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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

Quinta Braamcamp - não mexam, que não estragam!

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Hoje é um dia que vai ficar inscrito na memória dos barreirenses. Sim, este é um dia histórico. Uns podem achar que é histórico, por ser o dia que dá origem a “uma boa noticia”; outros vão considerar que é histórico por ser o dia que dá origem a “uma má noticia”. O futuro irá julgar.
Uma coisa é certa, o actual executivo municipal, hoje, numa reunião pública extraordinária vai apresentar a proposta cuja finalidade é alienar uma parte do território municipal. Uma propriedade municipal adquirida há pouco mais de dois anos, vai ser colocada no mercado imobiliário. As tais ditas janelas de oportunidade que fazem os tempos presentes.

Como esta é uma matéria de interesse público, como quero, pessoalmente, assumir a minha posição sobre o assunto, para que conste e fique como memória futura. Expresso, aqui e agora, a minha discordância enquanto cidadão da decisão de venda deste património municipal.
E, como vivemos em democracia, que deve ser vivida e construída no respeito pelas diferenças, aqui afirmo meu não à venda. Ponto final. A minha opinião vale tanto como do presidente da Câmara, só que ele tem o poder de decidir e eu tenho o poder de discordar. É isto a liberdade, o pluralismo, a democracia. Como dizia Mário Soares, em pleno cavaquismo, nunca abdiquemos do nosso «Direito à indignação». Perder o direito à indignação é perder o o direito à cidadania, a ter a voz na polis.

Podem decidir. Foram eleitos para gerir os destinos da comunidade, mas não foram eleitos para calar as vozes discordantes das vossas opções.
Para mim, este é um dia histórico e triste, quando um executivo municipal, opta por vender parte do seu território, adquirido após anos de negociações para o dominio municipal, e, agora opta pela sua venda, com base num projecto imobiliário. Nem só de habitação é feita uma cidade.

É triste, igualmente, que nos dias de hoje, quando alguém toma posição sobre esta decisão do executivo municipal de imediato é acusado de «comunista». Era assim também antes do 25 de Abril, quem discordava do regime, qualquer um, estava ao serviço do comunismo. Era, também, um pouco assim no PREC, que tomasse posição discordante da força dominante era acusado de reaccionário.

Desde que este assunto, da Quinta Braamcamp, foi colocado na agenda politica local, tudo tem sido feito para estigmatizar o tema. Todos os meios servem. Criou-se o “caldo cultural” necessário para afunilar a discussão, ou por outra para não haver discussão. Tudo ficou claro com a criação de barricadas. Nada acontece por acaso. Os acasos são puras necessidades.

Por isso a cidade não se mobilizou para discutir o assunto, porque ele foi sempre colocado como um conflito entre os «aziados» e os «açucarados».
Porque as pessoas no geral consideram que em torno do assunto, afinal, o que há é politiquice, jogos de poder, um conflito PS – PCP, como se estes dois partidos fossem os donos disto tudo.
Os outros partidos calam-se, ou vão na onda, gerindo os residuos do conflito, para não ficarem muitos chamuscados.
A população em geral está alheia ao assunto. Foi feito um inquérito, ao qual eu respondia que sim, obviamente que respondia – SIM. Sim, a quinta é uma mais valia para o Barreiro. Sim, se for feito um projecto de valorização. Sim, a tanta coisa.

Este assunto foi muito bem trabalhado. Teve uma boa operação de marketing, com de ideias força para isolar os contestatários. Chegou-se mesmo ao nível do ataque pessoal do carácter das pessoas. As pessoas foram atiçadas umas contra as outras. Gerou-se culturas de ódio. De ambos os lados, uniam-se forças em torno do «inimigo comum».

A Quinta Braamcamp foi o «lait motiv» para manter em «banho de maria» a tensão de permanente campanha eleitoral, de guerrilha urbana, de criação de estigmas, de gestação de calimeros, de vitimizações, de muros ideológicos. O debate politico bateu no fundo, no pleno preto e branco.

Até hoje, gostava de perceber o que é este projecto vai contribuir para o modelo de cidade futura, para além dos milhões do IMI, sim, até já ouvi falar da importância da «massa critica» que ali vai residir.
Já estou a imaginar o pessoal no futuro, andar por ali a passear de telemóvel na mão, à espera que os VIP’s saiam de casa para fazer uma selfie.

Depois, gerou-se a ideia do abandono, fomentou-se esta ideia nas redes sociais, com «personalidades», a teorizar em torno do estado da coisa, que a Quinta Braamcamp estava ao abandono, há décadas. Até já se fala há séculos.
Esta, digo-vos, foi a vertente que mais me indignou, aquela que mais me motivou para estar contra a venda, porque, afinal. quem quer tomar uma decisão desta natureza de venda, que é uma decisão estruturante para a vida futura do concelho, deve estar de forma firme e convicta. Não precisa inventar inverdades para justificar uma decisão, criar ideia erradas para justificar uma opção. Não gostei.

Mas, na verdade, a ideia passou, a ideia do abandono colou, dos ratos, do lixo, da degradação – “o que é que esses senhores que estão contra a venda querem que aquilo fique naquele estado de abandono”.
Isto, ao mesmo tempo que se optou por não utilizar as verbas de uma candidatura a fundos europeus, já aprovada, a qual permitia que tivesse sido feita uma intervenção de limpeza e recuperação do espaço para fruição pela comunidade.

Em suma, de um lado estão os que querem o desenvolvimento do Barreiro, os que querem atrair investimento, os que querem mudar o Barreiro, os que não passam o tempo a pensar e não decidem, os bons, os que têm visão, os que sabem da poda, os que querem tirar o Barreiro do marasmo de décadas. Esses são os que querem vender a Quinta Braamcamp, e, ali construir habitação, destinada a cerca de 550 habitantes, construir um hotel que vai gerar dez postos de trabalho, construir um campo de futebol, porque tudo isto, no futuro, vai gerar mais de milhões de receita de IMI.
Enfim, justifica-se a construção de cerca de 185 habitações, com o argumento que tal está previsto no PDM. Ouço dizer isto, de forma séria e indignada, a pessoas que criticavam o PDM, por projectar uma cidade de betão, por ser um PDM megalomaniaco.
Agora se o PDM permite, então tudo é permitido.
E, com espanto fala-se que os prédios serão construídos numa zona que não afecta a paisagem, são prédios de três pisos, que vão permitir a pemeabilidade da paisagem.
Enfim, em vez de «muros ideológicos» tão falados como aqueles que travaram o desenvolvimento do Barreiro, vamos, agora, ter «Muros de permeabilidade», porque esses trazem milhões.
O Barreiro o que precisa é de milhões. Uma coisa tenho a certeza se me sair o euromilhões fica aqui a promessa pública, compro a Quinta Braamcamp e ofereço-a ao Barreiro. Isto é que amar o Barreiro, não deixar que estraguem e vendam a sua mais bela paisagem.
Não é deixar que ali construam um campo de futebol, isto, numa freguesia que tem o melhor campo de futebol do concelho que tem um enorme potencial de equipamento desportivo, dos melhores da região, que precisa, há décadas, de ser potenciado e valorizado como estruturante para a economia local, e, para o desenvolvimento desportivo.

O Hotel estou de acordo. Isso ou algo na área da restauração que contribuísse para humanizar o espaço. Isso era defendido pelo anterior executivo, liderado pelos tenebrosos comunistas, esses mesmos, que compraram a Quinta Braamcamp.

Mas, enfim, neste processo, o pior que foi feito ao Barreiro, foi ter sido colocada a discussão, e, assim vai continuar por mais algum tempo, como um problema de guerrilha partidária, de confronto PS contra o PCP e vice versa.
Isso, de facto, serviu para criar anátemas, para desviar a atenção das questões centrais – Qual o papel da Quinta Braamcamp no modelo de cidade que queremos construir? Faz, ou não, a quinta Braamcamp parte do corredor verde da zona ribeirinha do Tejo e Coina? Este PDM não presta, ou ele vai ser a justificação do conceito «habitação também é desenvolvimento». Agora é, porque, no tempo dos malfadados «comunas» ele era a base da cidade de betão.

Não se percebe esta pressa de querer vender a todo o vapor, sem que exista um visão estratégica de cidade. Este era um assunto que devia mobilizar a cidade para fazer cidade.
Será que apenas se pretende justificar, precipitadamente, o bluff eleitoral da «roda Gigante», pretendendo-se tapar esse buraco politico, ou que a dita roda possa vir a todo o custo, nem que para isso tenha que existir um muro de permeabilidade que vai destruir uma pérola do Tejo.

