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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

Pensar

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Por trás de uma imagem
dizem, há sempre uma linguagem.

Um pensar que se sente,
um dizer que se quer dizer,
um dizer que se não diz,
um dizendo não dizendo.

É por isso que uma imagem,
vale por mil palavras,
e muitas imagens essas, então,
valem por muitos pensamentos.

Nesta imagem eu digo o que penso,
sorrindo em pensamento,
sinto que sou o centro do mundo.

É por isso que na minha casa,
é por isso que na tua casa,
começa o pensar cidade,
começa o fazer humanidade.

António Sousa Pereira
2 de Abril 2020

 

Nunca deixes de chorar

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Se queres chorar, não deixes de chorar,
deixa um rio nascer nos teus olhos,
deixa uma fonte humedecer os teus lábios,
deixa um dique inundar as tuas emoções

Se queres chorar, nunca ouses não chorar,
não deixes ficar as lágrimas escondidas,
deixa-as soltar na fibra de vidro do coração,
flutuar como sopro no vento do teu corpo.

Se queres chorar, chora no leito do teu olhar,
rasga as dores da tristeza, da saudade e da dor,
prende a angústia, a injustiça em lágrimas a florir,
na maquilhagem da angústia e solta um sorriso.

Se queres chorar, chora, com os olhos coloridos,
pega nas sombras das tuas lágrimas maquilhadas,
veste os olhos de todas as cores de prata, azul,
da cinza, carvão, e chora lágrimas de púrpura.

Chora, faz com lágrimas partir a dor, o desgosto,
faz florir no teu rosto as coisas bonitas da vida,
aprende que nunca é tarde para chorar e amar,
sentir os cabelos rasgar o vento, voar e viver.

Sente as lágrimas fluir nas veias do teu corpo.
Sente as lágrimas inundar-te de gritos e raiva.
Chora, nunca deixes de chorar. Chora o amor.
Chora a vida. Chora a dor. Chora a esperança!

António Sousa Pereira
1 de Abril de 2020

Nota - Com um carinho especial para a Anabela Sereno , Rob Erta e sua mãe.

Fragmento de Quadro de Kira

Da «solidão comunitária» à «cidade solidária».

 

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Hoje pela manhã caiu granizo na cidade, neste tempo de Abril, o tal tempo das águas mil. Acordei com o ruído da forte chuvada. Levantei-me e olhei o chão coberto de um manto branco.
A rua uma página em branco. Afinal, cada dia da nossa vida é uma página em branco. Vivemos quando escrevemos, quando inscrevemos no branco a cor do nosso suor e sangue. Em cada dia uma palavra, em cada dia um poema, em cada dia uma ideia que acrescentamos a outra ideia. Todo o tempo que vivemos é feito das ideias que somos.

Todos temos ideias. Ideias são a energia que dão força à nossa vontade, alimentam os nossos nossos desejos. Todos temos sonhos. Viver não é apenas viver, viver é construir esses sonhos.
Quando somos crianças e nos perguntam: Que queres ser quando fores grande? A nossa resposta é o fruto do nosso contexto social, dos nossos pais, avós, vizinhos, por vezes, até, do bairro, da vila ou da cidade onde nascemos e crescemos. É aquilo que Ortega Y Gasset refere, que o homem é ele e as circunstâncias. Uns querem ser médicos. Outros Policias. Outros Bombeiros. Há os que sonham ser actores e também os futebolistas. Outros querem ser cantores. Há também os que querem ser jornalistas, ou professores. Outros sonham ser comerciantes, como o pai ou o avô. Há os que querem ser advogados. As escolhas e opções são uma projecção do sonho que sonhamos. Umas vezes por nossa vontade, outras empurrados pelos ventos da vida. Acasos. Necessidade.
É por isso que há, também os que sonham ser ricos, querem ter uma grande casa, muito dinheiro, entrar na lista da «Forbes», ou apenas, no limite, tudo fazer para ter uma casinha, ali, junto ao rio, ou junto ao mar.

