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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

Voar

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Elas nunca deixam de voar. Hoje, quando olhava as gaivotas a voar em círculo dei comigo a pensar, se voas em círculo, nunca sais do mesmo lugar. Aprende a voar, mesmo que seja um voo raso, mas segue um caminho, voa sempre por novos voos, afinal, ao voar por novos voos, aprendes a descobrir outros voos. É isto a vida . Nunca esqueças que voar é como viajar, é como partir e regressar, é aprender que é voando que vamos descobrindo o céu, o sol, o luar, o vento e o mar. É lindo!

António Sousa Pereira

Barreiro – um concelho com cerca de 5 mil anos de história

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O municipio do Barreiro, com o seu actual território, foi constituido nos finais do século XIX. É mais novo que as suas mais antigas colectividades centenárias.

No dia 16 de Janeiro de 1521, D. Manuel I, no âmbito do processo de atribuição de forais, que já tinha sido iniciado por D. João II, entrega à Vila Nova do Barreiro a «Carta de Vila», que não sendo uma «Carta de Foral», era equivalente a Foral, dando-lhe a partir de então a autonomia administrativa.

O autonomia administrativa do Barreiro nasceu portanto há 500 anos, há quem diga que nasceu o municipio, embora o conceito municipio tenha sido desenvolvido no século XIX, admitamos que sim, que o o «foralismo» é o embrião do «municipalismo».
A Câmara Municipal do Barreiro este ano a propósito dos 500 anos da atribuição da «Carta de Vila» - equivalente a Foral - à Vila Nova do Barreiro, vai desenvolver um programa para celebrar esta efeméride «500 anos do municipio do Barreiro».
É uma efeméride que deve ser festejada, por todos, os naturais do barreiro e os que para aqui vieram residir e fizeram desta a sua terra. Esta é uma celebração de todos os barreirenses e não só dos que são do Barreiro. Ser barreirenses é sentir esta terra como sua e senti-la no coração.
Se me permitem, eu que não nasci no Barreiro, eu que não sou do Barreiro, tenho orgulho de ser barreirense, e tenho amor por esta que é a terra dos meus filhos. A terra onde aprendi a amar a Liberdade.

Mas, a propósito desta efeméride quero recordar que há 500 anos atrás, naquela época, século XVI, quando a Vila Nova do Barreiro recebeu a «Carta de Vila, equivalente a Foral, embora de menor significado que «Carta de Foral», a parte do actual território do municipio do Barreiro, que integrava o concelho criado por D. Manuel I, limitava-se a uma área aproximadamente à da antiga freguesia do Barreiro, entre a zona do Pingo Doce e perto do POLIS.
Portanto, naquela época grande parte do actual território, do actual municipio do Barreiro, não integrava a Vila Nova do Barreiro, porque, ou pertencia administrativamente ao concelho de Coina, ou ao concelho de Alhos Vedros, e, a partir de 1670, ao concelho do Lavradio.

O 16 de Janeiro de 1521 é uma efeméride de referência na história da vila do Barreiro, da cidade do Barreiro e do concelho do Barreiro, mas, em rigor histórico, não estamos a celebrar 500 anos do actual concelho do Barreiro. Este, o actual, com o seu território de hoje, nasceu nos finais do século XIX.

No território do concelho do Barreiro estão inscritas muitas memórias. A «Carta de Vila» da Vila Nova do Barreiro. A «Carta de Foral» de Coina. O concelho do Lavradio. A Vila de Santo André. Tudo isso são importantes memórias.
O território do actual concelho do Barreiro é de uma riqueza enorme cultural, humanista, tecnológica, e, de facto, neste território estão inscritas referências que se ligam à história de Portugal e até à história europeia.