Um dia destes encontrei um amigo, e com ele conversei sobre esta matéria. No final concluimos se eles não fizerem nada da Quinta Braamcamp, não estragam.
Sim, é isso, se amam tanto o Barreiro, então, este espaço único, deixem-no estar, ele, faz parte da nossa identidade, da nossa relação com o rio. Foi por ali que se instalaram os primeiros pescadores. A Igreja de Nº Srª do Rosário estava, e, ainda está de frente para a Quinta Braamcamp, quase que toca na caldeira, agora verdejante, um sinal que ainda há uma esperança. E que se faça luz.
Sim é verdade, no mundo de hoje o que conta é o dinheiro. Esta venda é um sinal dessa opção de vida. Levem-me os aneis e deixem-me os dedos.
A «massa critica» vem para cá residir e, nós, os provincianos, ficamos felizes, com o aumento de IMI e com o «muro da permeabilidade».

A Quinta vai ter espaço públicos e parte do espaço agora vendido, ruas, arruamentos, esgotos, recolha de residuos, numa zona de risco, tudo depois, vai passar para o dominio público e da responsabilidade da autarquia. Quem vier a seguir que navegue sobre os problemas.
É assim vende-se e depois retorna o que não interessa ao privado, e não será para manter na sua alçada.

O conselho é que deixem estar a natureza ali a mexer e remexer. Cuidem do essencial e para isso há fundos europeus. Façam essa habitação de luxo para a tal massa critica, que alimenta as opções de gestão de urbanizações, optando pelos territórios da Baía do Tejo.

Se amam o Barreiro não o vendam! Não vendam a Quinta Braamcamp.
Sabem, como dizia o meu amigo, que até sabe do que fala, mas não fala: É isso não mexam, que não estragam!

Até já, divirtam-se

António Sousa Pereira

Escola Superior de Tecnologia do Barreiro 20 anos de vida A cidade que se orgulhe do seu ensino Superior .1999 - 2019

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A ESTB pode ser uma «ignição» aprofundado o diálogo entre o «saber académico» e o «saber técnico», contando para formar e para ser agente de desenvolvimento do concelho. Isto faz-se com debate de ideias, com diálogo.
 

A Escola Superior de Tecnologia do Barreiro / Instituto Politécnico de Setúbal, comemora esta semana os seus 20 anos de vida - 1999 - 2019, uma efeméride que é uma marca histórica na vida do concelho do Barreiro.
Acompanhei de perto, na altura a exercer actividade de Chefe de Redacção do Jornal do Barreiro, os esforços que foram desenvolvidos, o sentido de ‘lobbie’ que foi gerado, envolvendo personalidades do Barreiro quer do PS, com destaque público para António João Sardinha, e, ao nível da CDU, do então presidente da CMB, Pedro Canário, e, igualmente de Carla Marina, vereadora da área da Educação. Mas, outros barreirenses, ligados ao ensino Superior de forma anónima e empenhada deram o seu contributo para que o Barreiro fosse contemplado com o Ensino Superior.

As comemorações dos 50 anos da Escola Alfredo da Silva, neste processo foram um marco importante, quando Jorge Sampaio, Presidente da República, marcou presença no Barreiro, assim com o o Ministro da Educação, quer nas intervenções realizadas no decorrer da sessão evocativa, quer em conversas informais – o Ensino Superior no Barreiro foi o tema que marcou esta celebração.

De facto, dois anos depois, em 1999, a Escola Superior de Tecnologia do Barreiro arrancou a sua actividade no concelho do Barreiro. Começou a funcionar inicialmente no Bairro Operário, onde actualmente funciona a Escola Profissional Bento Jesus Caraça. A escola cresceu e a necessidade imperiosa de novas instalações colocava-se, até, como forma de localização definitiva e consolidação estruturante na vida do concelho.

Foi na gestão de Emidio Xavier que essa matéria esteve em análise. A primeira pedra das novas instalações da ESTB, na Quinta dos Fidalguinhos foi colocada no dia 25 de Janeiro de 2005.
A localização da ESTB nos Fidalguinhos foi um tema que animou debates acesos nas reuniões de CMB e na AMB. A liderança socialista não concordava com a localização apontada pela CDU, no Lavradio, num espaço na proximidade do Centro de Saúde do Lavradio e da zona industrial. O PS defendia e viu aprovada a sua proposta, com o apoio do PSD, na sua actual localização na Quinta dos Fidalguinhos.

Para alguns esta foi uma boa decisão. Talvez, para a época, perante os argumentos existentes, a proximidade da escola de uma zona industrial ainda em actividade, mas cujo fim se anunciava, era previsível, e, posteriormente concretizou-se ( hoje, praticamente desactivada, desde a Central da EDP, às fábricas da UFA que foram desmontadas e levadas para na India), e, a existência de uma nova Urbanização que ganhava e beneficiava, ao obter na sua centralidade um equipamento âncora, que lhe dava vida própria.

Mas as decisões, quando tomadas, deviam ter em conta não questões circunstanciais – as modas da época, as oportunidades do tempo – mas sim uma ideia de cidade, um projecto de cidade, uma visão para o território, assente em projecções a décadas, balizadas em perspectivas de desenvolvimento estruturante, porque isso, sim, determina o legado que os gestores, os decisores politicos, pelas suas acções constroem futuro.

A realidade, as mudanças no território que na época já eram visiveis, nos dias de hoje, provam que a CDU, afinal, até era capaz de ter razão em querer a ESTB nos terrenos do Lavradio. Na época não tive opinião. Assisti em silêncio ao confronto e aos argumentos de um lado e do outro, como se tratasse de uma politiquice entre PS e CDU, ou uma guerrilha entre partido na luta pelo poder, aquelas discussões que em vez de se discutir a cidade que é de todos e o futuro que é de todos, opta-se por colocar o debate entre os que querem o bem e os que querem o mal. Afinal, isso só acontece porque a guerrilha partidária se sobrepõe aos interesses de cidade. Sempre assim foi, sempre assim será. É vida.

Hoje, até como residente na vila do Lavradio, não tenho dúvidas de afirmar que se a ESTB estivesse a funcionar onde a CDU defendia, esta terra não tinha continuado a degradar-se, o seu espaço urbano já tinha sido requalificado, os poucos espaços que ainda estão para urbanizar já estavam construidos, o Lavradio tinha beneficiado de um equipamento âncora que perdeu, em beneficio da nova urbanização.
Foi um erro estratégico levar a ESTB para os Fidalguinhos, até porque, ao ficar naquela localização, tinha sido um contributo para iniciar o desenvolvimento da tal nova visão estratégica para os territórios da Quimiparque.

O Lavradio é cada vez mais uma vila que se degradada, sem requalificação do seu espaço urbano. A ESTB no Lavradio podia ter sido um motor de requalificação e revitalização da vila, além de ter enriquecido a sua dimensão demográfica e renovação etária.

É por isto, que não alinho de cruz, nessa ideia que foi uma boa decisão a localização da ESTB na urbanização dos Fidalguinhos. Aqui no Lavradio até o «campus do ensino superior tinha condições para crescer, com as portas abertas para um «nicho cultural e artistico» e tecnológico que pode e deve ser estimulado na Baia do Tejo. Mesmo ali ao lado, um dia irá nascer o Centro de Tratamento de bivalves, que vai ter parcerias com com a ESTB, no plano da investigação.
Deixe-mos esta matéria. É uma mera reflexão.

Mas, o importante é que o ensino superior é uma realidade na vida barreirense. Uma realidade que tem vindo pouco a pouco a afirmar-se e a consolidar-se.
Um realidade que foi estimulada sempre por uma estreita cooperação e diálogo entre o Poder Local – quer gerido pela CDU, quer gerido pelo PS – com o poder central, quer gerido pelo PS, quer gerido pelo PSD.
Celebremos pois os 20 anos de ESTB e os 20 anos de ensino superior no Barreiro.
A ESTB pode dar um importante contributo para a que o Barreiro aposte em estratégias de requalificação urbana, em vez dessa tendência imobiliária de expansão urbana.
A ESTB pode ser um parceiro para dinamizar candidaturas europeias – unindo o ensino ao fazer cidade, apostando em requalificar uma cidade que sofreu e sofre ainda os efeitos da desindustrialização. Apostando na eliminação do seu passivo ambiental, e requalificando de forma estratégica os seus vazios industriais da antiga CUF e das zonas ferroviárias.

A ESTB mais que ser um espaço de «ignites» que é motivador e que contribui para pensar presente e pensar futuro, deve ser estruturante para se afirmar como referência do Barreiro ao nível da investigação e espaço de saber, e, nesse contexto, ter no pensar os territórios da região e da cidade como um «laboratório» de aprendizagem e do fazer cidade.

