, naquele ambiente onde a amizade e a solidariedade, pulsava nos corações, uma festa de família, que marcava a Gala da GDESSA.

E, no meio daquela festa efusiva de alegria a saltar nos sorrisos, eu, encostado ao gradeamento, deitava os meus olhos, apenas, para observar e sentir aquele quadro de ternura e paixão, do menino João Salgueiro, sentado na sua cadeira, a olhar em volta, e, a ternura, o carinho que fluía em silêncio dos olhos e das mãos de sua mãe. Mãos de veludo, afagando as suas pernas, acariciando os seus cabelos.

Eu olhava, olhava e pensava, comigo, naquele poema que sentia nascer num quadro real, ali, vivo de afectos, uma enorme vaga de amor e de festa, dentro da festa. Que lindo!

O Nuno e a Joana cortavam o bolo da GDESSA, e, de repente a Ângela caminha até junto da mesa e, com aquela delicadeza materna, transporta nas suas mãos, para as mãos do João, a doçura para alegrar os seus lábios de amor.

Observava aqueles instantes e pensava, vou escrever uma crónica sobre este momento. Este momento, feito de um tempo onde sentia a pureza da ternura, em movimentos vivos a semear afectos.

Ali, na noite, escrevia-se, com a energia do big bang, a força da palavra amor, esse amor que dá beleza à vida, essa beleza que se faz eternidade. Um poema. Sim, um poema em que eu sentia, ali, erguer-se numa escultura de Miguel Ângelo, ou um quadro de Vicent Van Gogh, onde florescia o menino de sua mãe, o sempre menino de sua mãe, afagado com o olhar e beijado com o coração.

 

Por isso, hoje, pela manhã, quando li a mensagem da partida do João, este instante que vivi, naquela noite da GDESSA, também parou nos meus nervos. Senti como o tempo e a vida nascem em poema, sempre que a vida é vivida com a palavra amor.

Partilho, com estas minhas palavras esta memória que ficou inscrita no tempo vivido, porque, afinal, é nestes momentos, únicos, que nós descobrimos como a vida, é sempre um tempo que se esvai no tempo, um silêncio, que faz de nós o que somos, por dentro das experiências, por dentro do tempo, a eternidade nasce, sempre que a vida nos faz pensar, descobrir o amor e o afecto.

Acreditem, existe, dentro dos dias, basta olhar e sentir. Eu senti, e vou guardar essa lembrança.

 

António Sousa Pereira

Do sonho da Estação Oriente» da Margem Sul ao Mercadona

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A renovação total da frota dos TCB é a principal referência da acção autárquica nesta última década, para implementar um desenvolvimento equilibrado e sustentável.

Um investimento com a marca Carlos Humberto, como, aliás, foi reconhecido pelo Primeiro- Ministro António Costa, quando da entrega simbólica dos primeiros autocarros.

 

Um dos temas que considero de grande relevância, ao longo de décadas, na vida do concelho do Barreiro, é a importância estratégica no desenvolvimento do seu território,  que foi concretizada pela dinâmica dos seus transportes municipalizados, e, igualmente, o contributo dos TCB para que possa existir uma visão polinucleada do concelho.

 

Maior e melhor investimento estratégico

 

E, por esta mesma, razão considero que o maior e melhor, talvez o único, investimento estratégico realizado, no concelho, na última década foi a renovação total da frota, fruto de uma parceria entre a autarquia, liderada na época por Carlos Humberto, CDU, e, o governo liderado por António Costa, PS.

Este é um grande exemplo de trabalho politico realizado no concelho, por uma liderança que promovia a sua acção politica para desenvolver mudanças estratégicas, com visão de futuro, dessa forma construindo um legado para os vindouros, e, não no mero “navegar à vista” ou, ao “sabor dos interesses do imediato”, vivendo e gerindo as circunstâncias.

Considero mesmo que a renovação total da frota dos TCB é a principal referência da acção autárquica nesta última década. Um investimento iniciado pela CDU, e, naturalmente, continuado pelo PS, como, aliás, foi reconhecido pelo Primeiro- Ministro António Costa, quando da entrega simbólica dos primeiros autocarros.

 

Uma dimensão regional para os TCB

 

Outro aspecto, interessante que quero sublinhar é a acção travada, ao longo de anos, pelas gestões da CDU, no sentido de alargar a área de intervenção dos TCB aos concelhos limítrofes, nomeadamente Moita, pois começaram a operar nas as freguesias da Baixa da Banheira, Vale da Amoreira e Alhos Vedros. Foi uma batalha de anos, até se alcançar as mudanças legislativas que permitiram avançar com esta dimensão de realização do serviço intermunicipal.

Recordo, a propósito do inicio deste alargamento da área dos TCB, as dificuldades que existiam, devido ao envelhecimento da frota, mas, isso, na verdade, não colocava de lado para os TCB a enorme vontade de enfrentar este desafio, porque inerente a esta nova área de acção territorial, várias  vezes escutei, das gestões CDU, que existia a intencionalidade de estudar, reflectir sobre uma nova estratégia, visando alargar a capacidade dos TCB, dando-lhe uma dimensão regional. Matéria que, registo, desapareceu da agenda.

 

Autocarros dos TCB: verdes ou amarelos?

 

Tudo isto ocorreu-me ao pensamento quando,  um destes dias escutei nas redes sociais, uma conversa, que nem liguei muito, mas acho que era sobre a cor dos autocarros dos TCB, dando-se ênfase ao facto de, com todas as mudanças registadas nos transportes na Área Metropolitana de Lisboa, onde, sabemos os transportes públicos passaram ter, como marca, a cor amarela, sublinhava-se o facto de os autocarros dos TCB manterem a sua cor verde, como se isso fosse uma coisa de grande importância para o futuro dos TCB.

