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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

A alegria de ver nascer o projecto «Comunicação Digital de Proximidade»

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Em todas as Bibliotecas dos municípios de Alcácer do Sal, Alcochete, Barreiro, Moita, Montijo, Palmela, Santiago do Cacém, Seixal, Sesimbra e Setúbal já está instalado, no âmbito deste projecto, um estúdio de Comunicação Digital de Proximidade”, onde serão concretizadas sessões de formação em literacia mediática e a promoção de oficinas de comunicação multimédia.

 

No ano de 2017, no âmbito do OPP – Orçamento Participativo de Portugal, na acção que decorreu no Barreiro, tal qual o adolescente sonhador, saltei para o palanque e apresentei o Projecto de «Comunicação Digital de Proximidade». Para minha surpresa este, entre centenas, seria um dos projectos vencedores a nível nacional.

No dia que em Lisboa recebi o diploma de Vencedor, a Ministra da Ministra da Modernização sublinhou o facto de este ser um projecto exemplar e o único na área das novas tecnologias de comunicação.

O Projecto seria contemplado, inicialmente, no Orçamento de Estado com uma verba na ordem dos 90 mil euros.

Depois seguiu-se a fase da implementação, logo após a primeira reunião que decorreu na Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB) percebi que a minha intervenção na implementação da minha ideia seria pouco viável, a burocracia e as regras orçamentais, pelo que diziam, fechavam muito o campo. Entendi.
Nesse sentido, perante as questões colocadas, e as dificuldades referenciadas, mesmo perante as diversas soluções que apresentei, comecei a ficar com sensação que o projecto até podia nem se concretizar.
Nesse sentido visando a sua concretização e procurando que a verba do OPP viesse para a região de Setúbal, e não se perdesse, contactei Sofia Martins, na AMRS – Associação de Municipios, lancei o repto de abraçar o projecto e viabilizá-lo dando-lhe forma real.

Assim foi, e acabou por ser celebrado o Protocolo de Colaboração entre a DGLAB e a Associação de Municípios da Região de Setúbal (AMRS) com vista à implementação e desenvolvimento do projeto vencedor do OPP 2017 “Comunicação Digital de Proximidade”, apresentado pelo cidadão António Sousa Pereira.

Recorde-se que o objectivo deste projecto era contribuir para aprofundar os níveis de literacia mediática dos cidadãos da região.
Assim como dar a conhecer aos cidadãos residentes nestes municípios os meios de comunicação das respetivas localidades, incentivando o seu consumo e colaboração. Sim, também do jornal «ROSTOS». A sua implementação teve, por fim, um orçamento de 84.661,79€.

Fui convidado pela Associação de Municípios, a semana passada, para conhecer o «Estúdio móvel Multimédia» que irá levar para o terreno o projecto “Comunicação Digital de Proximidade”.

Entretanto em todas as Bibliotecas dos municípios de Alcácer do Sal, Alcochete, Barreiro, Moita, Montijo, Palmela, Santiago do Cacém, Seixal, Sesimbra e Setúbal já está instalado, no âmbito deste projecto, um estúdio de Comunicação Digital de Proximidade”, onde serão concretizadas sessões de formação em literacia mediática e a promoção de oficinas de comunicação multimédia.

Sinto uma grande alegria de ver esta minha ideia nascer e tornar-se uma realidade.
Sinto uma grande alegria de ver que vale a pena sonhar, acreditar e não desistir de realizar ideias.
Agradeço à AMRS, à Sofia Martins, aos técnicos da AMRS, terem agarrado o projecto e terem feito da ideia uma realidade.
Este é um exemplo que a vida é sempre assim, primeiro o homem sonha, do sonho nasce a ideia, da ideia nasce a prática e da prática nasce a vida.

Obrigado AMRS, porque deu vida a esta ideia e não deixou que a ideia morresse.
Afinal, eu apenas sonhei e nunca desisti de a tornar real, fosse de que forma fosse, por isso estou feliz por sentir que o sonho se transformou numa realidade.
O importante na vida é transformar e ajudar a fazer futuro.

Este projecto “Comunicação Digital de Proximidade”, é um projecto que faz futuro.
Hoje, que estou perto de celebrar os meus 70 anos, sinto-me imensamente feliz, por estar a contribuir para fazer nascer futuro, desde a Biblioteca do Barreiro a outras da região, passando pelo Estúdio Móvel!
É lindo! A vida é mesmo linda!

António Sousa Pereira

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LIBERDADE! APENAS LIBERDADE!

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Alice,
 
Se um dia, no futuro, eu cá não estiver, e, ainda, em Portugal se celebrar esta data que se escreve com a palavra Liberdade, apenas Liberdade, essa que é celebrada no Dia 25 de Abril.
 
Se um dia, eu cá não estiver e te interrogares porque razão o meu avô, escreveu um livrinho com o título – «O sonho chamado Liberdade» - quero dizer-te, hoje, neste ano de 2022, que, esse foi um dia, único, puro, semente, recomeço, renascer, dia de amar com os nervos, beijar com os olhos, fazer do coração uma flor e com lágrimas regar a esperança.
 
Se quiseres esse foi o primeiro beijo de amor, foi Páscoa, foi o primeiro olhar nos olhos de ternura, foi Natal, foi o choro do nascer, foi semente a florir, foi sol a nascer na manhã de cada dia que começa, foi canção, foi poema, foi peça de teatro, foi sinfonia, foi tela, foi escultura, foi um país a quebrar o silêncio, a derrubar os muros e a erguer alamedas verdejantes, foi o dia em que todos nós, acreditamos no futuro dizendo, com um sorriso enorme – BOM DIA!
 