A ESTB pode ser uma «ignição» aprofundado o diálogo entre o «saber académico» e o «saber técnico», contando para formar e para ser agente de desenvolvimento do concelho. Isto faz-se com debate de ideias, com diálogo.
O Ensino Superior no Barreiro tem que ser um polo de referência, vivido e sentido na cidade e na cidadania.
Um exemplo vivo de ligação da cidade à ESTB, a criação da Bolsa de Estudo pelo Rotary Club do Barreiro. A cidade reconhece o seu Ensino Superior, sempre assim foi, a vida prova-o, são os actos e não as palavras que fazem a vida.

A ESTB agora com cerca de 800 alunos, com um corpo académico altamente qualificado está a rasgar caminhos para o futuro.
A cidade que se orgulhe do seu ensino Superior e que saiba dar-lhe dimensão no fazer cidade.
Parabéns ESTB!

António Sousa Pereira

 

Perestroika e Troika - passado é sempre a semente do presente.

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No dia de hoje, há 30 anos, em 1989, também vivi, de forma intensa, a queda do muro de Berlim. Foi uma surpresa anunciada. Como outros, não senti que estava a viver um momento marcante, assim, como sendo o fim da história, referida por Francis Fukuyama.
Mas, senti que estava a viver um tempo de ruptura, um corte com uma experiência da humanidade que, afinal, tinha sido um fracasso, quando através dela se perspectivou um mundo novo, um homem novo, uma nova página da história da humanidade.
Este acontecimento foi mais um passo, das mudanças e reconstruções que vinham sendo anunciadas, desde o ano 1986, com o início da Perestroika.

Recordo, que por estes tempos, nos anos 86 ou 87, foi realizado um Debate no Auditório da Biblioteca Municipal do Barreiro, no qual participaram uns convidados oriundos da Checoslováquia, no final do qual, então, fiquei vibrando a tecer comentários sobre as várias intervenções que acabava de escutar. Afirmei, que tinha acabado de viver um debate que trazia um sinal óbvio, que estava em marcha uma profunda mudança no pensamento teórico «marxista-leninista». O debate vivido era, mesmo, um pensar outro «marxismo-leninismo», por dentro do fazer perestroika, com uma interpretação «fora da caixa» e em ruptura com os dogmas.

Senti naquela noite, na verdade, que algo de novo estava a acontecer. Afinal, na vida, tudo começa no campo das ideias, no desocultar pensamentos.
São as palavras que traduzem a forma de interpretar o mundo. É através das palavras que abrimos caminhos no presente, são elas que anunciam o futuro. Sementes.
Senti naquela noite, desabrochar dentro de mim, o começo de uma reflexão politica e filosófica que conduzia a uma nova forma de pensar o mundo e a humanidade. A necessidade de pensar a história. A importância de reflectir sobre os caminhos. A urgência de se encontrarem soluções, sem medo de assumir os erros cometidos. Recomeçar.

Sempre considerei que a reflexão filosófica é essencial à reflexão politica, e, por exemplo, foram os tempos da perestroika que permitiram soltar amarras, esse, foi um tempo que senti como um regresso da filosofia ao pensamento politico, a importância do confronto de ideias, para através delas desbravar e criar utopias. Fazer caminhos e semear opções.
Um tempo que deixava para trás, bem para trás, aquela conversa que um dia mantive no barco entre Lisboa e o Barreiro, com um prestigiado histórico do Barreiro.
Eu que vinha de uma aula da Faculdade, falava de Jean Jacques Rousseau, de Hegel. Filosofava. Ele, de dedo esticado voltou-se para mim e disse-me: “Isso, é conversa de filosofos. Os filosofos são homens mortos. Sabes, já Marx dizia...”. Escutei. Calei. Não havia nada a dizer, pois, «já Marx, dizia..».

A Perestroika era esse sinal que dizia Marx, tal como outros filosofos, também era um homem morto. E, com ele e com todos esses homens mortos, nós, todos nós, temos muito a aprender. O passado é sempre a semente do presente.
A Perestroika, dizia-me que muita coisa estava ainda para acontecer, o futuro estava vivo nas palavras onde se construia o presente. Era o tempo que anunciava o «sabor da palavra liberdade», ou, até, o «viver um amor, chamado Abril».
É verdade, há 30 anos, quando o muro de Berlim começou a sua derrocada os militares da então, ainda, RDA estavam por ali, nas ruas, impávidos e serenos de armas na mão, com cravos ao peito. O cravo da Liberdade.

A Perestroika ensinou-me isso, a viver o mundo das ideias através do confronto de ideias. Afinal, sempre que a politica se reduz a maus e bons, a discussões de clubites, a imposição de pensamentos únicos como dogmas para a acção, o caminho é sempre o mesmo, a decadência e a derrocada. A história da humanidade prova-o. Tem sido assim, com dramas e tragédias, com sangue e dor... é assim, infelizmente que a história avança e se reconstrói futuro.

O debate de ideias, o respeito pelas diferenças, o aprofundamento de ideias, a reflexão filosófica, são determinantes nos caminhos e escolhas da humanidade.
Foi isso que aprendi com a perestroika. Esta, de facto, foi uma palavra que se inscreveu na minha vida. No repensar ideias, no reconstruir caminhos, no sentir que há uma grande diferença entre o que se diz e o que se faz – entre propaganda, marketing e a vida real. Experiências históricas.
Sim, foi há trinta anos que caíu o mundo de Berlim. Um passo na busca da democracia como caminho de esperança.Um mundo novo.
Afinal, estamos nesse mundo, o mesmo, onde há cada vez mais «muros económicos», onde a «ideologia é a economia». Ponto final. Os números. As contas certas.
Hoje, afinal, constroem-se outros muros para travar a emigração. O Mediterrâneo é um muro de morte e silêncio.
Todos os muros, em todos os tempos, continuarão a matar e fazer prisioneiros. Os muros ideológicos há para todos os gostos, só que há uns que acham que uns são mais muros que outros muros.

Depois das aprendizagens e opções de vida, nos tempos vividos, em tudo o que senti e o que me foi proporcionado sentir na pele – dentro dos nervos dos dias - em torno da palavra perstroika, outra palavra veio inscrever-se nos dias da minha vida – a troika!

Se com a perestroika vivi a dor a rasgar pensamentos e ideais, o recomeçar a reviver as ideias e o o pensamento que faz humanidade, esta outra palavra, veio fazer-me sentir a dor dos bens materiais, a força da cor do dinheiro. A dor da angústia de pessoas a perder as suas casas, de muitos que optaram por negar a vida. Foi isso sim, foi isso, que aprendi com a palavra TROIKA.
Essa que doeu mais, muito mais que os muros ideológicos de Berlim, do cair das utopias do leste, que muitos confundem com o cair de valores que fazem parte da história da humanidade, de correntes de pensamento com raízes no ser e fazer humanidade. Resistência. Liberdade.

Essa palavra troika, fez cair os muros da vida de muitos portugueses, todos, de súbito acusados de viver acima das suas posses. Que gastavam e bebiam.
A palavra que recordo aquele senhor que dizia – “ai aguenta, aguenta”. E o outro que dizia que se todos os portugueses não comessem durante um ano, pagava-se a divida.
A palavra troika tocou fundo, nos bens materiais, esses onde as ideias pouco ou nada contam, onde os lesados dos seus direitos, os espoliados. Sofrem, Gritam. Aguentam, os que aguentam.
Nunca vou esquecer uma frase que me foi dita, olhos nos olhos, por um social democrata – “Se na Guerra Mundial morreram milhões de pessoas, agora, para salvar Portugal se morrerem alguns portugueses, não faz mal”. Foi mais ou menos isto, era este o seu pensamento. Disse e não sorriu.
A Troika doeu, doeu mesmo muito. Fez-me sentir o que é a politica construída de ilusões. As politiquices.
Fez-me sentir o país que somos. Submissos. Dóceis aos poderes que governam o mundo.

A troika fez-me sentir o valor do dinheiro na vida, coisa que nunca liguei, nem ligo. Afinal, sou feliz com o pouco que tenho. Basta-me viver de cabeça erguida e sorrir.

Hoje, neste dia que passam 30 anos da queda do muro de Berlim, o que me ocorreu à memória, foi o sonho da Liberdade e estas duas palavras - Perstroika e Troika.
Palavras inscritas com dor e com amor, no sangue, nos nervos, nos passos que fazem a vida.
Palavras que ajudam a perceber e, isso mesmo, sentir como é doloroso o caminho de cada um de nós e da humanidade, para construir os dias com dignidade, por dentro, e com a palavra Liberdade!

Até já, divirtam-se!

António Sousa Pereira

 

São as aves que podem colocar em causa os aviões.