Os TCB, por mim, podem ter a cor verde, amarela, ou a cor que se entender desde que a sua dimensão e capacidade de prestar um serviço de qualidade continue, como serviço público e, também, que esse serviço público pudesse crescer e alargar a outros concelhos, transformando-se numa marca de referência, intermunicipal ou regional, criadora de empregabilidade e de prestigio para o concelho, porque é uma herança, exemplar de uma serviço público ao serviço do desenvolvimento sustentável.

Pouco me interessa esse bairrismo da cor verde dos autocarros, oxalá os TCB pudessem vir a transformar-se, com outra cor, no grande serviço de transportes públicos do Arco Ribeirinho Sul, que agora está na agenda do planeamento do território.

Mas, na verdade, para isso os TCB precisavam garantir espaço operacional, de forma a ter condições de alargar as suas instalações oficinais e de parqueamento.

Ora para isto era preciso visão e estratégia, ter uma ideia do papel dos TCB, no concelho e na região. Talvez o João Pintassilgo tenha tido esse sonho. Acredito, que teve. Mas, venceu o Largo das Obras.

Enfim, esta, parece-me ser mais uma oportunidade perdida, porque, afinal. o município decidiu entregar, aos Supermercados Mercadona, os terrenos que podiam permitir a futura expansão dos TCB. Opções. É, isso, o Barreiro novo a nascer.

Sim, os TCB podem continuar de cor verde, porque, pelos vistos o sonho de dar-lhe uma outra dimensão, estão hipotecados.

 

Da Estação Oriente ao Mercadona

 

Aliás, ainda ligado a estas coisas que me ocorrem ao pensamento registo o facto de, em tempos idos, quando da discussão da TTT – Terceira Travessia do Tejo, comentar-se a possibilidade de nascer no espaço envolvente aos TCB a Estação Oriente da Margem Sul.

Enfim, hoje, o que concluo, ao viajar pelo pensamento, é que, o sonho da Estação Oriente na Margem Sul está a diluir-se na Loja Mercadona.  

Divirtam-se!

 

António Sousa Pereira

 

«Fabricado no Barreiro»: a banalidade do ano 2023

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Hoje, dia 4 de janeiro de 2024, quando fui à farmácia, surgiu, nem sei a que propósito a conversa do “fabricado no Barreiro”, e, na verdade, o que escutei foram risos e comentários – “agora tudo é fabricado no Barreiro…e, no meio da conversa, alguém acrescentava, “se isso fosse a realidade”. E de facto só dá para rir.  

José Tolentino Mendonça, numa das suas crónicas, publicada no livro «A mística do instante», recorda que a filósofa Simone Weil, trabalhou numa fábrica, e, dessa sua experiência escreveu no seu diário uma reflexão : “Que cada um no seu próprio trabalho seja um tema de contemplação”.

O Cardeal Tolentino Mendonça, refere que Simone Weil, descobriu, nessa realidade, no seu trabalho, que a contemplação, lhe estava vedada na fábrica, porque, ali, afinal, o dever número um, pelo qual todos eram compensados, ou punidos, era a velocidade da produção, monótona, maquinal, desumanizada.

Simone Weil, salientava que, como ser pensante, com recordações e fragmentos de ideias, sentia que na fábrica, a única coisa que contava era : “que o homem possa funcionar mecanicamente como peça de uma engrenagem”, e para ela, “isso representa, mais cedo ou mais tarde, a destruição do homem”.

Ocorreu-me ao pensamento este texto, quando, no passado mês de dezembro, ao abrir a minha caixa de correio, encontrei o tradicional cartão de Boas Festas da Câmara Municipal do Barreiro, e, nele, bem no centro, bem visível, para que todos pudéssemos “contemplar” lá estava “imposta” aquela célebre frase da gestão 2830.

Enfim, uma frase que que vai ficar para a história como a marca de um modelo de gestão que aposta na imagem, no culto da personalidade e vive da politica de surf, ou seja, das coisas herdadas do passado e das coisas que vão nascendo, ou privadas ou pública, tudo isto se resume à frase : Fabricado no Barreiro.

Pessoalmente, já sabia, de anos anteriores e, também, de novo este ano renovado, que afinal, agora, coisa que nunca aconteceu nas últimas décadas pode dizer-se: “Barreiro - aqui há Natal”.

Assim, para além do Boletim da comunicação autárquica “Jornal  Aqui Barreiro”, convém não esquecer, e, portanto acrescentar ao  “Aqui há Natal”, coisa que sabemos é inovadora, também agora, o Natal é “Fabricado no Barreiro”.

 

Eu que sou velhote, sempre associei o Natal a palavras como fraternidade, amor, solidariedade, paz, boa vontade, família, amizade, ternura, carinho, esperança, entre outras, nuca senti o Natal com essa dimensão intelectual socializante do “Fabricado no Barreiro”. Ignorância minha.

Todos sabemos, ou muitos sabem, e conhecem a tal célebre frase da CUF, a marca de Alfredo da Silva :“O que o país não tem a CUF cria”, desconhecia, e, esta é para mim é a grande novidade que fica a marcar o ano 2023, afinal, o Natal, essa festa universal, é “fabricado no Barreiro”.

 

Na verdade, já nas Festas do Barreiro do ano 2023, esse slogan, da gestão socialista, foi imposto como o lema daquele evento que, na verdade, largamente transcende qualquer gestão autárquica, pois é um evento com mais de 300 anos.

O «Fabricado no Barreiro» é, na verdade, um slogan fantasioso, desligado da realidade, é a mera expressão de um pseudo “narcisismo local”, é um slogan vazio, que pretensiosamente procura fazer, eventualmente,  a ponte entre a cultura empresarial e industrial dos ferroviários, da CUF, com a actualidade, mas não tem qualquer conteúdo, porque não tem qualquer projecto, nem se vislumbra uma estratégia subjancente.