Este é, sem dúvida, um território marcado por diversidades culturais, por uma identidade feita de identidades centenárias. O concelho do Barreiro foi sendo formado por diversas raízes, vindas de Coina, de Alhos Vedros, com ligações ao crescimento económico regional, com a indústria do sal, com a indústria naval, com a actividade portuária, com a pesca, com a agricultura, com a industria da cortiça, com a ferrovia, com a indústria metalomecânica, com a indústria quimica, com a construção civil, com o comércio, com a vida própria, com o dormitório. Um concelho com familias. Um concelho com raizes, um concelho com uma afirmação e uma identidade cultural. Uma diversidade que faz a sua unidade. A vila do Barreiro é uma dessas identidades.
Este é um concelho polinucleado. Essa a sua enorme potencialidade.
Como dizia um amigo meu, a história de uma comunidade, faz-se no seu território, com a sua actividade económica especifica, que trás consigo pessoas e são as pessoas que fazem a história desse território, porque são as pessoas que lhe dão identidade cultural. É isso a identidade cultural de uma comunidade a sua vida cultural. O sentir, o pensar e o saber comunitário. O orgulho de pertença.

Uma das grandes riquezas do concelho do Barreiro está nessa sua realidade de ser por um lado um fruto de uma população autóctone ( que se liga do Barreiro ao Lavradio, da Telha a Palhais, de Santo António à Penalva), familias e lugares que, ao longo de séculos, sempre acolheram solidariamente, gentes vindas de muitos lados, integrando-as, incluindo-as, fazendo comunidade. Fazer comunidade, é coisa que se forja nas ondas do rio, na vizinhança das ruas e dos bairros. No campo, na fábrica, na escola, no viver cidadania activa.

O concelho do Barreiro no seu actual território, este, sim este, que é real, esse que deu origem ao actual municipio – da Ilha do Rato a Coina - vai comemorar na próxima década os seus 150 anos. Uma história recente. Uma história que orgulha os barreirenses, que cá nasceram, que para cá vieram, uma história que se escreve com a palavra Liberdade. Uma epopeia. Uma história que está por escrever e só ela, era, podem crer, um nicho de turismo, de diferenciação de um território.

O concelho do Barreiro, no seu actual território ( não aquele de 1521) recebeu heranças do concelho de Alhos Vedros, do concelho de Coina, do concelho do Lavradio. Um potencial.
O concelho do Barreiro do território de 1521 que, nem sequer é o território da actual cidade do Barreiro ( porque a cidade integra apenas as antigas freguesias do Barreiro, Alto do Seixalinho e Verderena), esse de 1521, é o concelho da antiga freguesia do Barreiro.
O concelho do Barreiro do território de 1521, não integra a Vila do Lavradio, nem a Vila de Santo André, nem a Vila de Coina, e, nem sequer a totalidade do território da sua actual divisão administrativa que são quatro as freguesias: Santo António da Charneca, União de Palhais e Coina, União do Barreiro e Lavradio; União do Alto do Seixalinho, Santo André e Verderena.

O Lavradio é um lugar cujo conhecimento remonta ao século XIII. O Barreiro é um lugar cuja memória remonta ao século XIV. A Vila de Coina essa remonta ao século XII.
E tudo isto que integra este território do actual concelho do Barreiro, é nele, que estão estão inscritas essas memórias. A história, a nossa história territorial.

Sim, sublinhe-se que, nesse território do actual concelho do Barreiro, é reconhecido ao nível europeu, e, sabemos, está georeferenciado, um lugar considerado como um dos pontos históricos do Neolitico. Neste território, nas margens do Rio Tejo, está registado um dos pontos da revolução neolitica, quando o homem começou a ser sedentário da fazer comunidade, a dedicar-se à agricultura, à pesca, à produção de sal, a usar o o boi para lavrar.
Sim, ali, na Ponta da Passadeira está inscrita, esta história deste território, que faz parte do actual concelho do Barreiro, uma vivência humana com cerca de 5.000 anos. Um dos pontos do inicio da sedentarização humana na Europa, no Neolitico final, entre 4700 - 4460 anos ac.