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O barco navegava no Tejo. O arrais contava estórias do rio, comentava os tempos que os barcos eram parte integrante da economia regional, ligando as duas margens, prestando serviços. Recordava que existiam comunidades de barcos que se dedicavam aos transporte de lixo de Lisboa para a margem sul, lixo esse que, algum, era utilizado como matéria para fertilizar os solos agrícolas. Outras comunidades dedicavam-se ao transporte de pinho, para alimentar os fornos da grande cidade. Referiu ainda que mais Tejo adentro existia a «comunidade do gelo», que transportava a neve que era utilizada para fazer gelados.
Deliciava-me a escutar o saber de experiência feito do Mestre Gregório, arrais do «Boa Viagem», varino da Câmara Municipal da Moita, que proporciona belos passeios pelo Tejo.

O Mestre Gregório, recordava ditos dos homens do rio : «Quem melhor amarra, melhor desamarra», ou «No mar nada, em terra tudo», e ainda, «No mês de Natal quem não rema fica mal».
Um silêncio enorme no meio do rio. O varino navega soprado pelo vento. As velas erguem-se imponentes, numa beleza que leva nosso olhar a estender-se no infinito.
Escuta-se aquele som característico das águas do Tejo a beijar o «Boa Viagem». Um silêncio que toca os nervos. A pureza pura da natureza.
“Isto vai acabar, este silêncio vai acabar», diz Mestre Gregório.
Estica o dedo e aponta o outro lado, com um ar triste e de mágoa.
“Quando eles construírem ali o aeroporto, no Montijo, isto vai acabar. Este silêncio único vai acabar. Dizem que os aviões vão aterrar ali, de dez em dez minutos”, comenta o Mestre Gregório.

Escuto as palavras do Mestre. Escuto o silêncio. Penso que, talvez, serei dos poucos privilegiados de viver, ainda, este sentimento único, de escutar o silêncio do Tejo.
Penso que, afinal, Lisboa, sempre olhou para esta margem não como continuidade do seu desenvolvimento e região de partilha – a tal cidade de duas margens – e, hoje, tal como noutros tempos, limita-se a usar-nos para o que precisa, em tempos idos levava a lenha e os produtos agrícolas, noutros tempos tinha e continua a ter aqui o se exército de mão de obra – os milhares que diariamente atravessam as duas margens.

E, como sempre, no futuro que se aproxima, vai usar-nos como «plataforma giratória» dos passageiros do mundo com destino a Lisboa, que, aqui chegam, mal tocam no solo, vão e vêm de barco ou pela nova travessia da Ponte de Vasco da Gama. Aqui descem e sobem.
Lisboa é assim que olha para a margem sul, não como território que podia ser estruturante e parte integrante de uma capital cosmopolita. Lisboa a crescer, com o Tejo como «praça central». Era com isso que sonhava um homem que um dia entrevistei , um senhor, que se chamava Fonseca Ferreira.
Não, não é assim. Lisboa olha-nos como um território da província – a outra banda, seremos sempre a outra banda. Serviçais. Subalternos.
O cosmopolitismo lisboeta decide o que desta margem exige, e, haverá sempre, quem fique feliz com as migalhas. Hoje da República. Outrora da Monarquia. Lisboa é Portugal o resto é paisagem.
É por isso que Lisboa, é uma cidade de bairros. As terras da margem sul são os bairros periféricos.
Enfim, o pensar Portugal sempre no imediato, de acordo com os interesses economicistas, ora de Ingleses, ora de Franceses, ora de Alemães. E, ás vezes, até dos nuestros hermanos. É vida. Tudo tem um preço.

Vou navegando no Tejo. Vejo as manchas de aves nas margens. Além são garças.
E, no meio deste silêncio, escuto pensamentos e conversas, polémicas, sobre as aves e o aeroporto.
Alguém me diz, porque sabe, que os habitats das aves em nada, mesmo nada, colidem com o território onde vai ser construído o aeroporto. Não colide o aeroporto, como não colidiu a Ponte Vasco da Gama. As aves vão continuar a voar naquele território, porque este território faz parte de uma realidade mais vasta que liga o maravilhoso mundo das aves que vai de África ao Norte da Europa. As aves vão continuar. O aeroporto não vai colidir com os habitats das aves.
Sim, isso sim, o que pode acontecer é uma ave - como uma águia – ser sugada pelo reactor de um avião. Isso pode acontecer. E quando acontecer, que pode acontecer em qualquer circunstância. Acontece tragédia.
Não são os aviões que colocam em causa os habitas das aves. São as aves que podem colocar em causa os aviões.
Coisas da vida. A história julgará quem decidiu...rezemos!

Até já, divirtam-se!

António Sousa Pereira

 
 

Barreiro o paradigma de cidade do século XXI A cidade que baixou os braços ao futuro e se resigna ao dormitório.

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Novo regime de rendas empurra moradores para fora dos centros, referia uma recente uma noticia no jornal «Público».
Era salientado que uma familia que veja seu contrato de arrendamento caducado, nos centros em Lisboa e Porto, não consegue nova casa através do Programa de Arrendamento Acessível, numa zona localizada a menos de 20 minutos de Lisboa, em carro com trânsito normal.
Segundo a noticia 80% da população de Lisboa está excluída do acesso ao Programa de Arrendamento Acessível.
Para uma taxa de esforço do rendimento familiar de 35% destinado para a renda da habitação, uma familia para encontrar uma renda com condições imposta pelo Programa de Arrendamento Acessível, esta situação tem vindo a piorar, crescendo o tempo de deslocação entre a habitação e o centro de Lisboa.

Esta realidade tem vindo a reflectir-se na margem sul, e, naturalmente no concelho do Barreiro, razão que motiva a existência de teses politicas que perspectivam uma visão com base no pensar que – “habitação é desenvolvimento”.

Estamos, pois, neste século XXI, a assistir a uma nova vaga que vai gerar desenvolvimento do parque habitacional, tal como aconteceu nos anos 70.
É assim, vai continuar a ser assim, enquanto existir a estratégia de centralização da vida do país em torno de Lisboa.
Por essa razão, sempre que Lisboa expulsa franjas do seu tecido social, sem condições financeiras de pagar os valores da rendas, o fenómeno de crescimento das periferias como zonas suburbanas, desenvolve-se ao receber os “deserdados”.

Nos anos 70, foram operários, empregados do comércio e serviços. Agora é uma classe média, que não aguenta o esforço do seu limite orçamental para conseguir manter habitação e o trabalho em Lisboa.

Mas, no Barreiro a grande diferença, entre os dias de hoje e os anos 70 do século XX, é que naquele tempo a vila operária recebeu os novos habitantes, que contribuiram para o seu crescimento demográfico, mas a vila tinha vida própria era uma cidade de emprego e de trabalho.

Os migrantes vinham residir para um “novo Barreiro”, que crescia por todos os cantos, no Lavradio, na Quinta da Lomba, no Alto do Seixalinho, na Verderena, uma explosão demográfica, que crescia em espaços urbanos onde, sublinhe-se, na época, antes do 25 de Abril, as habitações terminavam dentro de si mesmas, sem espaços envolventes tratados, nem jardins, e, portanto, no que dizia respeito aos espaços envolventes isso não contava. Não havia preocupação com espaços verdes, nem por vezes em pavimentar os passeios, alcatroar as ruas. Muito disto foi feito com investimentos de milhares de euros, pela Comissão Administrativa e pelo Poder Local. Estas foram medidas que contribuiram para melhorar a qualidade, por exemplo, através da recuperação de logradouros abandonados criando espaços de lazer e vivência comunitária. Muito ainda está por fazer, mesmo muito...

Como a memória é curta muitos já esqueceram a falta de pressão nas redes de abastecimento de água, ou levar água a zona onde ela não chegava. Sim, quem diz de água água, pode também recordar os imensos problemas ao nível de saneamento urbano. Muitas situações foram resolvidas. Outras estão ainda por resolver. 


Foram feitos investimentos de milhões e certamente ainda há muitos milhões para investir, que na recuperação do sistema, quer na sua manutenção ou, até mesmo, na sua renovação. Enfim, o tal Barreiro que muitos dizem que parou no tempo, mas, com garra foi superando os desafios, ainda, hoje, isso acontece com os programas em curso na zona das AUGI´s.

O Barreiro sofreu imenso com o seu desenvolvimento urbano nos anos 70, desse tempo, ficaram muitas cicatrizes no terreno.
Um dos investimentos que o Barreiro devia fazer, uma candidatura a fundos europeus, para desenvolver através de um programa de um década, para hoje, fazer futuro, era essa da sua total remodelação da rede de águas e saneamento. Um projecto com visão e ambição. Um justo reconhecimento pelo país do seu contributo para a economia nacional ao longo do século XX.
Ocorreu-me tudo isto ao reflectir sobre uma conversa breve, um destes dias, ao almoço, na Tasca da Loira.
Mas, não foram só os problemas nos espaços públicos e nas redes de águas e de saneamento, foram as realidades sociais e os problemas criadas, por exemplo com todas as escolas do ensino primário a funcionar em regime duplo, com competências a serem descentralizadas para as autarquias, sem os respectivos recursos financeiros.
Novas zonas urbanas sem equipamentos sociais, sem escolas, sem creches.