E, sabemos, há também aqueles que nunca souberam o que era sonhar, os tais, que Soeiro Pereira Gomes, dizia que eram “os filhos dos homens que nunca foram meninos”, esses seguem o caminho que está traçado ao nascer, um caminho inscrito nas raízes da família, pode ser a fábrica, pode ser a terra ou pode ser o mar. São pescadores, agricultores, pedreiros, padeiros, pasteleiros, electetricistas, vendedores, operários, trolhas, aqueles que o poeta dizia, constroem o mundo, o tal mundo em construção.
É isso, há os que nascem patrões. Há os que nascem para o trabalho. O viver. O sobreviver. É por isso que, hoje como ontem, e sempre, existirão ideias e valores que são o alimento que fazem andar a história, mudam o rumo da história. Progresso. E foram tantos os caminhos percorridos. Transformações. Combates. Lutas. Revoluções. Descobertas. Invenções. Lutas pela Igualdade. Lutas pela Liberdade. Lutas pela Fraternidade.

E, cá estamos, neste século XXI, inesperadamente, numa encruzilhada da história, vivendo um tempo de inquietações, de incertezas, de medo. Um tempo parado no tempo. De repente, todos reduzidos a uma plena igualdade. Somos humanos, meramente humanos. A nossa rua tornou-se um lugar no mundo. As ruas de Itália que cantam. As ruas de Espanha que dançam. As ruas transformaram-se no ponto de encontro da humanidade a espreitar pela janela, cantando, aplaudindo, sorrindo. De repente descobrimos que existe a vizinhança, que há pessoas que moram ao nosso lado, tal como nós, com angústia e medo a tocar os nervos e o coração. Em cada casa começa a luta pela defesa da humanidade.

Nos últimos anos falamos tanto em globalização, primeiro falando da globalização da proximidade das noticias, depois da globalização pela proximidade das comunicações, o mundo da internet, chegámos à globalização da guerra, com os misseis intercontinentais, globalização dos mercados, globalização do mundo financeiro, e, agora, cá estamos com a globalização da morte. Este encontro entre o pensar o macrocosmos, com o pensar microsmos, é o ponto de chegada a um novo olhar para pensar a humanidade, valorizando o pensar local e pensar global, numa unidade temporal.
Há quem diga que a globalização começou com a epopeia dos descobrimentos iniciada pelos portugueses. Hegel defende que esta é marca do começa da era da moderndidade.
Chegámos aqui, nesta tempo dito de pós-modernidade e, com ele, vamos entrar no pós globalização, esta, a era da mundialidade. Um tempo que nos faz pensar como, de facto, tal como dizia Gorbachev – esta é a nossa casa comum.
E, afinal, não chegámos ao fim da história anunciada, nem sequer ao fim das ideologias, nem ao fim das teologias, porque tudo isto faz parte da história da humanidade.
Como dizia o poeta, é pelo sonho que vamos, e, todos os sonhos, em todos os tempos são feitos de ideias, de ideias, de fé, de razão, de emoções.
O tempo de hoje motiva-nos a pensar humanidade, a viver humanidade. Vão ser tempos duros. Um tempo que exige lideranças que sejam mobilizadoras de acção pelo bem comum. Um tempo que vai implicar a discussão do papel do estado. Um tempo que vai nascer no fazer cidadania, no fazer em conjunto, incluindo e não excluindo. Um tempo em que estamos juntos nessa batalha pela sobrevivência, no fazer cidade, no fazer país, no fazer europa, no fazer humanidade.
Quem, neste tempo, continuar a querer ser protagonista da história e o centro do mundo, e , não for capaz de perceber que a história de uma comunidade faz-se com a história de cada um de nós – eu, tu o outro, nós – não entende que vamos viver um tempo novo, que tem nestes dias de «solidão comunitária» a semente da «cidade solidária».

António Sousa Pereira
1 de Abril de 2020

 

Ao fim da tarde no meu terraço

 

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Ao fim da tarde,
na sombra do silêncio,
dou passos e passos,
estico os braços,
beijo o sol que se vai,
aperto a luz ao peito,
caminho nesta espera,
que é a espera do regresso,
que é regresso ao amor,
porque é o amor,
que nos faz ser cidade,
é o amor que nos beija,
é o amor que abraça,
é o amor que nos toca no olhar,
é o amor que sussurra no falar,
é o amor que é amor e amizade,
só o amor dá à vida o sabor,
só o amor faz cidade.

Estou aqui nesta tarde,
dando passos no meu terraço
tantos passos que caminho
repetidos com ternura,
estes passos que dão calma,
estes passos feitos de desejo,
de voar e ser gaivota,
de mergulhar nas ondas do Tejo
são passos feitos do sentir,
o sentir com amor é que é lindo.