O concelho do Barreiro, portanto, no seu actual território tem inscrita uma história com cerca de 5 mil anos.
Celebremos os 500 anos do Carta da Vila, que dá autonomia à Vila Nova do Barreiro. Dá-lhe foral, porque lhe dá autonomia administrativa.
Celebremos, todos, os barreirenses que cá nasceram e os barreirenses que para cá vieram viver e desta fizeram a sua terra O concelho do Barreiro é de todos os cá vivem, porque todos os cá vivem constroem o Barreiro, fazem Barreiro, vivem Barreiro. Vivamos o concelho do Barreiro como uma comunidade, feita de diversidades históricas e culturais. Honremos o passado. Construamos o futuro.
O Barreiro terra de muita gente, vinda de muitos lados, merecidamente, recebe a distinção de «Rosto da Semana».

António Sousa Pereira

O POLIS – as memórias de um território

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O POLIS é bem um exemplo, vivo e real, de uma mudança cultural essa, que tem vindo a motivar a aproximação da comunidade à sua zona ribeirinha, ligada ao crescimento. Sim, crescimento, que não é sinónimo de desenvolvimento.
 

Hoje pela manhã, fui dar uma volta pela zona do POLIS, ali, nos limites do território da cidade do Barreiro. Parte do POLIS é na Vila de Santo André. Parte do POLIS é no território da cidade do Barreiro ( antiga freguesia da Verderena, que integra a União ASAV).
Aquele território do actual concelho do Barreiro, que há 500 anos pertencia ao concelho de Alhos Vedros, é uma zona linda.
Um dia num passeio com Augusto Cabrita, parámos por ali e, ele, deslumbrado apontava para a distância e dizia : “Este é o nosso Lago de Montreal”. Naquele tempo ainda estavam por ali, em ruínas, os restos da «Caldeira do Alemão». O POLIS era um sonho. Aliás recordo, quando um dia, nos anos 80, naquele local, o então Vereador Galrito, com uma planta, referia possiveis arranjos a realizar naquele espaço urbano, e, também, o arranjo das ribanceiras, que ligavam ao Bairro 25 de Abril, e a urbanização que poderia vir a nascer nas «escarpas» da Praia da Copacabana.

Depois recordo o projecto do POLIS. E as guerrilhas sobre o Pavilhão e o Parque Desportivo que devia nascer, na zona onde está o Campo do Barreirense, onde se sonhava um complexo desportivo Pavilhão e Estádio, para o FCB. Recordo comunicados e contra comunicados. Guerrilhas, que ficaram em águas de bacalhau. O tempo resolveu. Falênciads. Insolvências.

Recordo quando foi falado do primeiro projecto do POLIS, na gestão de Pedro Canário, cuja dimensão, da Recosta à Praia da Copacabana, não foi aceite, por José Sócrates, então Secretário de Estado do Ambiente, por ser uma área muito extensa, mas, coisa semelhante e extensa foi aceite em Oeiras. É vida.

E depois, há sempre um depois e um antes (hoje falar do antes, para alguns não é memória, é azia), então, com a redução da área do projecto, ficando outras fases para outras núpcias, arrancou o POLIS com Emidio Xavier.
Recordo o arranque das obras. Uma grande obra. Faltou lá o cartaz – Aqui há obra! Estamos a transformar o Barreiro. Aliás o mesmo podia ter feito Carlos Humberto. Ambos transformaram o concelho do Barreiro.

É isto o POLIS é um exemplo vivo de como o território de um concelho se transforma, e, nele se inscrevem memórias. Acções.
O POLIS é bem um exemplo, vivo e real, de uma mudança cultural essa, que tem vindo a motivar a aproximação da comunidade à sua zona ribeirinha, ligada ao crescimento. Sim, crescimento, que não é sinónimo de desenvolvimento.
O POLIS insere-se num pensamento estratégico que não é de hoje, tem décadas, esse de ligar a cidade ao rio. Um projecto feito com muito trabalho no terreno, muitos nós, muitas negociações, ontem e hoje, e, sabe-se que algumas até, que vão deixar facturas para os vindouros. O saneamento que ficou pendurado nas negociações das garantias bancárias. Pois. É a pressa do aqui há obra, e, no futuro, terá que haver outra obra, obviamente. Pagam os barreirenses.