Na prática, o grande privilégio de todos que tinham sido expulsos de Lisboa era ter uma casa com dignidade, ter o ‘autocarro à porta’ que os levava até aos barcos, colocando-os em 30 minutos no centro da cidade. Tudo o resto era coisa que se aguentava. Sair á porta de casa e meter os pés na lama. Já esqueceram?!

Afinal, nesses anos 70, o Barreiro era esse misto de dormitório de Lisboa e uma terra com uma vida própria - a fábrica que se prolongava na vida comunitária. Os operários que tudo faziam para dar um curso aos seus filhos.

O Barreiro sempre foi uma terra de trabalho, com relações de familia e de vizinhança cultivadas no respeito e na solidariedade.
Uma vila com forte ligação à fábrica, onde existiam milhares de postos de trabalho na CUF, ou à CP quer às Oficinas da CP, com milhares de trabalhadores, quer ao pessoal da ferrovia, tudo isto gerava um comércio local pujante.
Uma vila forjada por uma classe operária culta, com padrões de vida diferentes de outras empresas do país, com elevados padrões de formação, culturais e técnicos.
Uma vila de gente activa e criativa, que foi recebendo e integrando os novos habitantes – essa “gente vinha de muitos lados”, através da sua imensa vida associativa, que promovia vivências culturais, desportivas e recreativas.

O Barreiro recebia os novos habitantes que, aqui, pelas portas do associativismo redescobriam a vida em comunidade, criavam laços e formavam novas familias. Os estrangeirados. Eram sempre um pouco molhados como tal, os que tinham cá caído de para-quedas. É vida.

Muitos, nessa época, rotulavam o Barreiro de dormitório, mas o Barreiro, na verdade, era uma terra de trabalho, com emprego, vida própria e criativa, que partilhava essa vivência activa com a realidade paralela do dormitório.
O Barreiro que recebeu os refugiados das antigas colónias, por exemplo, na Cidade Sol, onde logo se integravam e desenvolveram intensa vida associativa.

Agora, no pós desindustrialização, isso sim tem vindo a aprofundar-se o desenvolvimento do Barreiro como cidade dormitório, porque perdeu emprego e com isso perdeu a sua dimensão de vila/cidade centrifugadora.

Nos dias de hoje, começam a chegar novos habitantes, a tal classe média, expulsa de Lisboa, mas, mesmo muitos que cá vivem, filhos das gerações que outrora tinham a fábrica como referência – de pais para filhos – a classe média local, esses, também vivem cá, mas cá não trabalham.
Este é o novo retrato do Barreiro. Este é o novo paradigma. A cidade para dormir e as fins-de-semana ter uns sitios para passear e beber uns copos. A cidade com vida própria vai sendo cada vez mais residual, com problemas urbanos graves a crescer nos seus territórios de edificado mais envelhecido, onde, pouco ou nada, se faz pela sua requalificação.

O Barreiro está deserdado de emprego e está entregue a uma estratégia de desenvolvimento, essa, afinal, a que está inscrita no seu PDM, em vigor, de continuar a fazer do imobiliário a sua linha condutora de crescimento. Não há um pensamento estratégico para os antigos territórios da Baía do Tejo. Existiram uns esboços através do diálogo regular, entre o Poder Local e os governos de Passos Coelho e, inicialmente, com António Costa. Que, até, aqui no Barreiro, prometeu que no programa Portugal 2020, seria feita a aposta na construção da ponte Barreiro- Seixal. Assunto que está congelado. E não se escuta uma voz, acima de politiquices partidárias, mas pelo interesse da comunidade que exija, de uma vez por todas ao Poder Central, que não adie mais esta infra-estrutura essencial à nossa mobilidade inter-territorial, para o Barreiro e para a Península de Setúbal.

Em conclusão, nos tempos de hoje, este Barreiro no cantinho da Península, está a deixar para trás a cultura de ser terra com vida própria. Há alguns uns resilientes. Sonhadores.

O Barreiro vai pouco a pouco, por este andar, transformar-se num dormitório, uma terra que aprofunda uma visão de cidade assente no conceito - «habitação é desenvolvimento».
Foi tudo isto que me ocorreu ao pensamento ao ler a noticia sobre os expulsos do centro de Lisboa, nesta segunda década do século XXI, e, uma conversa à hora de almoço.

Até já, divirtam-se!

António Sousa Pereira

 

Uma semente que ajuda a fazer eternidade. Até sempre, Fernandinho!

 

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A vida é este caminhar rumo a esse encontro com a eternidade. Todos sabemos isso, ao longo do tempo que vamos percorrendo, essa, afinal, é uma realidade presente. Sim, procuramos esquecer, talvez ignorar, até que, um dia, essa realidade toca o nosso quotidiano, quando recebemos uma qualquer mensagem, aquela que transporta a noticia da partida de um amigo ou amiga.

Vivemos e vamos abraçando o tempo, todo o tempo que faz de nós, o que nós somos. O tempo não é um vazio. O tempo vivido só faz sentido quando vivido por dentro de laços, quando o construímos com laços humanos. Abraços. Brincadeiras,. Bocas. Risos. Provocações. Cumplicidades.
São esses os laços que nos ligam aos lugares, ao sitio, à terra, são esses os laços que nos levam a sentir que a nossa terra, é essa, a terra onde vamos construindo memórias, nos nervos, onde guardamos todos aqueles que nos fizeram encher o tempo não de palavras, mas de vivências reais.

É por isso, só por isso, que dói sempre, quando sentimos a partida de um amigo ou de uma amiga, porque, com eles partem memórias. Instantes. Contextos. É um pouco de vida vivida que rompe dentro do nosso tempo vivido.

Recordações. É isso as recordações. Os sonhos.
Hoje, recebi uma dessas mensagens, de forma inesperada, seca, como o som de um trovão a rasgar a mente, ou de um relâmpago a iluminar as memórias.
Partiu o Fernandinho. Vivemos cumplicidades. Partilhamos situações. Construímos esperanças. Acreditamos num mundo melhor, aqueles sonhos imensos de flores que floriram no canteiro de Abril. Ali, lado a lado, acreditando. Até gritando – “Fora com a canalha, o poder a quem trabalha”.
Fomos dos primeiros que, numa noite, num sótão, juntámos vontades para sonhar um mundo novo, então, com o PREC a fervilhar nos ossos. Era um desejo enorme de lutar pelo bem comum, sentido na força da palavra Liberdade.

O mundo mudou. A realidade transformou-se. Caíram muros. Romperam-se teias. Tomei opções diferentes, conscientemente, na certeza que me colocava do lado da barricada, ao lado dos mesmos de sempre, aqueles, ditos por Fernão Lopes como os «ventres ao sol», que nada têm a perder, só sonho para construir. Sofrem. Acreditam. Muitas gerações. Transformando.

Seguimos rumos diferentes, mas, o Fernandinho, nunca, mesmo nunca, deixou de partilhar comigo a amizade, o respeito. Uma vez ou outra, quando estava mais animado, lá vinha uma «boca», não de falta de respeito ou de ofensa, mas pura brincadeira acintosa, própria de quem guardava na memória, os tempos vividos.
Por fim, voltamos de novo a estar sentados na mesma barricada essa que apontava o eterno caminho de querer transformar o mundo. Afinal, o mundo é para transformar. Só quando transformamos evoluímos, construímos, fazemos futuro no presente.

É isso, cada um de nós constrói a vida de laços, esses laços que são afectos, esses laços que marcam os instantes partilhados, esses laços que são as bandeiras inscritas em recordações vividas, no estar em comum.
São, sim, são essas memórias que nós sentimos explodir pelos nervos, nestes instantes que sentimos um amigo partir. A tristeza toca os olhos. Ternamente.
São esses laços que rasgam as memórias do tempo. Os laços de súbito feitos em lágrimas de eternidade.

Recordo. E, ao mesmo tempo que uma mágoa faz doer o tempo por dentro do pensamento.
Agora, imagino-te a rir no outro lado, como quem está, ali, em pleno baile da SFAL, uma matrafona ruidosa, nos dias de carnaval . Gracejas. Toda a gente divertidamente dá sonoras gargalhadas a olhar com espanto para os teus gestos. Tu, em fato de banho feminino, no palco, ergues a perna, esticas os braços, com ar sereno, e, os ditos, espreitam de tal forma que os risos soltam-se até às lágrimas.
Recordo esses dias, e, aqui e agora, não deixo de esboçar um sorriso para ti, num fraterno abraço.
Recordo quando cantavas a Grândola, e, como adoravas o Zeca Afonso e o Adriano.