Estou aqui no terraço,
caminhando os meus passos,
por caminhos imaginados,
pelas nas ruas da cidade,
que está longe, irónica, solitária,
sem sorrisos no vermelho dos lábios,
sem abraços de cumplicidades,
sem beijos amorosos proibidos,
sem palavras de lutas solidárias.
sem paixões a rasgar ambições.

Estou aqui ao fim da tarde,
nesta tarde de Março,
dando passos e passos,
que sinto puros e limpos,
caminhando entre flores,
no silêncio do meu terraço.

Olho as luzes da noite a brilhar,
dando luz à penumbra da cidade,
que adormece, numa dor adormecida.

Há um cacto a florir num canto do meu terraço.
Há um sorriso feito fado nos meus passos.

António Sousa Pereira
31 de Março de 2020

Saudade do futuro marca o presente da humanidade

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Quando o dia se despede e se deita na noite, descanso os meus dedos nas teclas, numa catarse de palavras, onde encontro o tempo, este que sou, e, todo o tempo que percorre os meus neurónios, em sinapses que desocultam memórias. Encontro palavras escritas dentro das palavras que escrevo, um estendal de poemas, uma fogueira de fonemas. Lentamente, o luar descobre a noite, e, é nessa negritude solar que me encontro e reencontro. Penso.
Nos dias de hoje, é verdade, já o disse, não nos falta tempo para pensar o tempo.

Podemos pensar os dias Abril, aqueles, quando escutámos as vozes de comando proibindo saídas à rua. Mantenham-se em casa, dizia a voz do MFA. Mas, nós, todos nós, decidimos ignorar e invadimos as ruas com flores, aquelas que anunciavam a Primavera. Eram vermelhas da cor do sangue da Liberdade que nascia no peito colorido de sorrisos frenéticos desfraldados nas bandeiras verdes e rubras que rasgavam o céu azul.

Podemos pensar Iraque, revivendo aquelas noites flamejantes, com o real a confundir-se com a imaginação. A emoção de um jogo de guerra, de uma qualquer batalha naval, era, real e pura, transmitida em directo na televisão, como quem estivesse a assistir ao filme do Dia D, agora, sentado no sofá, escutando os sons das batalhas. Explosões. Os misseis a rasgar os céus, nos ditos, bombardeamentos cirúrgicos. A morte não se via, nem se sentia, eram as cores dos feixes de luz que, lá longe, bem longe, rugiam com os gritos de morte, que no dia seguinte abriam os noticiários. Indiferentes. Os combates eram silenciosos. Ficaram inscritos na memória com as palavras – um drama, um horror, uma tragédia. A morte em directo do ditador. Trágica. Teatral. Tudo isto vimos, como quem estivesse rever um episódio medieval. Uma fogueira inquisidora. Eram mortes lá longe, mortes limpas, com alvos estudados, combates de mãos limpas e puras, sem dor, sem sangue, numa guerra de mundo bom e mundo mau. E o futuro foi aquilo que se viu, dolorosamente no mesmo terreno de guerra e destruição de património da humanidade. Os purificadores da história e do deserto do petróleo. Outro valor que se rende à divindade do mundo financeiro.

Podemos pensar Chernobyl, esse tempo de fuga radioactiva que trouxe o nuclear para dentro das ruas da europa. Mortes ignoradas. Mortes escondidas. Protestos. A humanidade num caminho sem retorno, onde, talvez um dia colapse, tal como Hiroshima, esses escombros que são a memória do planeta em chamas. Destruição avassaladora.
Esta é a nossa casa comum, o nosso planeta no universo, aqui, onde a Amazónia é desfolhada, incendiada na Austrália, inundada na Tailândia ou na India. Um mundo que se destrói, em degelos, ou em guerras. Alterações climáticas. Alterações genéticas. Lucro. Negócio. Tudo inutilidades, que apenas singram porque não se pensa humanidade, nem se pensa natureza. O dinheiro é rei. O poder é ambição. Ideologias. Teologias. Fé. Razão.
Tudo isto desbravamos, neste tempo por dentro do pensamento. Um tempo psicológico que faz pensar revolta, que faz voar, assim como quem olha um pássaro a rasgar os nervos num vendaval de silêncio.