 

Aliás, a única “ideia” que emerge deste slogan deve é o querer fazer cidade e cidadania, com base no conceito de “produçãol”, como quem considera que “produzir cidade” é “arquitectar cidade”, é “fabricar cidade”, é olhar para o território e zás, a cidade é isto, que uns ilustres pensadores germinaram, ali, para o mausoléu do Largo das Obras, de tal forma que, agora, até já se fala “em fabricar o Barreiro novo”.

 

Quando se afirma em “fabricar um Barreiro novo” é porque se considera que há outro Barreiro «o velho que tem que ser desmantelado. E pessoalmente gostava de conhecer esse Barreiro Novo. O que vejo é nascer, a todo o vapor, a cidade do betão.

 

Esse, Barreiro Novo é algo que ninguém conhece, que está no segredo dos gabinetes dos “pensadores da cidade”, os fabricantes, sem a participação dos cidadãos, é, sem dúvida essa a cultura do “fabriquismo”. Eles é que sabem.   

O fabriquismo é uma ideologia, sem ideologia, é marketing de vazio, sem ideias

Fabricado no Barreiro é uma espécie de Barreiro  2830, que quer produzir um “orgulho local”, vazio de identidade e de memória.

O fabriquismo o que pretende é, regar geral, dizer que para trás tudo esteve mal, para depois erguer a bandeira – “tá melhor có que estava”. É isto o fabriquismo.

O fabriquismo é a história de milhões, muitos milhões, ou do PRR, ou de privados, fruto das circunstâncias, que nada tem a ver com um projecto de cidade.

O fabriquismo está a fabricar um Barreiro Novo que só se pensa no centro, a 15 minutos de Lisboa, e é incapaz de se pensar como uma centralidade da Península de Setúbal e da AML. Daí o silêncio sobre a localização do aeroporto, ou o salta pocinhas sobre a Terceira Travessia do Tejo. Ou a ausência de uma séria reivindicação de construção da ligação da ponhte Barreiro - Seixal. Ou até o pensar conceitos de cidade-concelho, polinuclear, que vai para além, muito para além da cosmética de rotundas e de pseudo recuperações de antigas zonas ferroviárias, ou de bairros sociais.

 

Em suma, o slogan da gestão 2830 – Fabricado no Barreiro – foi, para mim, a banalidade do ano 2023, mas é uma banalidade que espelha as politicas de surf, que vão gerindo a cidade de acordo com os acontecimentos, sem outra visão que não seja a cidade do IMIé .

 

Se, para mim, este slogan estava morto, ou era apenas um slogan, abraçado pela gestão 2830, agora ao dar-lhe a dimensão natalícia, ficou reduzido a isso mesmo, é uma banalidade, porque espelha a dimensão do fabriquismo que tudo quer municipalizar.  

 

Afirmar : Fabricado no Barreiro é como afirmar a cultura do «fabriquismo», cuja essência visa a desconstrução da memória, negar o legado de outras gerações, forjar a ideia que um “mundo novo” está a nascer - “um novo Barreiro”.

 

Hoje, dia 4 de janeiro de 2024, quando fui à farmácia, surgiu, nem sei a que propósito a conversa do “fabricado no Barreiro”, e, na verdade, o que escutei foram risos e comentários – “agora tudo é fabricado no Barreiro, e, no meio da conversa, alguém acrescentava, “se isso fosse a realidade”.

E, de facto, isto só dá para rir. Vão lá dizer o contrário aos criadores.

 

O fabriquismo não é um pensamento de fazer cidade e cidadania é apenas um modelo de marketing político, de gestão de imagem, e, cuja finalidade é promover visões e ilusões para manter o poder pelo poder.

Como escrevi, noutro texto, o fabriquismo é a promoção de um orgulhismo patético, que não tem valores, nem princípios, é a-ideológico, e, apenas quer contribuir para estimular o populismo.
Do “Fabricado no Barreiro – produzimos orgulho local” ao “Barreiro – aqui há Natal – Fabricado no Barreiro”, reside a banalidade de um barreirismo sem alma.

Divirtam-se.

 

António Sousa Pereira

Barreiro – Do «império industrial» ao «império do betão»

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Hoje, no começo deste ano de Dois Mil e Vinte e Quatro, fui dar o meu passeio matinal, pelo Passeio Ribeirinho Augusto Cabrita, lá estavam os resíduos da festa, essa festa que saúda efusivamente a passagem do tempo. Confetes. Notas de Euros. Garrafas. A festa.

 

Fui caminhando ao longo da margem, um «Bom Dia», aqui, um «Bom Ano», acolá. Um aperto de mão. Sempre presente, o novo tempo anunciado.

Junto à muralha, perto do Clube Naval do Barreiro, escutei as ondas do Tejo a beijar aquela franja de areal. Olhei Lisboa. É belo sentir os sons da paisagem. Fechar os olhos, sentindo a ondulação bater, com ternura, nos neurónios. Todas as paisagens têm dentro de si sons que transportamos.    

O movimento da sonoridade das ondas foi, subitamente, quebrado pelo som das 11 horas, que rompeu a luz do sol, vindo da Igreja de Nª Srª do Rosário, a cantar – “Avé Maria”. Sorri.

Olhei a Caldeira da Braamcamp, ali ao abandono, já lá vão alguns anos, desde 2017, afinal, desde que a gestão socialista, que está apostada na construção do «Império de Betão», decidiu cancelar os investimentos de fundos europeus, que estavam programados e aprovados, e, pelos suas ilusões improváveis ( só porque o PDM, ultrapassado o previa) optou por desviar esses investimento para outros objectivos, enfim, sonhava construir naquela zona ribeirinha a dita «Veneza do Tejo».  Estórias. Um território que é património municipal ao total abandono.  