Recordo aquele dia, quando fizemos no teu Quintal – sempre com o carinho da Ti Natália e do Ti Jerónimo, como era habitual, tudo aceitavam, e, ali, fizemos um petisco, para dar um grande abraço de despedida ao Bento, que no dia seguinte partia para Angola. Essa guerra que, antes de Abril acontecer, nós contestámos. Sim, porque não descobrimos o amor à Liberdade com Abril.

Recordo, aquela noite, no ano de 1974, que viemos a pé da festa da Moita, e, junto à Academia de Alhos Vedros, estava um banco de madeira comprido, ali, mesmo paredes meias com o Banco Português do Atlântico – acho que era esse o nome – e, todos, os três ou quatro que viemos a pé divertidos, noite fora, com luar, sempre a cantar e a brincar, naquela irreverência da juventude, com o sangue na guelra, olhamos o banco e decidimos: «Vamos assaltar o banco!».
E, lá vai disto, pegamos no banco de madeira que por ali estava, se calhar onde o pessoal da Academia se sentava, e , com a nossa irreverência, trouxemos o banco para o Lavradio.
Acho que ainda hoje está no Quintal da casa dos teus velhotes. Dois seres lindos, amorosos, do mais puro que conheci como seres humanos, como apaixonados pelo Lavradio. O Ti Jerónimo homem de grande pureza que se sentia saltar do coração. A Ti Natália de uma simplicidade que floria no sorriso dos seus olhos. É ela que está naquele mural, por cima da tasca do Manel da Galega, no centro do Barreiro. Aquela rosto enigmático com o dedo junto aos lábios. Uma bela fotografia de Augusto Cabrita.
É verdade, falei contigo Fernandinho, de levarmos a Ti Natália ver o mural. Disse-lhe. Infelizmente, nunca o cumprimos.
A vida é isto. Vivemos. Partimos. Deixamos o que fomos, neste tempo que vivemos, como uma semente que ajuda a fazer eternidade.
Até sempre, Fernandinho!

António Sousa Pereira

«Cinco passos para fazer cidade. Cinco passos para fazer cidadania»

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A convite da minha conterrânea e amiga, Isabel Braga, voltei de novo à Escola Padre Abilio Mendes, para conversar com os alunos, com idades entre os 12 e 16 anos, sobre «Fazer Cidade – Fazer Cidadania», um encontro integrado nos objectivos da disciplina que aborda temas de «Cidadania» e «Multiculturalidade».

 

Se na primeira vez, cheguei lá, entrei, falei e partilhei de forma aberta, procurando transmitir os meus sentimentos e as minhas experiências sobre a vida, os caminhos, as pessoas, a cidade, os lugares, em suma, partilhando  com eles o meu olhar sobre o mundo, sobre o tempo vivido e sobre a comunidade, minha e deles, esta, onde construi a minha vida, e, como costumo dizer, aqui, esta terra, não é a minha terra – esta é a terra dos meus filhos.

Quando lhes pedi que levantassem o braço, aqueles que gostavam do Barreiro, como já escrevi apenas dois ergueram o braço e um movia a mão no ar como a querer dizer «assim,assim». Nesta turma, fiquei feliz quando, ao fazer a mesma pergunta, mais de 80 % ergueram o braço a afirmar o seu gosto pelo Barreiro, sendo mais residual os que não se manifestaram. Gostei.

 

Desta vez, procurando na mesma conversar de forma aberta e viva, tal como na conversa anterior, procurei apenas organizar uns tópicos, meras linhas orientadoras. Depois era falar. Assim foi, e, pelo que me apercebi, no final, vários disseram-me que gostaram – “foi fixe!”.

Neste dia, quando estava por ali, no exterior a aguardar o toque para o começo da aula, vivi, com alegria e, digo-vos, até com alguma emoção, a alegria de alunos da aula anterior, que nem os reconhecia, dirigirem-se até mim para dizer: “Obrigado pela sua conversa”, e, um deles sublinhar – “Gostei muito, tem que voltar de novo para conversar. Foi muito bom”.

Eles, digo-vos, encheram-me o ego. Há coisas na vida que valem mais, muito mais, que dinheiro, valem o sentir o tempo preenchido de sentimentos reais. Amor pela vida. Este prazer de sentir a vida pulsar no coração.

 

Mas, voltando à última conversa, quero partilhar aquelas que forma as ideias centrais, os tópicos orientadores da conversa. Escrevi no caderninho.

«Cinco passos para fazer cidade. Cinco passos para fazer cidadania»,  ou as «cinco pegadas do fazer cidadania».

E, o primeiro passo no fazer cidadania, esse passo que dá força para fazer cidade, força para fazer tudo o que cada um de nós é, fazer tudo o que cada um de nós contribui para fazer cidade – esse é o passo que se escreve com a palavra Liberdade. Somos seres livres. E somos seres livres quando respeitamos os outros, quando sentimos o prazer de saber, quando sabemos que a aprendizagem faz de nós seres livres. E lá fui, mergulhando em palavras e sentimentos.  A vida.

 

O segundo passo , esse, escreve-se com a palavra democracia. Ser democrata é saber confrontar ideias, é ter capacidade de diálogo, é respeitar as diferenças. Falei na força das ideias, a importância das ideias e dos ideias. Sendo livres, podemos escolher. A democracia faz-se vivendo as escolhas. Uma cidade é feita para todos, não é construída apenas para pessoas de um partido, ou de uma religião. Uma cidade é esse lugar onde cada um de nós é, como um eu e como um tu, sendo nós. Foi giro. Eles perceberam.

 

E, continuei para o terceiro passo neste caminhar no «fazer cidade» e «fazer cidadania». Recordei-lhes que nós somos seres únicos, mas somos seres que aprendemos a viver em comunidade. Uma cidade é uma comunidade, E fazer cidade é sermos solidários. É este o terceiro passo – a solidariedade. Somos solidários na escola, nas associações, na nossa rua, no nosso bairro. Essa uma marca do Barreiro – uma terra onde todos quase nos conhecemos uns aos outros. Já foi mais assim, no tempo que a fábrica marcava o ritmo dos dias.

Mas, para fazer cidade e para sermos cidadãos, temos que saber partilhar. A cidade somos todos.

Deliciei-me a falar de solidariedade. Não tinha nada pensado. Era o que chegava vindo da memória. Por isso recordei-lhes que pela solidariedade chegamos à memória, porque nós somos hoje o fruto dos homens e mulheres solidários que nos antecederam e legaram este mundo. Agora, nós temos que saber legar o mundo ao futuro. Isso é ser solidário.

Cada um de nós é um colibri, que leva a gota de água para apagar o incêndio da floresta.

 

E, continuei estes passos que escolhi para esta conversa, em outubro de 2019, dizendo-lhes que o quarto passo, escreve-se com a palavra criatividade.

Viver é ser criativo. Temos que sentir a vida todos os dias. Ser criativo é amar. Se criativo é acordar todos os dias e olhando o sol a brilhar nos olhos, sentirmos essa energia que nos leva a viver fazendo o que gostamos. Para fazer o que gostamos, temos que aprender a fazer, construir, inventar, criar, recriar. Seja como jogador de futebol. Seja como trabalhador de limpeza. Seja como médico. Seja engenheiro ou aquilo que for, ser criativo, é, saber que temos que aprender, aprender com os outros, saber reconhecer com humildade o legado que recebemos, ter a consciência que o nós não somos o começo do mundo, e, até que há mais mundo depois de nós. Nós temos que ter a alegria de criar e fazer um mundo um pouco melhor, construindo, embelezando – na música, na arte, na pintura, no teatro – afinal criar é dar luz e som à vida.

A criatividade é a força que renova a nossa liberdade, enriquece a democracia e fortalece a solidariedade.

 

E, é este o caminho que nos conduz ao quinto passo que se escreve com a palavra humanidade. Isso de sabermos que somos fazendo comunidade, mas ao fazermos comunidade estamos a dar o nosso contributo para sermos nós como parte integrante desse todo que é a humanidade, feita de diferenças de povos, de línguas, de identidades, mas, todos habitantes deste lugar único o planeta terra – o lugar que tempos que preservar e proteger. Fazer humanidade é dar um contributo local, para esse fazer combate global contra as alterações climáticas, pelas paz entre os povos.

Afinal, cada um de nós é único e, ao ser único é um «átomo« desse todo que se diz humanidade.