Podemos pensar a queda da Torres Gêmeas, outra dor que está colada nas cinzas da memória. Gritos que fazem pensamento, gritos que fazem o tempo que somos.
Fechamos os olhos e os corpos caem, voando, dolorosamente, impotentes, entre chamas e nuvens de pó. Uma cidade feita dor, rasgada numa morte semeada por crenças, essas crenças que matam, inscrevendo nomes em murais. Seja em Nova Yorque, seja em Santiago do Chile, seja em Berlim, seja em Pequim, seja em Lisboa, seja em Buenos Aires ou seja em Auschwitz. Murais de morte a celebrar a vida.

Nós somos o fruto de todo este tempo, de todas estas memórias, um tempo que tatuámos na pele, com corações de amor, na Guerra Colonial, ou símbolos de «make love, not war», ou com números de cadáveres adiados nos campos de concentração.
Somos fruto de todo este tempo, de paixões, encontros e desencontros com a natureza e com as emoções, essas que cantámos nus a escutar um cântico de Joan Baez, com o Vietname a queimar os olhos com as bombas de napalm, vestidos de esperança cantada nos sons de resistência, nas montanhas de França Bella Ciao, ou nas ruas do Barreiro os Vampiros, porque sempre, humanamente, lutamos a cantar, em orações, que dizem - vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar.

Podemos pensar Muro de Berlim, esses tempos que se cruzam com a dita geração rasca. Um tempo dito de fim de ideologias ou de fim da história. Do fim das ideologias, que nunca vão deixar de existir, porque sempre existirão senhores e escravos, até um dia, que todos vejam que o único valor é sermos humanos, nas diferenças, que se escreve naquelas palavras - liberdade, igualdade e fraternidade – sim, é verdade felizmente há luar.

Este é um tempo feito de pensamento que se cruza com a história que toca nas nossas estórias. Sonhos. Desejos. Um mundo novo. Um mundo melhor.
A história que é história que move o homem em todos os tempos quando pega nas suas mãos a palavra amor e acredita que é possível, fazer um mundo mais belo, construir um mundo mais humano, onde sejam proibidas as prisões de pensamento, as prisões dos Deuses.
Um mundo tolerante. Um mundo de poesia. Um mundo que emerge num cântico que escutamos no Coro dos Escravos, de Verdi. Ou que imaginamos nas telas de Frida, ou de Picasso.
Um mundo onde as cores são gritos de esperança.
É talvez isto que sentimos, nestes dias, que nos encontramos por dentro do tempo, por dentro das palavras.
Tudo isto pensamos, nestes dias que navegamos por dentro da solidão. O homem com ou sem Deus, porque Deus é, se quiserem, o homem na sua infinitude, chamem-lhe Jeová, Alá, Jesus, Buda, é, um direito de acreditar ter fé, é o direito à Liberdade ao amor. Cosmos. Esse mesmo direito que outros, na sua Liberdade, podem assumir de não acreditar, nem crer, porque acreditam que para crer basta apenas ser humanamente humanos.

É tudo isto que dá para pensar, neste tempo vivido por dentro do tempo, com as lágrimas a tocar os olhos e rasgando o cansaço. Com a morte a anunciar a vida.
Estou aqui, já pela noite dentro e penso naqueles que estão na linha da frente na luta contra o medo, na luta contra a ansiedade. Heróis, sem fotografias, sem narcisismos. Aplaudidos.

Penso esta angústia diária de pensar o ser humano reduzido a números. Morreram 20 em Portugal. Foram 842 em Espanha. Foram 978 em Itália. Números enterrados em silêncio. Números cremados na penumbra das chamas.
Sim , estamos todos na luta, uma luta que começa na nossa casa, agora, edificada como lugar de combate. Era bom que todos soubessem cumprir, porque neste cumprir está o viver. Acreditem.

Este é um tempo que nos ajuda a pensar como somos, isso, apenas isso, temporalidade. Um vírus reduz-nos à insignificância.
Esta geração que está a viver estes dias de «solidão comunitária», recebe um legado real, vivido, do agir local e pensar global.
Está nas suas mãos construir um mundo de redes, co-laborativo, co-produtivo, co- operativo. É um grande desafio, é uma epopeia de uma reconstrução anunciada, uma cidade onde o que é de todos por todos deve ser decidido. Polis.
Como dizia Augusto Mateus, um destes dias, numa entrevista num canal de televisão, este não é um tempo de governar com base na comunicação, nem sequer é um tempo de pensar que a economia vai ser dinamizada com a construção de casas ou autoestradas. Aprendam. O futuro começa agora.