Hoje, pela manhã, ao ver-te a olhar o Tejo, esse rio, como escrevia o poeta, onde está tudo o que lá não está, porque nele estão as memórias de um povo que se fez mar, e de um povo que se fez língua, de um povo que se cumpriu e de um país que está por cumprir, pensei escrever-te este texto para ti, para te dizer isto, apenas isto, nunca confundas a liberdade com outra palavra qualquer, nem uses a liberdade para semear o ódio, ou ambições, faz do poder da palavra Liberdade, a energia do diálogo, do respeito, que não se confunde com o tédio patético, nem com confrontos de circunstância.
 
Sabes Alice, a Liberdade é uma palavra linda, ela cultiva a dignidade no coração e semeia a fraternidade na consciência.
 
Foi essa palavra que vivi nesse dia, o tal – “dia inicial inteiro e limpo. Onde emergimos da noite e do silêncio. E livres habitamos a substância do tempo”, como o eternizou a poetisa. Sim Alice, isso é que é lindo – o dia inteiro e limpo!
 
Estavas a olhar o Tejo, esse rio de gaivotas a voar em Liberdade, essa gaivota, que cantámos, nos dias de solidão, com lágrimas a sonhar futuro, escutando os sons do Zeca, com ternura, que cantava- só há gaivotas em terra, quando um homem se põe a pensar.
 
Neste dia 24 de Abril de 2022, quando estamos prestes a celebrar 48 anos de Liberdade, quero dizer-te que espero o ano novo, como quem sente a primeira manhã a nascer, deitando contigo, harmoniosamente, os meus olhos no Tejo, lavando nas suas águas a esperança, beijando o sol, sentido pulsar no coração essa palavra, pura e única, que floriu no Dia 25 de Abril e se escreve - Liberdade, apenas Liberdade.
 
Sabes Alice, um dia a minha irmã, Maria Rosa Colaço, escreveu para mim, em Abril de 2004, uma mensagem fraterna (que está emoldurada num quadro, no cantinho do avô, que tu tanto gostas), que, hoje, recordo para que a guardes no teu coração: “E pelo poder de uma palavra, eu começo a minha vida de novo. Eu nasci para te conhecer. Para te chamar…LIBERDADE!”
 
A Liberdade descobre-se no interior de nós mesmos, porque a minha Liberdade não termina em ti, em ti começa a minha Liberdade. No abraçar-te, no beijar-te, no sentir que eu e tu somos um nós – um povo em movimento. Foi isso o 25 de Abril.
 
Como escreveria, aqui e agora, hoje, a minha outra irmã, Manuela Fonseca : Grândola Vila Morena! 25 de Abril Sempre!
 
António Sousa Pereira
Barreiro
24 de Abril de 2022

Avô dá-me um abracinho!

 

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Há dias que cansam, cansam pelas palavras, que nem são palavras, são sons inertes feitos das escórias do tempo. Aquelas coisas que se repetem, que banalizam, que não ajudam a pensar cidade, a sentir cidade, a pensar cordialidade, a sentir relações humanas, a ter no coração palavras a pulsar que permitam tocar por dentro o quotidiano, nas diferenças, no erguer os dias com essa força criadora que nasce na energia das diferenças.

Hoje foi um desses dias. São aqueles dias que me ocorre ao pensamento a obra «Górgias», de Platão.
 
E, ao recordar, penso que há coisas que afinal, não é preciso explicar, nem para elas é necessário procurar explicações, estão explicadas, ditas e reditas. São aquelas palavras feitas de retórica, mera retórica, de mundos perfeitos, os mundos que se erguem em perfeições únicas, de pensamentos únicos. Os mundos que são eles o principio e o fim, o começo do mundo, o big bang, que faz, depois, sentir a realidade feita de vazios, mas cheia de sons inertes. Retórica, mera retórica. Sim, lendo Górgias, percebe-se.
Hoje foi um desses dias, em que as palavras inúteis tocaram os meus nervos. Fiquei com as palavras livres a circular no meu sangue de esperança. Há sempre uma esperança, mesmo nos dias de céu amarelo, coberto de areias do Saara, e, o sol a espreitar, feito luar, a gritar, como centelha que dá brilho ao dia e semeia a luz. Felizmente, há sempre uma luz.
 
A emoção desce devagar na superfície da pele numa raiva impotente perante uma guerra estúpida, agora, como em todos os tempos, neste mundo em que os senhores do mundo, determinam a morte, por geoestratégias, por poder, por submissões, por ganância, por mercados.
As lágrimas deslizam nos olhos ao olhar aquelas imagens que entram em casa e banalizam a dor, em explosões cirúrgicas.
E as valas abertas recebem os corpos que ontem sorriam, conversavam, brincavam com os filhos, beijavam, e, pensavam futuro. Agora estão reduzidos a escombros.
Há dias assim, que as coisas entram nos nervos e doem nos ossos, fazendo os pensamentos derreterem-se em lágrimas nos olhos, que contemos, disfarçadamente, com a ponta dos dedos.
 
E nestes dias, dias feitos de cansaço, de retórica, de guerra, de dor, ao fim do dia com o céu nublado de tons do Saara, no meu recanto, ao fim da tarde, cansado de palavras repetidas de ecos vazios.
Sento-me na sala, e, escuto uma voz, como se fosse a voz de um anjo, a beijar os meus nervos, ali, olhando para mim, olhos nos olhos, sim, porque isto é que é olhar olhos nos olhos, e falar com o coração, a minha Alice disse:
«Avô dá-me um abracinho», e correu para mim a abraçar-me. Apertando-me com ternura no seu coração.
Voltou de novo para o seu lugar, e voltou a dizer: «Avô dá-me um abracinho». E de novo, com mais força, ali, sempre, com um sorriso, a Alice voltou a abraçar-me. Com mais força, apertando-me com um carinho que tocou os meus olhos num mar de ondas.
E de novo, olhando fixamente, voltou a dizer: «Avô dá-me um abracinho». E, em mais um abraço, terno e caloroso, senti uma energia renovada a fluir, neste final do dia sem sol.
Três vezes sorriu. Três vezes me abraçou. Três vezes senti o seu coração. Três guardei dentro de mim estes instantes. Sorri.
 