Neste meu deambular pela paisagem, olho para o fundo do Passeio Ribeirinho Augusto Cabrita, observo os territórios da antiga CUF, recordo os meus dias a trabalhar na fábrica de Zinco Metálico. Nesse tempo, já com indústrias em decadência, os elefantes brancos que por ali proliferavam, mas, o Barreiro ainda tinha dentro das suas vivências quotidianas a energia do «Império Industrial», uma realidade económica e social que lhe dava vida própria, que se misturava com as suas zonas dormitório, nascidas na expansão urbana que começou nos anos 70, com a fuga dos quartos de Lisboa, para andares no Barreiro. De tal forma, esta era uma cidade viva e activa, que nos anos 90, o Barreiro era um dos concelhos, do país, com maior número de jovens licenciados.

Neste começo de ano de Dois Mil e Vinte Quatro, olho a paisagem, e, sinto que afinal, o Barreiro do «Império industrial», hoje, está sendo «fabricado» para se transformar num «Império do betão».

É isso que faz pensar, e sentir, a frase da moda: «O que o Barreiro era, e o que o Barreiro é…”. Coisas.

Divirtam-se. Bom Ano Novo.

 

António Sousa Pereira

 

Passeio Ribeirinho Augusto Cabrita, para quando a identificação?

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Numa proposta, aprovada por unanimidade, na Assembleia Municipal do Barreiro, foi aceite a recomendação de ser atribuído ao Passeio Ribeirinho do Rio Tejo, a marginal da Avenida Bento Gonçalves a designação - Passeio Ribeirinho do Tejo Augusto Cabrita.
 

Recorde-se que a proposta foi apresentada, por Emidio Xavier, no ano de 1997, no tempo da gestão CDU de Pedro Canário, a dita proposta foi subscrita pela bancada dos deputados do Partido Socialista, na Assembleia Municipal do Barreiro, sendo aprovada por unanimidade.
Nestes 26 anos já passados, aquela artéria foi submetida a diversas intervenções, quando por ali passemos recordamos o que aquilo era e o que aquilo é, no que se refere à ligação da cidade ao rio, do fruir da paisagem, do sentir a beleza daquela que sempre foi conhecida como a mais bela »varanda do Tejo».
Na gestão de Carlos Humberto, foram realizados dos mais importantes melhoramentos naquele espaço público, com intervenção da APL e com uma visão estética que, quem percorrer com o olhar, descobre os pormenores que, sem dúvida, permitem sentir o rigor da intervenção de arquitectos paisagistas.

Mas, aqui e agora, passados 26 anos, depois de várias gestões autárquicas, quer PS, quer CDU, uma coisa não mudou. Várias vezes já o escrevi, por essa razão, de novo escrevo e deixo o registo.
Neste ano que está findar, que se celebrou o centenário do nascimento do Mestre Augusto Cabrita, apelo a quem de direito, que sejam colocadas as placas toponímicas que permitam a quem visita aquele passeio ribeirinho obter a informação, nunca ali identificada – Passeio Ribeirinho Augusto Cabrita.
Obrigado!

António Sousa Pereira

O meu país é o Hotel Califórnia

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O meu país é o Hotel Califórnia, cada cidade é um corredor por onde todos caminham em gestos de futuro por sonhar, sem caminho para andar, quando todos sabemos que a vida só se faz caminhando. Escutam-se os gritos dos profetas, em silêncio. As luzes iluminam a noite, em penumbras, que convidam a ficar, escondido, na mansidão do luar. Os dias são pintados de escuridão que abre brechas no sol.

O meu país é o Hotel Califórnia, aqui, uns são materialistas sonham com um bom carro, com a vivenda, ou, porque não, um barco e uma boa motorizada. Nada melhor que um bom espaço para beber um copo, conversar e sentir os nervos explodir para além da rotina que trucida os dias. Uns gostam de dançar. Outros gostam de beber as utopias. Entre gritos e copos nascem ideias deslumbrantes. Projectos que, sonham, isto vai valer milhões. Negócios. Mercados. Consumo. Tudo perfeito sem surpresas.

O meu país é o Hotel Califórnia. Quem foi preso? Interroga-se no café. São todos iguais! Banaliza-se. Escutam-se alibis. Em todos os tempos, os alibis são iguais. Repetem-se. Todos descansam se existir um culpado. O importante é encontrar um culpado. Entretanto, convém uma distração provisória.  Pode ser o Benfica – Sporting. A malta diverte-se, inventa canções, anedotas. Uma galhofa. É imensa a criatividade para criar conversas que banalizam a vida real, essa que se esconde por de trás dos milhões. Eles é que sabem viver. A indiferença flui entre gargalhadas.

 

O meu país é o Hotel Califórnia, pela manhã uns acordam rumo à outra margem da vida real, para juntar tostões que possam alimentar os filhos, pagar as rendas de casas, e a prestação do carro ou do cartão visa. A dita justiça, essa que se perde ao longo do tempo, prende mais um, os jornais contam com manchetes para a primeira página, os telejornais garantem audiências. Lá vão os jornalistas para os directos, à porta de casa, no Tribunal. Tudo normaliza. Uns saem com caução, outros com pulseira electrónica. Aguardemos. Até um qualquer dia, com outro qualquer caso. A história repete-se.

O meu país é o Hotel Califórnia, onde o silêncio se transforma em voz da esperança. Uma terra de banquetes. Bons vinhos. Saborosos e divinos sabores. Existe sempre um cartanito que compra a vida.

O meu país é o Hotel Califórina, onde há vidas que se esvaem em nervos derramados nas lutas diárias, entre as filas de trânsito, onde, por vezes, uma rotunda dá mais 15 minutos de vida, dizem. Outros desesperam nas filas de autocarro ou acotovelam-se nos barcos, entre as duas margens. Há mesmo quem desespere nas urgências do Hospital, onde a ansiedade cresce, enquanto se aguarda que alguém dê atenção ao pai, ou mãe, envelhecidos que aguardam uma análise, um rx, e, talvez possam sair passadas horas, para regressar a casa e dias depois voltar, o cansaço repete-se, de forma ingrata. A vida é sempre ingrata! A cidade envelhece! O país envelhece! Os avós sempre são uma ajuda para levar os filhos à escola ou creche, ainda bem, logo hoje que há greve dos professores.