Fui hoje visitar esta que penso ser a terceira fase de obra do POLIS. Gostei. Mantem uma ligação estruturante de toda a zona, deste a Vila de Santo André, até á Avenida da Liberdade. Cria zonas de estacionamento na área envolvente, valoriza aquela zona urbana, melhora a qualidade de vida. Um aplauso. Nota positiva.
Não gosto, no entanto, é da narrativa feita em torno da concretização deste projecto, mas, isso já não estranho, faz parte dos «fait divers», é tal narrativa para manter o clima dos azedos e aziados, do parado e da acção, dos que pensaram e não fizeram, e dos que não perdem tempo a pensar e fazem. É vida. O culto dos ódios de estimação.

É isso, os lugares têm memórias. E são as memórias inscritas nos lugares que desocultam as purezas das purezas, as impurezas das impurezas. Cada qual vive o seu drama, é isso, são as eleições de quatro em quatro anos. É por isso, só por isso, que gostam de dividir o mundo em antes e depois, que nada foi feito antes, que tudo esteve parado, que agora é que isto vai mudar, que agora é que o Barreiro vai para a frente. É vida.
Nestas narrativas de autoelogios, o que me incomoda é que continuamos a perder população, continuamos no guetto, continuamos a gerir o território com base num PDM caduco. Continuamos iludidos.
Nem somos carne. Nem somos peixe. Somos um território sem projecto.
Não se zanguem. Sei que não se pode ter opinião discordante da vossa. Mas, como deven saber, ainda vivemos em democracia, e, mesmo ter partido, não significa ser submisso. Disso fiquei vacinado. Nada me incomoda. E, enquanto houve democracia, hei-de de dar opinião. Hoje como ontem. Escrevam lá isso, em letras garrafais.
Parabéns pela concretização desta terceira fase do POLIS, que não é nada de novo, nem é projecto do mandato. É obra, ponto final. Afinal, foi o concretizar o que já estava pensado – nem foi preciso pensar, foi fazer, concluir o negócio, que a CDU, sabe-se, estava em fase de conclusão.
Sim, afinal foi concluir mais uma fase importante e de louvar. Outras hão-de vir, dando continuidade a um projecto que primeiro foi sonho, depois foi projecto, depois foi acção. Um exemplo da ponte que existe entre o passado e o futuro.
Uma prova que o Barreiro não está parado nem há 40 anos, nem há doze, nem começou agora...
Parabéns pela obra realizada. Gostei.
E, não esqueçam, há mais vida para além da obra.
Divirtam-se!

António Sousa Pereir

Sorri sempre, sorri!

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O teu sorriso é lindo, porque é lindo todo o sorriso que se faz eternidade. Aquele sorriso que brilha nos olhos, que ilumina o coração, que se faz estrela, que se faz luar, que se faz mar, que se faz pássaro, que se faz amizade, que se faz amor, que se faz paixão, que se faz ternura. Aquele sorriso que guardamos, único, pela pureza do instante – como fotografia inscrita na memória – essa que toca de forma permanente a mente, que afaga de forma permanente e beija o coração. Esse sorriso no dia do começo. Esse sorriso que forja o aço da luta. Esse sorriso que faz acreditar, que faz sonhar. O sorriso. O mais belo sorriso.
 
O teu sorriso é lindo. É eterno. Vive nos meus neurónios. É um sorriso de esperança. É um sorriso de amor. É o teu sorriso ténue, feito viagem, no descer da noite. É o teu sorriso abraçado ao meu corpo. É o teu sorriso em lágrimas na noite de temporal. É o teu sorriso orando a Deus, protestando com o Deus da caridadezinha. É o teu sorriso pelo Deus da dignidade. É o teu sorriso de gente de trabalho, na fábrica, nas canseiras da labuta de todos os dias. É o teu sorriso na praia. É o teu sorriso deitado no rio. É esse sorriso que se espalha na memória. Esse sorriso que escuto renovado, hoje, ao olhar o céu cinzento neste dia frio, neste ano de Dois mil e Vinte e Um, um sorriso que continua presente, único, vivo, a sorrir nos teus olhos, nos meus olhos...o teu sorriso é lindo.
 