 

Estes foram os tópicos. Eles ali estiveram escutando e fazendo uma ou outra pergunta. Falei-lhes de Augusto  Cabrita e outros nomes barreirenses, até traulitei a «Canção do Mar» de Ferrer Trindade.

No final escutei os agradecimentos e, eles, devolveram o caderninho que esteve a circular para escreverem o que entendessem sobre o que retiravam desta conversa.

Prometido é devido, portanto aqui ficam as palavras escritas por estes jovens, sobre a cidade e a cidadania.

 

- Sem medo de ser livre

- Viver animado e feliz

-A vida é como um cubo mágico, demora mas resolves o enigma

- A vida é uma história que cada um conta

- Vive o hoje como se não houvesse amanhã

- Segue o teu caminho e sê feliz

- Só se vive uma vez, aproveita esse momento

- Aproveita cada dia ao máximo, nunca vais saber quando vais morrer.

- O tempo é relativo, quando nos apercebemos já é tarde.
- Vivi good

- A vida não é como um conto de fadas, ilude tanto, e no fim nada acontece.

- Só queria ser feliz

- Eu não gosto de ser aluno e também não gosto da escola

- A vida é como um jogo de escolhas, um passo em falso e acaba tudo

- Sê um com o outro

- A vida é como um dado, pode dar certo uma e outra vez, chega uma altura e acaba a tua vez.

-  Sê um, com a humanidade, porque sozinho não vais a lado nenhum.

 

Aqui fica o registo e o meu obrigado. As vossas palavras são importantes.

E, uma professora que foi assistir à aula, escreveu:

- A simplicidade está na liberdade, na humanidade. Obrigado pelo momento.

 

E, por fim, a motivadora destas conversas, que me desafiou para, neste século XXI, alguém que vem do século XX, falar com os jovens que já nasceram no século XXI, sobre cidade e cidadania. Registo e digo que foi giro.

Ela, também escreveu no caderninho e, portanto para fechar, aqui ficam as suas palavras;

“Igual a si mesmo, como sempre, o meu amigo Sousa Pereira aceitou o desafio de se deslocar à escola e falar de cidadania e multiculturalidade.

Obrigado Marafado!”

 

Até outra. Acho muito giro e interessante ter estas conversas com alunos, porque, nos dias de hoje, cada vez é mais importante motivar cada um de nós a ser cidadão de corpo inteiro e não se deixar sucumbir nas redes sociais e nas ilusões que iludem, porque, afinal, ser cidadão é ser cidade.

Obrigado.   

 

S.P.

Por favor, não deixem morrer o «Pestarola»!

 

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No âmbito do Encontro de Culturas Ribeirinhas, que decorreu no concelho da Moita, visitei o Estaleiro do Mestre Jaime, ali, em Sarilhos Pequenos.

A «Muleta» lá estava, e, pelos vistos continua a aguardar que se concretizem as necessárias vistorias. Um barco frondoso que, no dia que começar a navegar nas águas do Tejo, vai ser uma referência ao nível das embarcações tradicionais.

A «Muleta» para além de ser um ícone do brazão do concelho do Barreiro, é um barco ligado às memórias da comunidade piscatória, segundo dizem, oriunda do Algarve, que em tempos remotos veio viver para esta margem do Tejo e dedicava-se à pesca na barra do Tejo, sendo a «Muleta» o barco que era a marca identitária desta comunidade.

A construção da «Muleta» foi uma aventura e uma decisão de amor ao Barreiro e ás suas memórias. Um dia muitos vão sentir o prazer de navegar no Tejo e, até, atracar em Lisboa, porque, finalmente, isso é possível graças ao empenho e dedicação da comunidade náutica da Moita, da Marinha do Tejo e da Câmara Municipal da Moita.
A Câmara Municipal do Barreiro, entretanto já assinou o protocolo, sobre esta matéria com a APL.
E, pelo que tem sido dito, também está em fase de conclusão o acordo sobre o cais de acostagem da «Muleta», aqui no Barreiro, através do diálogo que tem sido mantido pelo actual executivo municipal com as entidades.

Mas, na verdade, o que motivou esta nota, foi ter reparado que no Estaleiro do Mestre Jaime, ali, está,o varino «Pestarola», abandonado, quase como que sobre ele tenha existido decisão de o condenar á morte. Tudo na vida tem um tempo. E tudo que nasce morre.
Mas, uma das grandes decisões politicas e culturais do Poder Local, nas zonas ribeirinhas do Tejo, é dar um contributo para valorizar as tradições e as embarcações tradicionais – o bote, o catraio, o varino. O Barreiro devia ter uma linha de pensamento direccionada para esta vertente, que, de facto, está patente na construção da «Muleta», mas devia estar também na recuperação do «Pestarola».

O orçamento não deve ser uma fortuna tão grande, certamente, são tostões, num orçamento de 55 milhões.

Nos tempos de hoje, que tanto se fala em ambiente e valores identitários, é triste ver o nosso «Pestarola» ali enterrado no cemitério.
Será que na Assembleia Municipal do Barreiro, não há força politica para exigir a recuperação do «Pestarola»?

Quando olhei o «Pestarola» naquele estado de abandono, que, certamente, agora, para ser recuperado será uma intervenção global, fiquei triste.

Viajei no Tejo no varino «Pestarola». Senti o prazer de escutar as ondas a bater no casco. Deliciei-me com as velas a a rasgar o vento. Senti o Barreiro e as memórias da sua comunidade piscatória.

Poderão dizer – nem sei – que o varino aquele estilo não era uma embarcação tradicional do Barreiro. Não sei. Mas sei, isso sei, que parta mim, e para algumas gerações e até mesmo para muitas crianças e jovens do fim do século XX e principio do século XXI, o «Pestarola», faz parte das vivências da comunidade barreirense e sua ligação ao rio Tejo.

Por favor, não deixem morrer o «Pestarola»!
O «Pestarola» já está inscrito nas memórias e na cultura ribeirinha do Barreiro.

S.P.

 

Uma conversa sobre «cidade» e cidadania» na Escola Padre Abilio Mendes «Isto é triste ninguém gosta do Barreiro»

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Hoje, pela manhã, estive na Escola Padre Abilio Mendes, do Agrupamento de Escolas Augusto Cabrita, a conversar com alunos do 7º e 8º anos, sobre o «Fazer Cidade» e «Fazer Cidadania».

Quando no começo da conversa perguntei aos alunos quem gostava do Barreiro, e, para ficar com uma ideia pedi que colocassem a mão no ar, para meu espanto, ergueram dois braços e outro, estava no ar, remexendo, naquele gesto de quem diz «assim,assim».

Quando no começo da conversa perguntei aos alunos quem gostava do Barreiro, e, para ficar com uma ideia pedi que colocassem a mão no ar, para meu espanto, ergueram dois braços e outro, estava no ar, remexendo, naquele gesto de quem diz «assim,assim».

Os restantes talvez na ordem dos 35 ou 36 alunos, claramente expressavam o ar de quem não gosta do Barreiro.
Disse-lhes que a primeira coisa que nos pode motivar a viver a nossa cidadania é gostarmos e conhecermos o local onde vivemos – a nossa casa, a nossa rua, a nossa escola, a nossa terra.
“Só gostamos ou amamos aquilo que conhecemos”, comentei.
Disse-lhes que uma das coisas melhores que o Barreiro tem são as pessoas, sairmos de casa e encontrarmos um amigo em cada esquina.
O Barreiro é uma terra feita de pessoas vindas de muitos lados, do Algarve, do Alentejo, do Minho, e, também de Angola, de Cabo Verde, da Guiné, do Brasil, da China, da Ucrânia.
Procurei despertar o gosto pelo Barreiro, convidei-os
a olhar a paisagem da Avenida da Praia.


Fui falando com eles e senti que despertava os olhares curiosos, em alguns rostos registei emoção nos seus olhares.
Entreguei, no começo da conversa, um cadernito, e pedi-lhes, para escreverem uma frase sobre este nosso encontro, a forma como, no dia-a-dia, sentem a vida, como sentem esta nossa conversa. Uma frase que lhes apeteça que exprime os seus sentimentos.
Nem todos escreveram, mas, alguns aceitaram responder ao desafio, aqui ficam alguns frases, escritas, hoje, numa escola do Barreiro, por jovens que no geral não gostam desta terra onde vivem.

Frases de alunos da Escola Padre Abilo Mendes
Barreiro – 24 de Outubro de 2019

«As pessoas criticam sem saber o que as outras pessoas pensam»

«Quer conhecer verdadeiramente uma pessoa? Repare como ela te trata quando não precisa mais de ti.»