 

O meu país é o Hotel Califórnia, por vezes, como somos uma democracia há eleições e, sempre, com rapidez e eficácia, as sondagens divulgam que tudo vai ficar, mais ou menos na mesma. Uns dizem que a vitória é para esquerda. Outros anunciam que a direita vai vencer. Os bons e os maus. Depois há os muito maus, e também os muito bons. Chove. Faz sol. Anoitece. Nasce o dia. Uns anunciam que vai descer o IRS. O IUC que estava anunciado vai cair. O orçamento tem folga. A divida pública, está controlada, e, lá a europa, piscam o olho, dizendo que está ainda um pouco acima da barreira dos 100. É preciso baixar. Está uma vela acesa na porta de cada cidade à espera do milagre das verbas do PRR.

Na minha cidade, onde tudo é fabricado, todos sabemos que está tudo melhor cóqueestava. O imobiliário domina a esperança, nesse sonho de jardins e quimeras que nascem a quinze minutos de Lisboa, uma nova massa critica anunciada. A cidade que se afirma como um corredor de passagem para a outra margem, um hotel, sem regresso. Uma cidade que não olha para dentro de si, porque apenas quer ser cidade-espelho da outra margem.

 

O meu país é o Hotel Califórnia, escrevo enquanto, os meus nervos sussurram-me ao ouvido, em eco a palavra Abril, em miragens, enquanto escuto  esse sons que emergem da memória dos anos 70. O Hotel Califórnia, um deslumbramento dentro do olhar, esse lugar  onde, um dia, sonhamos futuro, talvez construir a cidade da utopia, marcada pela diferenciação, com orgulho na memória – que, nos dias de hoje, se quer apagada. Afinal agora nasce tudo igual, fabricado, em cadeias de consumo. Escuto este som, que entra nos olhos, pelo outro lado do silêncio, como se fosse uma centelha que ilumina o som da voz que dorme dentro de mim, um silêncio que escuto quando falo sozinho. É nesses instantes que regresso à Rua Estreita, a azinhaga da minha infância, e descubro o valor da escuridão do silêncio. Hoje, quando ao escutar os timbres da guitarra, a saltar nos dedos, numa sonoridade que abria brechas de palavras nos meus lábios, sinto que viajo pelo silêncio do tempo, talvez pelo misticismo da Arrábida, onde o mar beija a terra e o céu encontra o sol e o luar. Calo-me na solidão. Medito. Adormeço no meu país – o Hotel Califórnia.

 

António Sousa Pereira

16 de Novembro de 2023

O cachimbo que se faz ternura e saudade.

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Pela manhã, estava na Biblioteca da SFAL, numa reunião para conversar, com um pequeno grupo de barreirenses, todos, como eu, vindos de outros lados, homens e mulheres que, nesta terra, aprenderam a sonhar utopias, feitas de esperança, talvez certezas, talvez ilusões, sendo, afinal, tudo isso que, sempre, sempre, dá beleza ao futuro. Esse futuro, em tempos idos, foi feito de cânticos de rouxinóis de asas cortadas, de palavras de gritos de dor forjadas por trás daquela janela, grades da solidão. É esse tempo que queremos viver, recordar, para que a memória não caia no esquecimento, por isso, queremos festejar os 50 anos do 25 Abril. Um tempo que está inscrito na memória de um tempo que se fez futuro.
Ah é verdade, como o Mestre gostava de colocar o cravo de Abril a beijar o seu coração.
 
Era meio dia e dezasseis minutos, deste dia catorze de novembro do ano Dois Mil e Vinte e três. Recebi uma mensagem, que gritava, por dentro da dor, palavras escritas com uma ternura que sentia, inscrita, no silêncio dos sons humedecidos: “Olá Sousa. Espero-te bem. A avó Maria Manuela faleceu aos 87 anos”. Comunicava meu amigo Augusto António Cabrita, neto da minha querida Manuela Cabrita.
 
Fiquei triste. Não triste de uma tristeza que desliza nos olhos. Fiquei triste daquela tristeza, única, que não tem dor, ou lágrimas, que se escrevam em palavras, nem tem palavras para soletrar o que nasce a florir dentro do coração. Um silêncio que não tem nada, não tem mais nada, senão aquela imensa e súbita saudade que emerge do tempo, um misto de recordações e sorrisos que invadem os olhos, sons que vagueiam por dentro das memórias. Uma ruptura com instantes guardados no confim de nós mesmos, coisas que só sente, quem sente o tempo dentro de si, partilhado, com os outros, porque a vida só faz sentido com outros a nosso lado.
 
Esses tempos que sentimos partir para um infinito a voar numa ausência que rasga os ossos, invade os olhos, explode no corpo e fica semeada no coração, esse lugar onde o tempo é eternidade. O coração é um relógio que pulsa, ao ritmo do tempo e da vida.
Recordo a minha querida Manuela, nos dias que decidi publicar o livro – “Augusto Cabrita- sobre o ritmo e sobre a vida”, como ela, com um sorriso e uma sensibilidade cristalina, abriu a porta de sua casa, de par em par, as gavetas de todas as memórias, para eu sentir, com os meus olhos o tesouro do seu companheiro de todas as horas e todas as lutas, o Mestre Augusto Cabrita.
 
Recordo aqueles dias que seus olhos eram papoilas, abertas ao sol, onde estava escrito um poema com a palavra Luisa.
Recordo a sua energia e verticalidade, estórias que contou, na sala a olhar o Tejo, naquela mesa redonda, onde tantas vezes conversei com o Mestre e onde o meu livro começou a nascer numa prancha onde o Mestre inscreveu o seu formato.
 