Este é um tempo que nos exige que sejamos capazes de percorrendo o tempo, por dentro do tempo, aprender com a memória e aprender com a história.
O futuro está no fazer, está no ser, está no fazer comunidade. É tempo de começar o novo de novo, um tempo de reinventar, talvez possamos ficar, apenas com a certeza que não há fim da história, que não há fim das ideologias, há isso sim. sempre uma história que recomeça. Inesperadamente. Um revolução que será transformação, inevitavelmente. A humanidade, a comunidade, a individualidade, está presente, hoje, na solidão e no amor, nos aplausos e no ser solidários.
Nunca tanta saudade do futuro marcou tanto, tanto, o presente da vida da humanidade. Saudade. Interrogação. Sonho. Esperança que abre a porta á confiança...isto vai amigos, vamos lá!

António Sousa Pereira
31 de Março de 2020

 
 

A morte será vencida!

 

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Dói pá, dói, dói ver aqueles que partem,
sem o silêncio da dor, das nossas lágrimas,
sem o afecto dos abraços entre os braços.

Dói pá, dói, ver aqueles que enfrentam a fera,
viver na ausência da força que dá razão à vida,
o carinho, o beijo, a ternura, dos amigos ou do lar.

Dói pá, dói, ver os outros nas ruas a caminhar,
actos feios, actos tristes, no cúmulo até faz dó,
um caminhar vaidoso, tiranos matando a liberdade.

Dói pá, dói, dói, esta dor e ansiedade,
dói esta dor, da dor dos nervos,
esta dor, da dor de um povo,
esta dor, que é dor do mundo,
dor de morte desesperada,
dor de morte na solidão
dor de morte numerada,
dor no silêncio na cidade.

Dói pá, isto dói, ver o ser humano,
reduzido a número, gente sem rosto,
número que mata a própria dor,
mata a tristeza e mata o desgosto.

Dói pá, isto dói, ver cada povo,
ser número, ser apenas contagem,
humanidade sugada numa voragem.

Dói ver só números enterrados,
contar dez, mais vinte, mais cem,
são aos centos, muitos centos,
são aos mil, mais mil, muitos mil,
secamos os olhos, calamos a dor,
desesperamos, sem coragem no contar.

Dói esta morte que nos mata,
no matar a hora da despedida,
no matar a dor na flor, o adeus,
no matar a saudade da partida.

Dói esta morte severa,
que é contagem, multidão.
a morte que são mil pá,
muitos mil, muitos mil,
isto dói pá, isto dói pá!

Tanta morte vai ficar,
muito além do esquecimento,
vai marcar todo este tempo,
donde vamos renascer,
redescobrindo o sol na vida.

A lembrança deste tempo,
será o vencer a dor,
será retomar o norte,
a morte será vencida!

António Sousa Pereira
30 de Março de 2020

O futuro é parido com dor e com amor.

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Este tempo de portas fechadas é um tempo de tempo parado no pensamento. É um tempo de tempo vivido no tempo do pensamento. É um tempo que faz mergulhar nas memórias, sentir, apenas sentir, como quem sente e vive todo o tempo no pensar.
Podemos pensar sol, podemos pensar luar. Podemos pensar rio, podemos pensar mar.
Podemos pensar o país que fomos, podemos pensar o país que somos.

Podemos pensar o lugar onde nascemos, viajar pelos tempos de criança. Podemos descobrir a descoberta das letras e dos números. Podemos reencontrar os amigos de criança. Podemos jogar à bola. Podemos rebolar na areia da praia. Podemos subir às árvores. Podemos jogar ao berlinde. Podemos recordar amigos de aventuras, tocar numa campainha e fugir, rindo a bom rir. Podemos imaginar como sonhamos voar. Quando for grande quero ser...e fomos o que nos fizemos, neste somos.