E, por fim, a minha Alice, olhando, bem de frente, sorrindo, do seu canto, onda brota a sua energia de criança, voltou-se para mim, com olhar terno, com voz doce e suave, pela primeira vez na sua vida, disse: «Avô, gosto muito de ti. Amo-te!»
Olhei para ela abracei-a com os meus braços, com um brilho nos olhos, e, naquele instante senti que
um abraço não se pede, um abraço , recebe-se com a força de quem toca o coração, de quem quer dar o coração e partilhar a vida, olhos nos olhos – «Gosto muito de ti. Avô amo-te”.
Oh Alice, salvas-te o meu dia, pensei.
 
António Sousa Pereira
Lavradio - 16 de março de 2022

Ainda não superamos o stress da crise pós-desindustrialização.

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. Somos uma cidade feliz? Ou somos uma cidade triste?


Um pensamento que se tem cruzado nas minhas reflexões é que somos uma cidade que, para além dos efeitos da troika, da pandemia, ainda, não superamos – o stress da crise pós-desindustrialização.
 

Nos finais dos anos 80, quando começam a emergir os primeiros sinais da desindustrialização do concelho do Barreiro, começou a nascer uma nova realidade na vida local, que vai crescendo ao longo dos anos 90, com a “descormecialização” e com a inversão da pirâmide demográfica , o envelhecimento e a perda de população.

A construção da linha ferroviária na Ponte 25 de Abril, inaugurada em julho 1999, abre o caminho para o crescimento urbano dos concelhos do Almada, Seixal e Sesimbra, e o processo de «desferroviarização» do concelho do Barreiro.

No ano anterior, em 1998, já tinha sido inaugurada a Ponte Vasco da Gama, que criou as condições para o crescimento urbano de Montijo, Alcochete e Palmela, este, que nos censos de 2021, foi dos concelhos, ao nível nacional, que obteve maior crescimento demográfico.
Estes dois factos, vão afectar aqueles que eram os “terceiros patrões” na história económica do concelho do Barreiro – depois da ferrovia e da CUF, forma os patrões da construção civil.

Estes factos contribuíram, de forma decisiva para profundas mudanças no tecido social, nas relações comunitárias, na coesão social, no desenvolvimento do território e no pensar o planeamento.
As tradições locais, as raízes familiares, a vida associativa, a comunidade escolar, e, a acção do Poder Local, foram importantes para criar uma cultura de resiliência e esperança.

Um concelho que pouco a pouco ficava “órfão” de um passado que marcou gerações, de uma cidade com vida própria, que se misturava com as novas realidades de crescimento urbano dos finais dos anos 60 e anos 70 – dormitórios de Lisboa - e uma cultura operária, com formação, com trabalhadores qualificados – na química, na metalomecânica, na ferrovia – assim como um tecido empresarial local, de pequenos e médios comerciantes, que eram eles mesmo, com os seus nomes ou suas empresas marcas de referência – Tininho, Guinot, Soares, Matos, Bonança, Moderna, Transmontana, e, tantos, tantos outros.

Este concelho começou a navegar em busca de um novo futuro. A primeira matriz estratégica mais consolidada e sem grande discussão com a comunidade foi o Plano Director Municipal, que ainda está em vigor, aprovado em Dezembro de 1993, que teve por base uma concepção de concelho-cidade, que apontava para um crescimento populacional que pode atingir os 200 mil habitantes, colocando o crescimento do concelho no seu Parque habitacional e naquilo que o mesmo possa atrair.
O exemplo mais objectivo desta visão é a Urbanização dos Fidalguinhos, ou zonas no Alto do Seixalinho, embora, existam outras referências, muito diferentes de ocupação do solo como é o caso das urbanizações na freguesia de Palhais e Coina.
Depois andamos a discutir Masterpaln, o Terminal Multimodal de Contentores, apenas semeamos esperança, porque, nada disto depende exclusivamente da nossa realidade local.

Isto tudo, para introduzir um tema que de há muito me inquieta, no plano da reflexão sobre a vida da cidade e do concelho, quer quando penso o papel da vida associativa no manter a coesão social, quer pela perda de laços que ligavam as famílias e a comunidade, em torno da cultura da fábrica, ou, num sentimento do viver a vida local com relações de proximidade.
Esta reflexão tem me motivado a pensar a importância da Saúde Mental e estratégias de saúde mental, que, devia ser direccionada para prática de prevenção e promoção da Saúde Mental, e, menos no tratamento da doença.
Os recentes acontecimentos da troika, que deixou marcas em muitas famílias, numa cidade com a população envelhecida, tal como nos finais dos anos 80, com o desemprego, situações de fome e crises familiares.
Também os tempos de pandemia de isolamento e solidão, de dramas sociais que ficaram gravados na vida de muitos, problemas que ficam como raízes de dor, tristeza e incerteza.

Tenho reflectido sobre tudo isto, e, até, mantido algumas conversas, com pessoas que intervêm na vida social, procurando sentir o pulsar da vida local, a sua resiliência, a sua esperança.
Tenho colocado a pergunta: Somos uma cidade feliz? Ou somos uma cidade triste?
Um pensamento que se tem cruzado nas minhas reflexões é que somos uma cidade que, para além dos efeitos da troika, da pandemia, ainda, não superamos – o stress da crise pós-desindustrialização.