Recordo as muitas vezes, quando nos encontramos na rua, no parque, em eventos, momentos em que seu olhar sorria, cúmplice, com emoções escritas num sorriso a lembrar Monalisa. Discreto.
Recordo o sonho que tinha, entre outros sonhos, sonhados, de ver nascer o livro com as fotografias da India, onde toda a beleza estética da obra do Mestre emerge com espectacularidade, energia, humanismo e harmonia. Estão, agora, patentes na exposição do centenário no AMAC.
 
Recordo o afecto com falava do Mestre, o seu companheiro, ela que era o outro lado da sombra do Mestre, o pilar do seu silêncio. Comentava o amor e paixão que tinha pelas suas artes – fotografia, cinema, música. Na realidade a arte de Augusto Cabrita é poema que está semeado nos seus neurónios, vagueia nos seus nervos, floresce no seu sangue e emerge para vida pela força e sabedoria do seu olhar – luz, contraluz, sombra, mística, quimera e sonho.
Ele trabalhava por amor, só por amor, com indiferença ao sentido material da vida, comentava Maria Manuela, em palavras – “a sua vida foi construída pelo que deu aos outros”.
 
Tantas recordações de instantes partilhados com Manuela Cabrita. Uma mulher de grande nobreza, verticalidade. Uma mulher pura, simples, cuja voz mantinha uma sonoridade, onde se escutava um timbre oriundo do Algarve. A nossa província comum, eu do sotavento, ela do barlavento. Amava o Barreiro. Tinha o Barreiro no coração.
 
Um dia, num fim de tarde, enquanto conversávamos e olhávamos o Tejo, daquela janela onde está inscrito o mais belo prémio do começo de um dia, ela, com aquele sorriso infantil e cativante, que florescia do seu rosto branco de luar, em lábios que sorriam na textura das palavras, voltou-se para mim e disse: “Sousa Pereira, quero ter uma recordação sua”.
Olhei surpreendido e interroguei: “Que recordação lhe posso dar?”.
“O seu cachimbo”, disse.
E o meu cachimbo, que estava sobre a mesa, passou para as mãos da minha amiga Manuela Cabrita, que pegou nele e acariciou-o com um sorriso, feliz. Eu, também, sorri feliz. E pensei que se existe felicidade são instantes como estes que fazem na memória nascer a palavra saudade.
Recordei hoje este instante. O cachimbo que se fez recordação e ternura.
 
Ao fim da tarde, fui à Igreja de Nª Srª do Rosário, aquele templo Camarro, de orações e despedidas, Parei em silêncio e rezei um adeus daqueles que sentimos que é um até sempre, que se faz melodia que se dilui, dilui, dilui…
Imaginei-a, sorridente ao lado do Mestre, divertidos, com o meu cachimbo a lançar nuvens brancas no céu, semeando flocos de algodão, ali, por cima das ondas do Tejo, onde, como diz o poeta, está tudo o que lá não está, e, as gaivotas descansam as asas na eternidade.
 
António Sousa Pereira

Arte Viva estreou a peça “O Feio” O mercado e a procura as marcas que motivam a cidade do consumo

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A Arte Viva Companhia de Teatro do Barreiro, ontem à noite estreou a peça “O Feio”, de Marius Von Mayenburg, com encenação de Carina Silva.
Sem qualquer outro comentário quero começar por deixar uma nota, uma simples sugestão, não perca a oportunidade de até Janeiro agendar uma ida ao Teatro Municipal do Barreiro, onde poderá viver momentos agradáveis e divertir-se com este espectáculo.

Uma peça marcada por uma encenação criativa, simbólica, que dá espaço para que as cenas decorram com fluidez no espaço cénico, e deixa ao espectador a liberdade de imaginar os contextos, quer citadinos, quer habitacionais, onde num jogo de espelhos entre a imaginação e a memória tudo é possível criar e construir.

Uma encenação que pode fazer-nos pensar a cidade de betão, prédios de quarteirões que se repetem, em cores e formatos, caixotes, por onde os seres humanos vagueiam em busca de si mesmos – eus que são os outros eus - a cidade dos consumos que se consome, até à ansiedade de rotinas, igualitárias, de modas e modelos. Uma encenação que coloca no espaço cénico 7 espelhos, talvez um número do acaso, ou talvez não, pois, esse, pode ser o número dos dias de uma semana, da rotina que se faz cansaço, esse tempo que é percurso de vida individual e colectivo. Semana a semana, na roda do tempo.

 

É por tudo isto que considero que o texto desta peça tem duas dimensões essenciais – uma psicológica e outra sociológica.
Ou seja, a peça permite-nos pensar o macrocosmos da cidade e o microcosmos de cada individuo que faz cidade. O mundo exterior e o mundo interior. Como diria Freud, o ego e o superego.

Ali, podemos pensar a perda de identidade de cada um, na forma de estar e sentir a cidade, que, de certa forma, é o ponto de partida para a perda de identidade da cidade. Ou a perda de identidade de uma cidade, quando ela se transforma num mero jogo de espelhos. Um lugar onde cada um olha para o lado na procura não se si, mas do outro igual.

Uma cidade onde cada um tem o seu espelho para se encontrar consigo e com um modelo que é “vendido”, de um “produto”, uma “marca”, um “foco”, essas generalidades emocionais através das quais somos motivados a consumir, a encarnar valores, estereótipos, coisas que encarnamos na busca do sucesso, do negócio e da conquista do mercado.

Afinal, o mercado é a marca desta cidade. O mercado acaba por envolver e engolir todas as personagens, até ao abismo, de todas as incertezas, que entre galhofas e risos, um dia, deitam-se no chão das lágrimas.

A cidade é uma cadeia de consumo, uma fábrica que fabrica rostos e emoções. A cidade é um tempo que tudo decompõe, com bisturis de marketing e palavreado, o objectivo é vender, na realidade ficcional, o importante é ter “uma cara que venda”, pode vender sabonetes, um produto computacional, palavreado que ninguém entende mas, o interesse final é esse – vender.