É sempre lindo o sorriso que é flor, que tem cheiro, que tem som, que tem luz, que dá força à vida, que dá esperança, essa esperança que se escreve no que fomos e no que somos. As nossas raízes são a nossa força.
 
O teu sorriso mãe, aquele, que continua a sorrir nos meus olhos que se mistura com o som do comboio a partir na noite escura, esse sorriso inesquecível, está vivo e acena, acena, acena, nunca deixa de acenar, e diz, serenamente : Sorri sempre, faz da vida um sorriso.
Sim, faz do teu sorriso a maravilha da vida que está na força de um sorriso. Sorri sempre, sorri!
 
António Sousa Pereira
Nos teus 91 anos. Partiste há 61 anos.
Hoje 6 de janeiro de 2021, recordo o teu sorriso.

TEMOS QUE JUNTAR À PALAVRA ESPERANÇA A PALAVRA FRATERNIDADE.

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Há dez anos, por esta altura, vivíamos os dias da troika. De repente parecia que o barco tinha naufragado. E, para sobreviver saltamos para o mar, de colete, para tentar salvar a vida. O temporal era imenso. Chuva torrencial. Vento forte. O barco naufragava lentamente. Nós, cada um de nós, procurava nadar, era nadar, nadar, uma luta feroz pela sobrevivência.
 
Lá estávamos no mar alto, ao sabor das ondas, dando braçadas, procurando encontrar no horizonte a terra. Nadar, era nadar. O que se ouvia a cada instante era aquela frase: “um dia de cada vez, temos que viver um dia de cada vez”.
Estar ali, no mar alto, no meio de ondas crispadas, no meio de um forte temporal, erguendo os braços, mergulhando, tentando chegar a terra firme.
O tempo foi amainando. O ventou perdeu intensidade. Aguentar à tona de água e, por fim, lá se via, ao fundo uma praia, rodeada de rochedos. Era preciso continuar a nadar. O importante, no imediato era chegar à praia, tocar a terra.

Parecia que estava tudo a normalizar. O sol aquecia. Um vento leve ajudava a refrescar. E, pouco a pouco a terra aproximava-se, lá vinha uma onda mais forte que puxava, de novo, para o mar. Um vai e vem, ao sabor das ondas. Quando os pés começavam a tocar terra firme, lá vinha uma onda mais forte que arrastava tudo na corrente.
Dias e dias, muitos, a lutar contra as ondas fortes. Uma vaga, outra vaga. O corpo a roçar nas rochas. Um esfolão. Outro esfolão. Dores fortes.
 
Mas, nestes dias, parece que há uma força que vem de dentro, lá do fundo, desse fundo onde encontramos o querer – a resistência, a resiliência, essas palavras que são a energia que faz florir a esperança.
Só quem viveu esses dias, quem nadou contra a corrente, quem sentiu as ondas a puxar e o vento a arrastar o corpo quase sem força, sim, só quem viveu, sabe o significado da palavra esperança.
Foi há uma década atrás, um imenso temporal que arrastou vidas para o fundo, que destruiu casas, que matou em silêncio. Afogou.
 
E lá fomos, entre vagas fortes e fracas, entre mergulhos e braçadas, mantendo à tona de água, com as próprias forças, com a energia do coração e dos nervos.
A praia estava ali, bem perto, e, por fim, tocamos a areia. Olhamos o céu azul. Caímos de bruços no areal. Terra firme, pensámos.
E, de repente uma onda enorme arrasta-nos para o mar. Força. Força. Exaustos. O cansaço era maior que a dor. Voltamos de novo à praia.
 