Somos uma cidade que vive, hoje, como nos finais dos anos 80, nos anos 90 e no começo do século XXI, em busca de si mesma, e com o imobiliário no seu horizonte de crescimento, que não significa desenvolvimento.
E, obviamente, continua faltar emprego, há centenas de famílias que dependem do RSI, há crescimento de situações de violência doméstica, há pessoas em situações de sem abrigo, crescem o número de crianças e jovens que são acompanhados ao nível da Saúde Mental, e, estes, não são problemas que afectam apenas, ou só, famílias carenciadas, são as próprias classes médias, com carências económicas, com separações familiares, e, tudo isto gera muitas situações de pessoas que vivem com fragilidades emocionais.
É por essa razão que tenho vindo a reflectir sobre a Saúde Mental, a manter conversas sobre este tema, e vou acompanhar com muito interesse o Ciclo de Conversas sobre esta temática, porque considero ser este um tema central para pensar e fazer cidade e cidadania.

Na verdade, quando pergunto: Somos uma cidade feliz? Ou somos uma cidade triste?
Todos acreditam que “temos potencial” para ser uma cidade feliz.
Eu também acredito, mas, como dizia o poeta…sonhar todos os dias também cansa.

António Sousa Pereira

«Renascer» de Elvira Carvalho - Uma novela que nasce por dentro das memórias da Guerra Colonial

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. Renascer – vai ser apresentado no dia 19 de março, pelas 16 horas, na Cooperativa Cultural e Popular Barreirense

Conclui hoje a leitura do novo livro de Elvira Carvalho – Renascer. Uma novela, com uma escrita que nasce nas mãos de uma cronista que nos proporciona uma leitura fluída, que emociona no seu realismo, na simplicidade da linguagem e pela pureza da história.
 

Elvira Carvalho faz-nos mergulhar em momentos da história do nosso país, situações vividas por muitas famílias, a dor da ausência, o futuro adiado, a morte da juventude, as marcas psicológicas de uma guerra colonial que marcou gerações. Um drama emocional que marcou a vida de algumas gerações, nos anos 60 e 70 – a Guerra Colonial.

Um texto que permite sentir o pulsar quotidiano de relações socias das gentes das aldeias que partiam deixando para trás as incertezas e que, através da emigração procuravam dias melhores, ou pela migração interna, rumo à cidade grande – Lisboa - também em busca de melhores condições e dignidade de vida.



Uma história de amor e dor. Uma história de um país prisioneiro. Uma história que faz pensar e faz doer os nervos.
Elvira Carvalho escreve de forma dura e crua, como já o disse, sem rodriguinhos, na sua escrita vai desenrolando uma novela que, página a página, apetece chegar ao fim e descobrir como finda, afinal, para sentirmos que no fim quem vence é o amor.
Uma obra que nos proporciona uma leitura bilingue, pois podemos ler em português e castelhano.

Elvira Carvalho, como já o escrevi quando comentei o seu livro As cores do amor», é, sem dúvida, uma contadora de histórias, com uma beleza de quem escreve como quem fala, uma observadora da realidade que, pela escrita, relata o pulsar da vida.
Se no seu livro anterior, sentimos Portugal nos anos do PREC, neste viajamos pelas cicatrizes da guerra colonial.

Repito que, na verdade, a leitura dos seus livros é apaixonante, porque parece que estamos a ler com quem escuta uma conversa e ouve uma história de vida, de acontecimentos narrados na primeira pessoa, tal qual, como se fosse uma crónica, ou uma crónica-reportagem, um encontro entre a vida e a ficção, um jornalismo-literário. Um conto-novela.
«Renascer», é uma história bem estruturada cativante, são fragmentos de uma estória igual a muitas estórias, vivida neste país, que sente-se foi escrita com paixão e emoção à flor da pele. Volto a escrever que é gratificante ler porque na leitura sentimos a força da palavra com muito humanismo. Ali, em cada quadro está um instante de vida e uma sucessão de instante, através dos quais se cruzam muitas vidas e se escreve um país.

Da aldeia à cidade. Do individua ao colectivo. Um estória marcada no tempo, naquele ano mil novecentos e sessenta e oito…num mundo que descobria a lua, e nós teimávamos em manter uma guerra como fim anunciado.
Elvira de Carvalho que só tem a 4ª classe, mas, como costuma dizer, sempre gostou de escrever, dá-nos mais uma prenda que nasce, certamente, nas suas memórias.

Faz muito bem em continuar a escrever, a legar-nos estas lições de vida, uma sociologia de um tempo, escrita sem pretensões, mas, uma escrita onde se sente que está vivo o prazer de partilhar com um sentir puro que brota nas suas palavras grávidas de emoções.
Elvira Carvalho, nasceu em 3 de Setembro de 1947, na Azinheira Velha e vive no Barreiro. O seu novo livro – Renascer – vai ser apresentado no dia 19 de março, pelas 16 horas, na Cooperativa Cultural e Popular Barreirense. Obrigado!

António Sousa Pereira

Manuel Cabanas – Cidadão Honorário do Barreiro 120 anos do nascimento de um lutador pela Liberdade

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Manuel Cabanas, natural de Cacela, concelho de Vila Real de Santo António, é um ícone da cultura ferroviária, da resistência anti-fascista, um homem que dedicou à sua vida à conquista da Liberdade e da Democracia, que por essa luta foi preso sete vezes, pelo regime de Salazar.

Hoje, dia 11 de Fevereiro, é data que assinala o 120º aniversário do nascimento, deste homem que recebeu a mais alta distinção do concelho do Barreiro - «Cidadão Honorário».