Fica claro que a vida é uma questão de procura, por essa razão, tudo o que é rotulado de feio, deve mudar e transformar-se. O dado adquirido, sem dúvida, é que o que era feio, agora, fica melhor que aquilo que estava. O belo é o negócio.

Este é o texto e o contexto que senti, por dentro nos diálogos, nos personagens, na interpretação, na musicalidade e na encenação.

O espaço cénico marca pela simplicidade, de forma subtil, desconstrói o espaço urbano e o interior de cada habitação, a encenação enquadra um pensamento critico, irónico, que não é meramente um contexto teatral, é sociológico.
As cidades que são o mercado imobiliário, que esquarteja até ao limite o território. Em quarteirões e caixotes.

Por outro lado, os diálogos permitem viajar por dentro de uma realidade consumista, personagens feitas de estereótipos, de artifícios, de falas inúteis, que fazem rir e sorrir, interiorizar e pensar a vida.
Sentimos o cansaço das rotinas e do palavreado inútil. As virtudes humanas são partilhadas pela beleza exterior. Os diálogos denunciam a crueldade das relações humanas. As relações do poder. As relações humanas. O culto da imagem. A ansiedade, no limite a depressão.

São interpretações excelentes. Rui Félix, o grande veterano, enche o palco da sua energia e eloquência. Como sempre brilhante. Ricardo Guerreiro assume as personagens com dignidade, quer na sua dimensão dramática, quer na sua dimensão de comédia.
Vítor Nuno uma interpretação marcada pela versatilidade que enriquece a personagem.
Rita Reis, tem uma interpretação de alto nível, sente-se que se entrega ao seu papel de corpo e alma, contracenando com vivacidade e deixando sua marca inscrita na peça, com grande beleza quer ao nível da dicção, quer na estética corporal.
Estão todos brilhantes. Adorei, porque pelas suas dinâmicas prendem-nos ao texto, prendem-nos à dimensão psicológica das vivências das personagens.

Esta é uma peça que vive da dimensão filosófica do texto, que lhe dá os contornos sociais, e, naturalmente da energia das interpretações, que lhe dão a dimensão psicológica.
A encenação dá o enquadramento estético, ao texto, aos intérpretes e, com simplicidade, permite fluir a comunicação e duplicidade dos personagens.

A música, que me pareceu original, consubstancia de forma plena as circunstâncias, envolve o espectador numa sonoridade que, de forma brilhante, vai ao encontro das palavras e das situações. Parabens a Fast Eddiei Nelson.

A iluminação, é dinâmica, no jogo de contraluz, de pontos de intensidade e trevas, num ritmo que acompanha as marcações e contribui para criar uma dimensão plástica que, por um lado, conduz o olhar do espectador, por outro, contribui para sincronizar os movimentos dos personagens no espaço cénico. Não são acasos, de apagar e acender, um foco aqui, uma sombra ali, são interpretações do espaço no contexto da encenação, que começam ainda os espectadores estão a entrar na sala, com actores na penumbra a vigia, em silêncio, a cidade lá fora..

Parabéns à Carina Silva, a maestrina desta sinfonia teatral, um teatro moderno que, com muita sobriedade e beleza intelectual, deixa, através do riso e do siso, a mensagem que o teatro é, foi e sempre será uma forma de pensar e sentir o tempo que vivemos. Obrigado!

António Sousa Pereira

 

Uma piscadela de olho para ti, Rodrigo

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Ontem, ao fim da tarde, com a noite a nascer na penumbra, naquela miragem que abre as trevas, anunciando o fim do dia a partir. Parei. Olhei a distância imaginando o infinito, enquanto os meus passos sentiam, nos nervos, a energia da terra. Foi naquele instante que percorri o tempo, viajando por dentro da solidão que rasgava o horizonte, lá longe, muito longe, acenando num brilho reluzente e poético.

 
O sol beijava meus olhos, por entre nuvens de prata. Senti uma lágrima de cristal espreitar feita poema.
Um raio de luz rasgava as nuvens brancas, projectando bruscamente, na paisagem seu brilho prateado, incandescente, através de uma brecha que espreitava entre o azul do céu e as nuvens de algodão.
O sol cantava, dentro desse instante, único, por onde imaginei a vida a fazer-se eternidade. Olhei. Sorri.
 
Nesse instante encostei os meus olhos no teu sorriso que brilhava, em meditação, nos meus neurónios. Caminhei por dentro da solidão das palavras, esse lugar onde a morte sorri à vida.
Imaginei teus braços erguidos, entre a folhagem dos plátanos, na Avenida da Praia, erguendo a cruz, bem alto, como quem quer beijar e abençoar as águas do Tejo.
Ali, olhei teus olhos. Sorriste. A pétalas de rosas deslizavam, suaves, voando entre a multidão e as ondas do Tejo. Eram pétalas que teciam um tapete colorido no cais e vestiam as águas, de vermelho e rosa, branco e amarelo, como raios de arco iris, a navegar no futuro, o sol, que é a luz de todas as miragens.
 
Ali, olhei teus olhos que transmitiam ternura e uma alegria enorme de felicidade, brilhantes em oração, no seio da multidão que mergulhada no silêncio da fé, cantava ao ritmo da tua voz.
“Avé Maria, cheia de Graça”, um coro de fé, essa força interior, que só sente cada um que a tem, uma força que não se explica. Que existe ou não existe.
Tua voz era o sol que unia toda aquela multidão, num cântico, de sonhos, gratidão e esperança, Crença. Tradição. Memória.
 
A procissão da Nª Srª do Rosário seguia pelas ruas do Barreiro Velho, essas ruas génese de um território que é raiz de uma comunidade, essa comunidade que tu dizias: está-me no sangue, na fé e no sacerdócio! Barreiro.
Uma comunidade que amaste com a tua fé e abraçaste com o teu coração.
 