Demos os primeiros passos pelo areal. Coragem, Muita coragem. Árvores verdejantes davam sombra. As gaivotas voaram. As ondas agora era um ritual sonoro a beijar a areia.
Levantamos o corpo. De pés descalços. De sorriso quebrado pelo negro dos dentes. Com a poesia no coração, caminhamos, porque, como diz o poeta o caminho faz-se caminhando. Terra firme. A sensação de estar em terra firme depois de ter vivido um enorme temporal faz sentir o calor da vida. A esperança fica grávida de futuro. Sorrimos.
E, quando tudo estava calmo, numa serenidade que permitia tocar o brilho do luar e escutar a ternura do vento. Sentir os dias. Amar.
 
Lá vem outra inesperada tempestade, esta que toca os nervos, fere o coração. Silenciosa. Isola.
No meio de todo o turbilhão, nasce uma nova palavra – fraternidade – cantamos nas varandas, descobrimos a vizinhança. Sentimos que somos nós e os outros, agora, não se trata de cada um nadar por si para sobreviver, agora, trata-se de todos juntos caminharmos e unirmos vontades para viver. Olhamos o sol sorrimos. Vemos todas as cores a rasgar o horizonte, sentimos, que não é cada um por si, mas que temos que juntar à palavra esperança a semente onde nasce o sentir da humanidade que rima com fraternidade.
Era isto que pensava, hoje, pela manhã, quando passeava junto ao Tejo.
Olhei as ondas e sorri ao futuro!
António Sousa Pereira

«A Cidade das Gaivotas» de Ana Garrido Um romance que permite pensar e sentir a força do tempo

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O tempo tem neste romance uma densidade psicológica, porque é sempre um desafio. O tempo coloca perguntas. O tempo dá maturidade.

O tempo tem, também, uma intensidade cronológica, é uma marca temporal, é o ponto de encontro entre o passado e o presente, o fomos e o somos. O tempo é sentido no pensar e no ser, é memória e esperança.
 

«A Cidade das Gaivotas» é o romance de Ana Garrido, vencedor do Prémio Literário Manuel Teixeira Gomes, promovido pela Câmara Municipal de Portimão.
O romance de Ana Garrido é uma leitura agradável, com uma escrita límpida, deslizamos na suavidade das palavras, sentimos, sim porque este é um livro para sentir, para tocar os nervos. É um poema. Uma prosa delicada de uma filigrana feita de raios de sol e de voos de gaivotas.

Um romance que podia ser considerado a «aula prática», fruto da reflexão sobre o conteúdo da aula teórica, com o tema : «O amor no caleidoscópio». Está lá, subtilmente.
Um romance que permite pensar e sentir a força do tempo, pensa que cada dia é um começo, que cada dia pode ser um ponto de partida, pode ser um tempo de ruptura, de escolhas, ou de renascer.

O tempo tem neste romance uma densidade psicológica, porque é sempre um desafio. O tempo coloca perguntas. O tempo dá maturidade.
O tempo tem, também, uma intensidade cronológica, é uma marca temporal, é o ponto de encontro entre o passado e o presente, o fomos e o somos. O tempo é sentido no pensar e no ser, é memória e esperança.

Sentimos a narrativa desenvolver-se através da cadência dos dias, na sua sucessão temporal, que permite em cada dia, desocultar e descobrir a vida, as paisagens, o ambiente. Os dias marcam o compasso, são eles mesmo uma melodia – o sol ardente da tarde, uma manhã de céu puro, chegar a tempo do anunciado por do sol, ou, os grilos que vieram animar a noite.
Neste romance há o tempo dos dias que passam, há o tempo que faz o próprio dia, há o tempo da memória, há o tempo do reencontro, há o tempo da esperança. Os acasos e as necessidades. O destino.

No romance o primeiro dia é como um palco, onde, o leitor é convidado a conhecer os personagens da história e os enredos. Ironia do destino. Acasos de circunstancias. O reencontro. A vida perante as escolhas.
O primeiro dia é a chegada, é o «estou aqui». O lugar. A praia. O mar. As gaivotas.
Um lugar que é palco da vida, que tem memórias inscritas, um lugar que é tempo, um tempo que faz parte do estar aqui, um lugar que habita nas interioridades dos personagens.
E, de repente, por ironia, é o ponto de reencontro com todo o tempo vivido, no silêncio, na solidão, no esquecimento. Amor. Saudade.
E de repente, aquele lugar, é também o lugar para meditar, pensar, decidir entre o tédio do tempo e a escolha pela liberdade de ser, de optar por viver, para além do cansaço da repetição de movimentos. Fazer o que se gosta, fazendo. Afinal, é tudo isso que o tempo ensina. O tempo de lazer, esse que permite escutar a sonoridade das gaivotas. O silêncio. O fugir nos pensamentos.