 

Manuel Cabanas, que sempre amou a sua terra natal, nunca esqueceu o seu Algarve, é lá, em Cacela, que descansa, sentindo ao seu redor as ondas do Atlântico, num lugar que mantém viva a sua presença e a sua cultura.

Manuel Cabanas, ferroviário, viveu a sua vida adulta no Barreiro, esta terra que ele sempre amou e manteve sempre dentro do seu coração.

Fundador do PS


Uma figura que é um ícone da cultura ferroviária e da resistência anti-fascista. Um homem que se inscreveu nas memórias do Barreiro como um exemplo de vida, de dignidade e humanismo, para muitas gerações, que com ele partilharam os dias de luta contra o silêncio e o medo, e, também de aprendizagem na Escola Alfredo da Silva, onde leccionou.

Manuel Cabanas esteve envolvido no MUNAF, no MUD, na Campanha de Norton de Matos, na Campanha de Humberto Delgado ( tendo sido inicialmente um apoiante de Arlindo Vicente).

O Mestre Cabanas viveu 40 anos sem passaporte, situação que o impedia de ir ao estrangeiro, e, por essa razão, não esteve presente na reunião, em 1973, que fundou o Partido Socialista.
“Não assistiu à criação do PS, mas foi considerado um fundador do PS, sendo o militante nº 55.

Manuel Cabanas foi socialista toda a vida, um socialista de esquerda, um socialista combatente, um socialista de combate solidário” – disse, numa sessão no Barreiro, Almeida Santos, Presidente da Assembleia da República e líder histórico do Partido Socialista.

 

Grã-Cruz da Ordem da Liberdade e Cidadão Honorário do Barreiro

 

Em 1983, também a Câmara Municipal do Barreiro decidiu homenageá-lo com o a distinção «Barreiro Reconhecido», na área das Artes e Letras.

Em 1985, Manuel Cabanas foi condecorado com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, no grau de comendador, pelo Presidente da República, General Ramalho Eanes.
Em 1991, foi agraciado pelo Presidente da República, Dr. Mário Soares, com o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.

Em 1991 foi condecorado com a Medalha de Honra do Distrito de Setúbal.

No ano de 1996, após a sua mrte, foi distinguido com o Galardão de Cidadão Honorário do Barreiro.

O ano do centenário do seu nascimento – 2002 - foi assinalado com um extenso programa promovido pela Câmara Municipal do Barreiro, com exposições e diversos eventos culturais.

Um homem receado por Salazar.

 

“Manuel Cabanas teve sempre ideais políticos, ele, era um produto do Barreiro, terra para onde veio viver com 20 anos. Foi um verdadeiro sindicalista, um homem receado por Salazar.

Aqui no Barreiro, Manuel Cabanas, assumiu a plenitude da sua consciência política, desenvolvendo uma actividade sindical com grande consciência e solidariedade” – afirmou Almeida Santos, numa sessão que decorreu no Barreiro, para prestar uma homenagem ao Mestre Cabanas, no 110º aniversário do seu nascimento.

“Manuel Cabanas esteve envolvido em todos os actos de rebeldia contra o regime da ditadura do Estado Novo”, disse Almeida Santos.

 

Um precursor na arte de ilustração. Um homem culto. Um autodidacta

Manuel Cabanas, muitos recordamos a trabalhar de forma apaixonada no Café Tico-Tico, na arte que cultivou ao longo da vida com ternura – a Xilogravura. Foi precursor na arte de ilustração. Um homem culto. Um autodidacta.

“Ele foi um artista, um homem de grande sensibilidade”, seu nome era elogiado e evocado, na Academia de Coimbra, como “o artista” – “o revolucionário”. 

“Ele era um sábio. Frequentou a Universidade das suas próprias leituras, tinha a 4ª classe, mas era um homem de uma cultura vastíssima, ele sabia de história, de filosofia, de religião, de cultura política.
Ele adquiriu uma cultura que era invulgar em qualquer licenciado, o que tornava o diálogo com ele encantador. Sua arte são verdadeiras obras primas.” – referiu Almeida Santos, quando o Mestre Manuel Cabanas, foi homenageado no seu 110º aniversário, ao recordar longas conversas que manteve com o Mestre Manuel Cabanas, em Monte Gordo.

Barreiro deve muito a este homem

 

Após o 25 de Abril Manuel Cabanas foi eleito pelo Partido Socialista, deputado na Assembleia Constituinte, mas, após essa data, no Barreiro, por vezes, foi maltratado - “chegaram a chamar-lhe fascista, ele que foi um lutador pela liberdade”, recordou Almeida Santos.
“O Barreiro deve muito a este homem, ele adorou o Barreiro e o amor também se paga”, disse.

 

Manuel Cabanas e Vicente Campinas dois amigos

 

Tive a honra de partilhar momentos da minha vida com o meu conterrâneo Manuel Cabanas, guardo dele muitas recordações e obras que me ofereceu com amizade e ternura.

Foi através dele que conheci, a obra e o homem, o nosso comum conterrâneo Vicente Campinas, comunista, exilado em Paris, com quem Manuel Cabanas manteve sempre uma grande amizade. Sou disso testemunha.

O Ilustre Cidadão Honorário do Barreiro, o Mestre Manuel Cabanas, nasceu a 11 de Fevereiro de 1902, faz hoje 120 anos. Morreu aos 93 anos, no dia 25 de Maio de 1995, no hospital de Faro.

Nesta data, aqui fica esta abraço e o OBRIGADO ao Mestre da Vida,  pelo seu exemplo de lutador, de criativo, de amante da Liberdade.