A Banda do Barreiro tocava, melodicamente, aqueles sons, timbrados, que davam ritmo aos passos de fé, feitos de gente de muitas opções ideológicas, que, ali, abraçavam a memória de gerações.
Num canto, em silêncio, eu espreitava e fotografava. Um ritual.
Tu seguias com teu olhar erguido, sóbrio, em passos de dignidade e humanismo. O teu lugar de sempre, era aquele que antecede os políticos, os crentes de circunstância ou de mero respeito institucional, solene, seguias tu, erguendo a cruz, símbolo da tua vida e da divindade.
Caminhavas sempre, sempre, com a energia que transparecia uma nobreza que nascia no coração, um humanismo que se sentia no timbre melódico da tua voz, que soava entre a rouquidão e um cântico.
Seguias. Eu observava a Procissão. Via aquela multidão que enchia as ruas de fé.
Sempre, mas sempre, naquele instante que teus olhos se cruzavam com os meus, sentia que os teus lábios sorriam, e, os teus olhos falavam comigo, discretamente, como quem diz : “Olá, como estás. Estás bom?!”. Piscavas os teus olhos. Eu retorquia. Sorrindo. Guardo esses momentos num canto das coisas belas da vida.
Guardo esse instante, como guardei, na memória, aquele dia que te conheci, antes de Abril acontecer, naquele tempo, entre a fé que, para mim, ficava perdida no tempo e a Liberdade que nascia no meu coração. Sabes, aprendi contigo a dor da palavra – Fascismo.
 
Depois, senti, ao longo do tempo que partilhamos o teu amor à Liberdade, e, que para ti, Deus se escreve com o silêncio que faz nascer a palavra gratidão, respeito, dignidade, e, no coração semeias a palavra esperança como sendo o sentido real para erguer, na vida, o sentido da palavra amor. Porque para ti Deus é Amor.
 
Sabes, um dia havemos de nos sentar, ali, junto ao Tejo, escutando os sons do sopro da vida, de Rão Kyao, e, divertimo-nos a olhar o sol deitado nas ondas.
Aqui fica uma piscadela de olho para ti, Rodrigo. Até sempre!
 

 

António Sousa Pereira

Augusto António Cabrita : uma visão estruturante sobre a obra do Mestre

 

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A exposição «100 anos de Augusto Cabrita – UM OLHAR INÉDITO», que está patente ao público até ao próximo dia 16 de março, no AMAC, tem a Curadoria de Augusto António Cabrita, neto do Mestre, um apaixonado da obra do seu avô, quer como fotógrafo, quer como cineasta.

Augusto António Cabrita, merecidamente recebe o reconhecimento de Rosto da Semana.

 

A exposição de cerca de 130 fotografias do Mestre Augusto Cabrita permite uma viagem por dentro da sua obra fotográfica.

O seu neto está de parabéns, pelas suas escolhas, pela sua intervenção na cerimónia de abertura, pelo amor à obra do seu avô e, acima de tudo, por ser exigente, muito exigente, e, positivamente exigente, sobre a necessidade de se sentir e pensar, olhar e reflectir para obra de Augusto Cabrita, na sua diversidade, na sua dimensão estética, cultural, antropológica, ambiental, em suma humanista.

Na realidade Augusto António Cabrita, tem toda a razão quando afirma a importância de, a propósito da celebração do centenário do Mestre Augusto Cabrita, ser esta uma oportunidade para dar projecção à sua obra, quer ao nível local e regional, mas também ao nível nacional.

Que seja estudada pela Academia. Que seja divulgada no contexto da história da fotografia e do cinema.

Na verdade, Augusto António Cabrita, tem vindo a desenvolver uma visão interpretativa sobre o trabalho do seu avô, alertando para as suas características inéditas, criativas, as quias devem ser objecto de estudos interpretativos ao nível do estudo da fotografia e pela Academia.

Ou seja, é preciso desenvolver uma ampla reflexão teórica sobre a obra de Augusto Cabrita.

Augusto Cabrita é um fotógrafo que pode ser motivo de estudo no plano cultural, ambiental, industrial, urbano, antropológico, publicitário, jornalístico, literário. Ele é um poeta da fotografia que coloca o ser humano no centro da sua objectiva.

 

Esta exposição que está patente no AMAC pode ser, sem dúvida o leit motiv ( uma expressão que o Mestre gostava muito de utilizar), para abrir novos horizontes no pensar e sentir a obra fotográfica e cinematográfica de Augusto Cabrita, no Barreiro, em Portugal e no mundo.

Augusto Cabrita não é uma marca do Barreiro, porque não é produto, para vender como souvenir.

Augusto Cabrita é um criador do belo, um homem que viveu, com simplicidade, pureza, despido de ideais de riquezas, apenas vivia para a amar a fotografia e o cinema, que estava no seu olhar e no seu coração.

Augusto Cabrita é um artista, que com o seu trabalho inscreveu, no Barreiro, a marca da sua paixão – a fotografia – isso sim, essa sim é uma marca, que está inscrita na história cultural do Barreiro e que, na verdade, o Mestre deu um contributo, único, para se inscrever no Barreiro, ao ter colocado, com o seu trabalho, o Barreiro na Rota Mundial da Fotografia.

Esse potencial, sim esse, é que deve ser uma marca do Barreiro.  

Assim, saiba o Barreiro aproveitar essa potencialidade, com estratégia, com visão cultural e reflectir sobre as palavras de Augusto António Cabrita, seu neto, que está, plenamente, empenhado em dinamizar esse pensamento estruturante acerca dessa dimensão supra geográfica, estética e cultural da obra do seu avô.

É, por tudo isso, e, naturalmente, pela magnifica exposição, com a sua Curadoria,  aqui fica o reconhecimento como Rosto da Semana.

 

António Sousa Pereira

 

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