«Tomem banho todos os dias. Porque estão a cheirar mal»

«Isto é triste ninguém gosta do Barreiro»

«Eu gosto de ver e desenhar animes. Também gosto de ler mangás»

«Bom professor. Estimo como trabalha»

«Sê quem és»

«Segue o teu sonho»

«Gosto da minha vida»

«Ninguém é feliz sem ter boas memórias»

«Eu adoro o Barreiro. Nós temos que ajudar o sitio onde vivemos. Uma delas é ser boa pessoa»

«Só queria ser feliz»

«Eu prefiro um amigo verdadeiro, como a minha familia, do que um amigo falso»

«Talento é uma coisa que não se ganha, sem todos os sentimentos»

«Gosto da minha condição de vida»

«Eu gosto de ser quem sou. Há pessoas que não gostam de mim, mas eu não ligo. Gosto da minha vida.»

«Vive a vida ao máximo aproveita cada momento como se fosse o último»

«Na minha vida eu tenho que aproveitar cada segundo, porque cada segundo pode ser diferente»

Foram estas as palavras que eles escreveram no caderninho que vou guardar, como recordação desta conversa, hoje, que se celebra o Dia Mundial da Igualdade. O Dia que foi fundada a ONU. O Dia da Revolução de Outubro, na Rússia. O dia que nasceu Ramalho Ortigão, o autor da obra «As Farpas».
Uma conversa sobre o contributo que cada um pode dar para fazer cidade. E, também, que fazer cidadania é viver cada um construindo os seus projectos de vida, pois, cada um ao ser cidadão, dá o seu contributo no fazer cidade. Vivemos partilhando. Vivemos respeitando as diferenças. É isto a democracia, que se faz com Liberdade.

No final, demos todos as mãos, alunos professores e eu próprio junto deles e demos um grito enorme, aquele que todos devemos dar ao acordar, como forma de abrir o coração à vida – BOM DIA!

No final, alguns daqueles jovens, rapazes e raparigas, passaram por mim e comentaram – Gostei de o ouvir, ou, foi muito bom, adorei, disse uma menina e deu-me um beijo.
Vou guardar este beijo e as vossa frases, Espero que tenha despertado o gosto pelo Barreiro e dar-vos força para estudar, porque é no saber que começa o fazer cidadania.

«Eu adoro o Barreiro. Nós temos que ajudar o sitio onde vivemos. Uma delas é ser boa pessoa», fica a mensagem, neste dia, que faz parte da história da humanidade, em busca de um mundo melhor.

S.P.

«Somos Cidadãos» ou “Somos Palhaços»!

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Fui ao Cinema no Forum Barreiro, ver o filme «Jocker». O mundo de hoje em tempo real. O mundo de todos os tempos em tempo real. Enquanto via o «Jocker» pensava como vivemos entre duas opções ou «Somos Palhaços» ou «Somos Cidadãos». Quando somos palhaços disponibilizamos o nosso tempo para prestar serviços a outros, e, um dia, qualquer dia, por qualquer acaso, lá ficamos no desemprego. Somos despedidos. Somos colocados numa prateleira. Se não cumprirmos, deixamos de receber as contrapartidas. É vida. Lá vem a depressão. A neurose. Uns superam. Outros não aguentam.

Ali, naquele filme está, também, a realidade do Estado, que deixa de prestar serviços à comunidade, devido a cortes orçamentais. Os cidadãos são números. Os números é que contam. As pessoas são também contabilizadas em despesa. Nunca têm valor quando são receita. Os números. O orçamento. A desumanização. A degradação.

Ali, podemos, igualmente, ver o uso que a comunicação social faz da vida de cada um, o que conta são as audiências. Os jogos. A força da imagem no mundo de hoje é tenebrosa. Ilude. Os filmes dentro do filme da vida. O imaginário e o real. As ilusões. As visões.

Ali, podemos, objectivamente, observar as manifestações que arrastam multidões, por causas geradas, nesses movimentos que produzem opinião induzida. Umas vezes por um mundo melhor. Outras apenas pela cultura dominante. Somos levados. Um mundo cada vez mais de causas. O ambiente. O dinheiro. As armas. A droga. O sexo. Manipulação. Racismo. Xenofobia.

Ali, afinal, vemos como um palhaço de hoje, ou um palhaço de ontem, pode ser herói, aqui e agora, e, depois, o canalha de amanhã. E vice versa. Tudo é transitório quando se vive apenas para atingir objectivos – a casa com vista para um qualquer rio, o carro que proporciona a comodidade das distâncias. O importante é sobreviver por objectivos. Um mundo neurótico. Frustrações. Provar o que se é, e o que se não é. Ironia. O jocker está adormecido dentro daquilo que não somos.

Um filme que é uma imagem viva, imponente, que nos conduz ao mundo suburbano, que nos faz navegar pelas margens da cidadania, que nos transporta por dentro da mais violenta agressividade, apenas porque sim, agredir, faz parte do estar, do domínio do outro(a).
Uma viagem por dentro dos conflitos sociais, que nos leva a sentir náusea pelo comportamento dos novos ricos, que se acham senhores da cidade.
Ali vemos a cidade marginal, a violência contra a mulher, o cosmopolitismo que desumaniza. Terra sem rostos. O grito que se escuta nas ruas é, tristemente, expresso na imagem deslumbrante que nasce naquele movimento da história, onde, afinal - «Somos Palhaços!»

Um filme onde tudo conta, para dar a dimensão deste mundo neurótico e disfuncional.
Um filme onde a mensagem é feita luz. Escuridão. Penumbra. Cor. Musicalidade. Som. Riso. Solidão.
A guerra pela sobrevivência. Uma violência que existe, mas que ignoramos. O quotidiano.

Um filme que dá uma imagem perturbadora da força da solidão, da luta psicológica, dos passos que se inscrevem silenciosamente da psicose à neurose.
O drama de cada ser humano. O drama que cada ser humano pode travar consigo mesmo, quando sente que está só, desenraizado, e a sua vivência quotidiana atinge os limites do silêncio. A falta de amor. O vazio.

Tudo isto podemos desbravar, pensar, sentir, nas imagens e na narrativa do filme «Jocker».
É um filme soberbo na musicalidade, nos efeitos, na fotografia, na interpretação. Faz pensar, e tudo o que faz pensar, faz sentir.
Um filme que nos toca e obriga a pensar o que é fazer cidade, o que é fazer cidadania.

Este filme é, sem dúvida, uma viagem por dentro dos tempos de hoje, e dos tempos de sempre, porque, afinal, o mundo não é diferente. A angústia que se regista no confronto entre cada «eu» e cada «nós». Conflitos.
Ao longo da vida as estórias e histórias repetem-se. Mudam cenários. Mudam actores. Mudam os meios de comunicação. Mudam os textos e os contextos.
Mas, na história de cada um individualmente, que faz parte da história da humanidade, há sempre uma verdade que permanece, aquela dita por Ortega y Gasset – o homem é ele e as circunstâncias.

O filme «Jocker» é essa lição que demonstra como a realidade de cada um e todas as vivências, são fruto dos acasos, das circunstâncias, das necessidades, forja-se nas realidades epocais – no espaço e no tempo. Somos comunidade. Somos eu, na comunidade.
Essa é a lição que existe, real, naquele filme e na história que todos vivemos.
A história do tempo, esse que vivemos, hoje, esta actualidade, que, com os nossos actos e palavras contribuímos para fazer e mudar. Participando.

Toda a história é real, quer essa onde nós somos os protagonistas, quer a história que podemos inventar colocando outros como protagonistas.
Toda a história começa na nossa cabeça. Haverá um dia que havemos de recordar. Sentir a felicidade ou a tristeza. Valeu a pena ou vivemos um tempo perdido. Fica a interrogação.

É um pouco isso, no fim, todos queremos ser heróis. Todos queremos ser construtores da história. Todos temos o nosso «jocker». Um «jocker» que pode ser neurótico, esquizofrénico, criativo, vitima do tempo, impotente perante todas as adversidades, ou ser um jocker sonhador. Lutar. Há vida para além da violência, que marca todos os tempos. A história demonstra-o.
Somos quando tomamos a decisão de ajudar a fazer a história da cidade. Fazendo história que se inscreve e não história que se esquece. Volátil.
É isso, cada um escolhe a sua opção: «Somos Cidadãos» ou “Somos Palhaços»!

A nossa história na comunidade, é a história que fazemos. Há a história que outros fazem. Há história daqueles que vão ao nosso lado. Até, os mortos fazem história ao nosso lado, por dentro da memória.
Tudo é o tempo. Tudo é a circunstância. Tudo é essa temporalidade. É isso que somos – uns optam por construir, outros por desconstruir.

O filme «Jocker» pode ser um bom tema de reflexão para aqueles que vivem dramas existenciais, que colocam a violência fisica ou verbal, como modo de fazer cidade.

Até amanhã, divirtam-se!

António Sousa Pereira

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