Ainda hoje recordo o eco daquela voz, que escutei no Teatro Cine, numa celebração do 5 de Outubro - Dia da República - a pedir um minuto de silêncio, em memória de Catarina Eufémia. Uma voz em luta pela Liberdade!

Nas costas do Ti’Manel, o GNR, vigilante, ficou impávido. Na sala cheia, a multidão ergueu-se num gesto único, em silêncio, que era, afinal, um grito: Viva a Liberdade!

 

António Sousa Pereira

 

Foto – Jornal do Algarve

Saboreando a ternura de todas as aprendizagens

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No dia de hoje, há treze anos atrás, andei a passear pelas areias da Praia do Baleal e saltitei entre as rochas junto à ermida.

Era o meu primeiro dia na situação de reformado. Fiz questão de estar ali naquele recanto junto ao Atlântico, onde um dia, li, com paixão, a mensagem de Fernando Pessoa. Cumpriu-se o mar. Falta cumprir-se Portugal.
É assim, um pouco, como as nossas vidas, há sempre algo por cumprir, mas, o belo é tentarmos viver com a vontade de tudo fazermos para nos cumprirmos. Nós e os outros. Nunca nos cumprimos sozinhos. O importante é viver preenchendo o tempo em plenitude. É isso cumprir!
 
Recordo hoje, aquela Ilha, onde falei, tantas vezes, com gaivotas e perdia-me a olhar os céus sorrindo. Voa. Voa. Voa, pensava, como se fosse o Fernão Capelo Gaivota.
Aquela Ilha onde enchia o caderninho de notas, projectos e sonhos. Ali, onde, um dia, com as ondas a beijar os pés, nasceu a ideia do jornal «Rostos».
 
Aquela Ilha da Ti’ Adriana que tinha um sorriso enorme, uns olhos lindos e cativantes, e sentada na muralha, beijava as ondas e as gaivotas deitavam-se nas suas mãos, marcadas pelos nervos do tempo e feitas de rugas da vida.
É verdade, faz hoje 13 anos. Que iniciei um tempo novo, esse que me permitiu sentir a energia do tempo, essa coisa simples, sempre a deslizar, que faz de nós tudo o que somos, respirando a vida.
O tempo é a unidade de tudo o que somos. Nele caímos. Erguemo-nos. Optamos. Escolhemos. Choramos. Rimos. Caminhamos. Sim, como diz o poeta, o caminho faz-se caminhado.
Estes anos afinal, que deviam ter sido de mera fruição, não foram anos fáceis. Foi a Troika. O Estado a levar-nos o sorriso. A humilhar a nossa dignidade.
Foi a pandemia. Os dias de confinamento. A ausência de calor humano. A saúde a quebrar o ritmo da vida. A solidão. A proximidade. Estivemos tão perto uns dos outros e tão distantes.
É tudo isto que nos faz sentir como viver é aprender a morrer. Recomeçando todos os dias.
 
Hoje aprendi o significado da expressão - Talitha Kum! Levanta-te!
É isso, disse para mim mesmo, nós, por vezes, nos nossos dias o que precisamos é de escutar esse apelo para mover a nossa vontade interior: Talitha Kum!
Hoje, 13 anos depois do começo da minha reforma, parece que escuto de novo essa expressão a tocar os meus neurónios – Talitha Kum!
 
E, talvez, sem me aperceber, foi esse som que escutei, muitas vezes nos meus nervos, sempre que ergui os olhos em sorrisos para escutar o meu coração ou beijar os olhos da vida- Talitha Kum!
Sim, talvez seja a idade que faz ter a consciência de sentir o peso do tempo a acumular-se nos ossos, ou acumular-se nos neurónios, saboreando a ternura de todas as aprendizagens. Respirando. Apenas respirando.
 
Hoje, pela manhã, junto ao contentor de lixo, um homem esgravatava. Em busca de si mesmo A história repete-se.
A fim da tarde, uma amiga, comentava comigo que o Núcleo do Re-food Barreiro deve ser neste momento aquele, em Portugal, que dá resposta a maior número de pessoas.
É vida.
Escrevo esta crónica, ao fim do dia…talvez apenas para respirar e sentir o som do universo.
É vida…
 
António Sousa Pereira

Transparências Das cidades de solidão ao novo ciclo…

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A economista Noreena Hertz, numa entrevista ao jornal «Expresso», fala do seu livro “O Século da Solidão», um livro onde analisa as implicações e as causas da solidão.

 

A entrevista abriu-me o apetite para ler o livro, até porque, nos dias de hoje, este é um tema de grande actualidade.

“Se quisermos falar  de solidão num sentido relevante no século XXI, precisamos de reconhecer que a solidão é tanto politica como pessoal, e os seus estímulos são tão tecnológicos e económicos como relacionados com as escolhas que fazemos enquanto indivíduos”, afirma Noreena Hertz.

A solidão como conceito que permite pensar em contextos e pretextos que visam motivar os cidadãos do fazer cidade e cidadania, do participar na discussão das cidades e na procura de soluções para o bem estar e qualidade de vida.

Um solidão que deixa marcas na forma de estar na vida quotidiana, essa que cria uma vida virtual, vivida nas redes sociais e marcada de ilusões, de ausência de afectos, e , por isso toca na saúde física e mental.

São esses os tempos que vivemos, o tempo que se faz e constrói com o nascer de cidades de solidão.

  

PSD a necessidade de se repensar profunda e estruturalmente

 

“A escolha inequívoca que os portugueses fizeram significa para o PSD a necessidade de se repensar profunda e estruturalmente. De questionar o papel que deve representar na sociedade portuguesa”, são palavras de Pedro Rodrigues ex-deputado social democrata.