No segundo dia, serenamente, somos levados a pensar a vida, a pensar toda a temporalidade. Pensar o tempo é fazer perguntas. O tempo é texto e contexto. A vida e as interrogações. A pergunta que trás dentro de si a busca pelo desafio do futuro. Sentimos o espirito do lugar mergulhar por dentro dos pensamentos. A gaivota e sua sonoridade. Os desencontros. O tempo de lazer. Parar no tempo em busca do tempo – o vivido e por viver.

E, na caminhada dos dias, o terceiro dia motiva-nos a observar o mundo. Sentir o corpo. Sentir o sorriso. Tocar o pulsar do mundo. A relação do ser humano com a natureza. Um tempo ferido, que emerge no sentimento de uma gaivota ferida, vitima da poluição. Um grito. Um protesto. A humanidade.

O quarto dia, faz-nos sentir que ‘há sempre gaivotas em terra, quando um homem se põe a pensar’, aqueles pequenos nadas que podem mudar a história de cada ser humano, ou a história da humanidade em transformação. A delicia de voar no voo das gaivotas, faz sentir o Fernão Capelo Gaivota, esse, que nos ensinou a a importância do partir, do resistir, do aprender com os erros. Os percalços. As circunstâncias. Afinal, essa noção do pensar o tempo, que faz pensar e sentir essa realidade, afinal, cada presente está grávido de futuro.
É esta caminhada que vamos fazendo com os personagens, no seus dramas pessoais, nas suas escolhas, o seu sentir o tempo.

O quinto dia, é o tempo das decisões, o tempo das escolhas. Decidir. Escolher.
Decidimos por paixão, por amor, por opção. Os tais instantes que se inscrevem no tempo e fazem nascer memória. Eternidade. Eros. Um beijo. Um olhar.
Ou, então, decidimos porque a vida marcou o rumo. Um acidente. Um acaso. E, nestes casos, a vida impõe a escolha, essa, que, por vezes, a indecisão nega escolher. O destino.

O sexto dia, é uma paragem no tempo, que nos motiva a viver o tempo dentro do tempo. Hedonismo. O fogo que arde sem se ver. O prazer de viver. A gastronomia. O sentir o espaço na sua totalidade. O tempo e o espaço. A cor. A luz. A espera. A expectativa. A ansiedade. O sonho. O eterno destino. Retorno.
Um preâmbulo que anuncia o sétimo dia, o tempo de paixão. Amor sublime. O por do sol. Erotismo. Ao sétimo dia fez-se o verbo amar.

O oitavo dia, curiosamente, começa ao anoitecer. A noite. O luar. As férias. Os amores de Verão. A felicidade. O sermos felizes. A perfeição e a imperfeição da existência. O tal ser ou não ser. A felicidade e a infelicidade que andam de mãos dadas, sorrindo.
Nós, de facto, somos a importância do tempo que somos e a importância que damos ao tempo que vivemos, nos lugares que fazem o nosso tempo.
É esse o sentimento que reencontramos – um mês depois – no regresso à praia, no regresso ao lugar. O lugar inscrito de memórias. Esse mundo que está dentro da nossa mente. A musicalidade. O cheiro. A maresia. Uma gaivota. Uma gargalhada. As ondas. O mar. O sabor a sal.
O romance de Ana Garrido, diz-nos que a vida é, isso, uma corrida em busca da felicidade, que pode ser química, ou talvez psicológica. O sentirmos que somos livres. Sonho.
Uma vez, um dia, outro dia, ou, talvez um mês depois, olhar o mar milenar...e viajar numa onda que é um sorriso!

António Sousa Pereira

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