Podemos encontrar o primeiro beijo. Podemos rever os primeiros olhos que entraram nos nossos olhos a florir. Verdes. Azuis. Castanhos. Podemos dar as mãos ao nosso primeiro amor. Podemos recordar a primeira viagem de barco, de comboio ou de avião, porque na vida há sempre um tempo que é sempre, e para sempre, o primeiro tempo de um tempo que começámos vivendo. Podemos voar em canções que fazem os nossos neurónios cintilar nas luz das emoções inscritas na nossa interioridade. Um som guardado e recordado. Aquela música de um baile, onde o nosso corpo explodiu em flores. O filme que vimos vezes, sem conta, com lágrimas autênticas, que nos transportavam para dentro das emoções que nasciam na frente dos nossos olhos. E, até, aquela paisagem que se tornou rubra ao por do sol, ou uma noite de luar, ou um abraço de ternura, nas ondas do oceano rasgando os corpos na praia deserta. Ou, porque não a bebedeira, a primeira, que é aquela que fica marcada no sabor, que, ainda hoje, emerge na saliva nos lábios.
Podemos recordar aquele lugar onde um dia, afinal, começou tudo o que de nós fizemos. Amor. Ilusão. Amizade. Saudade. Uma Avenida. Um banco do jardim. Uma montanha junto ao mar. Uma escada no recanto da cidade. Um mar de relva a olhar o Tejo. Arrábida. Baleal. Um lugar único, que é nosso, que está no coração, esse, onde só lá entra quem nós quisermos, sorrindo, porque esse, afinal, é o lugar dos sorrisos.

Podemos pensar o dia, inesquecível, aquele, quando o filho nasceu, fruto de um amor, cantado ao som de uma guitarra, ou, suavemente, numa dança, com os corpos ondulantes florindo nos sons do Bolero de Ravel.
Podemos pensar o beijo escondido ao dobrar o calor da noite. Podemos recordar os amores vividos e amores esquecidos, porque a vida é sempre feita de amor.É o amor que nos empurra, mesmo nos dias de hoje, na solidão da cidade silenciosa, encontramos no amor o calor que dá vida ao tempo que percorremos no tempo, por dentro do tempo da memória.

Podemos pensar nas ideias que abraçamos. Podemos pensar nas ideias que sonhámos. Podemos pensar nas ilusões e desilusões. Podemos pensar nos momentos que caímos e nos levantamos. Podemos pensar no resistir e no ser, e, silenciosamente, olhamos para a imensidão da vida. É isso, a vida é bela.
A vida esse lugar onde, todos os dias, nascemos e morremos, em cada começo e recomeço. É isso que nos faz sentir como a resiliência vale mais, muito mais, que a desistência. É no resistir que sentimos como é belo encontrar, sempre, em cada recomeçar, a emoção de parir futuro. O futuro é parido com dor e com amor. O belo do amor é que ele forja, no nosso coração, a poesia.

António Sousa Pereira

Palavras

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Com palavras forjo o tempo que sou,
com palavras esqueço o tempo vivido,
com palavras sou futuro e sou esperança,

com palavras sou poema ou sou história,
com palavras sou silêncio e sou ausência,
com palavras sou loucura e sou memória,

com palavras sou ternura, sou dor, sou amor,
com palavras sou magia, sou paixão, sou luar,
com palavras sou viagem, sou sol, sou sorriso,

com palavras sou tristeza, sou sangue, sou vida,
com palavras sou nervos, sou morte, energia,

com palavras sou afecto, sou mente, sou alma,
com palavras sou luz, sou trovão, tempestade,
com palavras sou vento, sou música, sou pintura,

com palavras sou eu, sou tu, sou nós, sou cidade,
com palavras sou poema, sou palavras, sou fonema,
com palavras sou árvore, sou ciência, sou sagrado,

com palavras sou lira, solfejo, água, sou rio, oceano,
com palavras sou homem, mundo, sou humanidade,
com palavras sou pensar, sou agir e sou...Liberdade!

António Sousa Pereira
29 de Março de 2020

 

Simplesmente

 

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A vida que se cumpre
não é a vida que se vive,
é a vida transformada,
simplesmente.

A vida que se cumpre
é a vida que se faz,
do nascer ao morrer,
simplesmente.

Não fazes a vida vivendo,
fazes a vida fazendo,
essa vida que tu és,
simplesmente.

No que fazes, no que amas,
no que sentes, no que existes,
nem precisas inventar,
só tu és, simplesmente!

Só tu sabes o que és,
no teu som, no teu dom,
no centro de ti, está a alma.
É aí, que existes, simplesmente!

António Sousa Pereira
28 de Março de 2020

 

O poema

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Numa estrada rumo à floresta,
descobri um farol escondido,
rompendo a ternura dos olhos,
uma fonte cristalina na alma,
uma cascata de cor nos nervos,
uma química de luz num sorriso.
uma metáfora a voar no coração,
um cantinho de intimidade no ser.

Numa estrada rumo à floresta,
na leveza dos olhos sorrindo,
num sinal por dentro do peito,
a arte beija o tom dos lábios.

Um poema, é tão lindo, não é?

António Sousa Pereira
28 de Março de 2020

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