Esta a onda que começa, e vai tornar-se em vaga e  vai crescer, porque o PSD está a ser pisado nos calcanhares pelo Iniciativa Liberal e pelo Chega.

Há no PSD que não se incomode com uma ligação-táctica ao Chega. Quanto ao IL, a ligação é banal.

Este assunto vai aquecer a vida politica interna do PSD, estes são os primeiros sinais da água a começar a borbulhar. O certo é que a temperatura vai aquecer nesse “questionar o papel que deve representar na sociedade portuguesa”.

O CDS-PP evaporou-se, segundo as palavras do ex-deputado do CDS- PP devido à “megalomania” de Francisco Rodrigues dos Santos que só tinha como objectivo ser deputado.

O PSD neste novo ciclo politico vai ter dificuldades em se afirmar como fiel da balança da direita em Portugal. Será que vai conseguir recuperar o espaço politico que perdeu para o IL e para o Chega?

 

Presidente da República foi despedido do cargo de árbitro

 

Por outro lado, Luis Filipe Menezes, sublinha que – “o Presidente da República foi despedido do cargo de árbitro do regime, neste momento, o país não precisa de um árbitro, mas sim de um vigilante do regime…”.

Pois, as maiorias absolutas são o que são, num país, onde o “estado é rei”.

Num país, como diz António Barreto, dia após dia, ano após ano, o estado se fortalece, em detrimento das instituições, como por exemplo as academias, as associações, os sindicatos, as empresas ou as religiões, e, também da imprensa.

É por isso, hoje, quando li as palavras de Manuel Carvalho que a democracia portuguesa é suficientemente madura para acreditar ma qualidade dos seus contrapoderes – a independência judicial, o poder moderador do Presidente da República ou o dever do escrutínio dos jornalistas, que acrescenta, ser incerta, o estado da oposição. Interroguei-me. Pensei apenas na vida vivida. E no direito de dar vida à palavra indignação. É vida.

Basta recordar os dias da indignação potenciada por Mário Soares. Ou aquela maioria que, de PEC em PEC, nos conduziu à troika.

 

Obviamente, demita-se!

 

E, neste dia dou comigo a deliciar-me a ler o texto de Boaventura de Sousa Santos – Obviamente, demita-se!.

Um mergulho pela história. A velha história da história da esquerda, que se digladia e a direita que cresce. O BE em tempo de reflexão.

 

Presidente de Câmara e Vereador vão para a prisão

 

Ainda, o registo que o Tribunal de Leiria condenou o ex-presidente da Câmara de Pedrogão Grande, Valdemar Alves e o o ex-vereador Bruno Gomes a sete anos e a seis anos de prisão efectiva, relativamente ao processo de reconstrução de habitações na sequência dos incêndios de Junho de 2017.

 

Violência Doméstica

 

E, para fechar, a noticia que no ano de 2021 a violência doméstica registou 23 mortes – 16 mulheres, duas crianças e cinco homens.

Houve uma redução comparativamente a 2020, ano em que foram registadas 32 mortes.   

 

António Sousa Pereira

O timbre melódico que se deita no espaço

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Os pescadores continuam a pescar no meio do Tejo.
Os barcos da SOFLUSA e da Transtejo rasgam as águas e lá vão navegando entre as duas margens, como sempre, transportando a força de trabalho, num vai e vem quotidiano, marcado por esperança, desespero. É vida.
No Passeio Ribeirinho Augusto Cabrita um casal dá um passeio de mão dada, num silêncio apenas rasgado pelo som de uma gaivota e pelo borbulhar das ondas, ternamente, no areal junto ao pontão do Clube Naval.
Um homem ergue o telemóvel e faz uma fotografia ao Tejo. Um avião cruza os ares. Lá ao longe, outro avião levanta voo, abrindo as asas no céu azul.
Uma gaivota abre as asas e desliza junto ao espelho de água.
 
Sento-me numa pedra a olhar a outra margem. O panteão ergue-se solene na zona de Alfama.
O Álvaro dedicado associativista passa por mim, no seu passo calmo, na sua caminhada habitual : Bom Dia! Ele responde : “Bom Dia”.
“Então que diz das eleições?” interroga.
“Tudo está bem, quando acabe em bem”, respondo.
O Álvaro esboça um sorriso. Noto tristeza no seu olhar e no seu comentário.
Um atleta passa por nós, no seu treino matinal, procurando obter a melhor forma física.
 
Tenho na minha mão um livro de Herberto Helder. Abro ao acaso. O espaço. O tempo. A idade. A paisagem. Este lado e o outro lado da paisagem e do espaço. Fragmentos. A tristeza. A sabedoria.
Olho-me a mim mesmo eu e a paisagem. Olho o Panteão. Penso Portugal. Amália. Eusébio. Sofia.
Mergulho os olhos no Tejo, ali, naquele lugar, onde lavo os meus olhos nas águas. Eu e a paisagem. A paisagem como sentido da vida. A vida como sentido da paisagem.
O barco da SOFLUSA rasga as ondas.
As ondas beijam os lábios das margens.
Ao fim da tarde, na minha rua, uma vizinha pergunta sobre as eleições. Um outro amigo faz a mesma pergunta. Interrogações. Há muitas interrogações.
Digo-lhes, que está tudo bem, correu tudo bem…recordo-lhes que os juros estão a aumentar, recordo-lhes que o barril do petróleo está a aumentar.
“Está tudo bem”, comento.
“A minha reforma teve um aumento de sete euros”, disse ela.
Caminhamos e sorrimos. O sol ilumina com um colorido brilhante a Quinta da Várzea. Um autocarro chega à paragem. Os passageiros descem, de passos cansados. Murmuram. A rotina. O quotidiano.
 
Está a findar o mês de Janeiro do ano Dois Mil e Vinte e Dois, este é o dia seguinte. Tudo calmo. Sereno. Está a começar um novo ciclo.
Ao dobrar a noite, as notas de um piano, deslizam em sol misturadas nas minhas palavras.
Escuto, o timbre melódico que se deita no espaço…sorrindo ao tempo!
 
António Sousa Pereira

Transparências - Habemos orçamento!

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Todos os dias há palavras que ficam como meros registos da espuma dos dias, ou notas que permitem pensar o tempo que vivemos.

A minha leitura matinal do jornal é um encontro com essas coisas e loisas.

 

Hoje, neste dia pós eleitoral, que abre um novo período da vida politica, um tempo que vai exigir muita reflexão, ponderação e estarmos atentos às palavras, aqui e agora, intencionalmente, dou inicio a esta rubrica - «Transparências», através da qual irei partilhando as palavras que tocam regularmente os meus neurónios.

 

Não sei como posso ser útil…

 

“Eu não sou de dramas. Mas eu sou o primeiro a não ter argumentos para dizer em que posso ser útil neste contexto”…ou..,”como posso ser útil ao partido”, foram palavras de Rui Rio.

O presidente do PSD, com esta nota, sem anunciar o seu pedido de demissão, como que a abandonar o barco após a derrota eleitoral, deu um claro sinal que vai afastar-se e que abre a porta para que avance um novo líder.

 

IL elegeu pelo Círculo Eleitoral de Setúbal

 

“Com ideias, sem protagonistas, sem populismo e com rigor provámos que é possível tirar pessoas da apatia e crescer eleitoralmente e voltar a dar esperança aos portugueses”, disse João Cotrim da Iniciativa Liberal, que afirmou a sua oposição firme “ao socialismo que há tanto tempo nos desgoverna”.

O crescimento do Iniciativa Liberal, uma força politica que se assume objectivamente de direita, por um lado é sinal da maturidade da democracia portuguesa, e, na verdade, um exemplo, que pode-se ser de direita e ter opções de direita com uma cultura democrática, e, até, defendendo posições reconhecidas como causas da esquerda, como é o caso da eutanásia.

Esta é uma força politica que começa a abrir uma brecha no sistema partidário no pós 25 de Abril e que tem espaço para crescer. Elegeu, pela primeira vez, um deputado pelo Círculo Eleitoral de Setúbal.

 

A democracia é assim mesmo  

 

“O Bloco teve um mau resultado e…há deputados racistas a mais no Parlamento “, afirmou Catarina Martins, na noite das eleições e, ainda acrescentou – “a democracia é assim mesmo”.

O BE vai ter muito que debater ideias e encontrar rumos na sua diversidade e pluralidade.

 

Quando perder a coragem, perde tudo

 

“Quando um homem perde os bens, perde pouco. Quando perde a dignidade, perde muito. Quando perder a coragem, perde tudo”, afirmou Jerónimo de Sousa, na noite eleitoral.

Recordou que – “os problemas sociais que afligem os portugueses, designadamente no plano da protecção social, no apoio aos mais desfavorecidos, no combate à pobreza infantil…diminuirá significativamente”. “É uma pena”, salientou

Uma força politica inscrita na história e na vida dos portugueses, como dizia Melo Antunes, no PREC, é necessária á democracia.

 

Liberdade! Liberdade!

 

“Ainda há um mês nos deram por acabados, e estamos na Assembleia da Reoública. Queriam-nos excluir da história”, comentou na noite eleitoral Rui Tavares, do Livre, o partido que se afirma da “esquerda verde europeia”.

“Se há uma maioria absoluta do PS, há uma maioria ainda maior à esquerda”, acrescentou, numa noite onde a sua eleição foi saudada com gritos – “Liberdade!Liberdade!”.

 

Vitória da humildade, confiança e pela estabilidade

 

“Esta foi uma vitória da humildade, confiança e pela estabilidade”, salientou António Costa, na noite eleitoral.

“A maioria absoluta não é poder absoluto, não é governar sozinho, é uma responsabilidade acrescida e é governar com e para todos os portugueses”, acrescentou.

“Será uma maioria de diálogo com todas as forças politicas que representam na Assembleia da República os portugueses na sua pluralidade”, disse António Costa.

“O grande desafio que terei nesta legislatura é reconciliar os portugueses é reconciliar os portugueses com as maiorias absolutas”, salientou António Costa.

É, sem dúvida, um grande desafio.

 

PS pode fazer o que quiser

 

E, como escreve António Barreto, - “a partir de agora o PS pode fazer o que quiser. Governar como entender e com quem desejar. Traçar livremente o seu caminho. Elaborar e fazer cumprir o seu programa. Preparar as suas politicas e designar os protagonistas. A nada é obrigado, a não ser à lei e à democracia. À justiça e à honestidade. Os socialistas já não têm desculpas”.

 

O  muro caiu em cima do Bloco e do PCP

 

E, para finalizar, parafraseando, José Miguel Tavares – “o PS aguentou o seu centro e destruiu a sua esquerda. O  muro caiu em cima do Bloco e do PCP e o PS recolheu os escombros. António Costa é rei e senhor de Portugal.”

E finaliza - “tudo está bem quando acaba em bem”.

Este é, pois, o dia seguinte, agora vamos ter quatro anos de estabilidade…tudo está bem, quando acaba em bem, foi também a frase que utilizei para comentar o resultado eleitoral para um amigo que me telefonou a comentar – “isto está tudo louco, o Chega à frente do Bloco”.

Está tudo bem, quando acaba em bem…habemos Orçamento!

 

António Sousa Pereira  

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