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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

Uma forma de amar o Barreiro.

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Os dias passam a correr, o tempo foge entre os dedos e, mesmo fazendo agenda de trabalhos, há sempre coisas que ficam para trás, por muita vontade que se coloque em realizar o programado. Os acontecimentos sucedem-se. As dinâmicas sociais não dão espaço e obrigam a refazer planos.

O Barreiro é uma cidade que pulsa vida. Nas escolas, nas associações, na vida autárquica, nas empresas. Uma cidade com vida e dinâmica. Para dar resposta, em termos de informação, antes de mais, seria necessário criar as condições e isso, de facto, só é possível com recursos.

 

Ocorreu-me isto ao pensamento, quando, hoje, ao fim da tarde, visitei no Hospital do Barreiro o meu amigo Cabóz Gonçalves. Ele, sempre com o seu espirito hedonista, comentava coisas do passado.

Recordava aqueles anos 70, quando lançou um projecto de informação ao nível local, o jornal «Proposta», na mesma altura, que eu já estava a avançar com outro projecto «O Jornal Daterra».

Recordava esses dias. E referia que o seu projecto era inovador e criativo. Confirmo. Era, sem dúvida, um projecto jornalístico marcado de modernidade, com uma linha gráfica de grande qualidade e futurista. Recordo que, anos mais tarde, nasceu um jornal diário «Ponto», cujas características gráficas bebiam no estilo de paginação do «Proposta».

O jornal «Proposta» editou um único número. Enquanto «O jornal Daterra» ainda manteve a sua actividade durante cerca de uma década.

 

«O jornal Daterra» não tinha uma linha gráfica forte, inseria-se na tradição da época, própria dos jornais feitos em linotipe e impressos em tipografia.

«O Jornal Daterra» fazia um produto jornalístico com alguma intensidade, procurava ligar-se de forma activa às vivências locais e sempre viveu e sobreviveu pelos seus próprios meios e recursos.

Hoje, à distância, recordo a forma intensa como vivia a sua produção, primeiro semanal, depois quinzenário e por fim passou a mensal.

O Cabóz Gonçalves, comentou que «O jornal Daterra» se manteve porque encontrou apoios ao nível partidário. Sorri. E disse-lhe. “Estás enganado”.

Recordei-lhe que, foi uma luta muito dura manter o jornal e dar-lhe continuidade. Recordei-lhe que, por vezes, cheguei, eu próprio, a ir para a rua, vender jornais, ali junto à estátua de Alfredo da Silva, e, com a verba realizada – “juntava dinheiro para ir pagar à tipografia”.

 

Fazer um jornal é fácil. Manter vivo um jornal, isso, sim, é difícil, muito difícil. Normalmente todos solicitam a colaboração da imprensa regional, consideram útil e necessário o seu trabalho, mas, depois, quando se trata de criar condições, através de apoios publicitários, aí, como se diz – “a porca torce o rabo”.

O jornal «Proposta» não teve continuidade, porque faltaram esses apoios. E, quanto ao dito «O jornal Daterra» ele manteve-se por paixão, por muito sacrifício e amor ao jornalismo.

Nunca teve qualquer tipo de apoios especiais. Foi bom, afinal, que o Cabóz  Gonçalves fizesse aquele comentário, ficou esclarecido sobre um «mito urbano». E, neste ano que são assinalados 40 anos da fundação de «O jornal Daterra», esse meu primeiro projecto de jornalismo no concelho do Barreiro, ao recordar estes factos, senti, os dias de muito trabalho, de muitos sonhos, de muita dedicação. Mesmo, que, ao meio da tarde, me encostasse num sofá para dormitar.

 

O jornalismo local está no meu sangue, é uma paixão imensa, ideias não faltam, projectos e sonhos.

O que falta, sim, o que falta é como se costuma dizer – “aquilo com que compra os melões”. Não para enriquecer. Ninguém enriquece com o jornalismo local.

Mas, se existisse capital seria possível criar uma equipa de trabalho, desenvolver dinâmicas.

Uma cidade como o Barreiro sofreu sempre, ao longo de décadas, pela sua proximidade com a capital, a influência da grande imprensa de Lisboa.

As empresas locais dão com mais facilidade um contributo para um qualquer jornal de Lisboa, que faça um suplemento dedicado ao Barreiro, que disponibilizarem apoio à imprensa local.

 

Quando cheguei a casa, contei à minha Lurdes aquilo que Cabóz Gonçalves disse, ela sorriu e fez um ar de espanto. Porque, ela, mais que ninguém sabe os sonhos e as lutas.

Mantive sempre o jornal, mesmo quando fui para a fábrica, como operário, na Quimigal, mantive vivo o sonho do jornal. Uma luta. Uma paixão.

Bom, mas tudo isto veio a propósito de uma conversa ao fim da tarde, com o meu amigo Cabóz Gonçalves, que, na sua luta, dos dias de hoje, não deixa de manter uma enorme vontade de conversar, recordar acontecimentos e expressar as suas opiniões.

 

Dizia ele – “Gosto de ti porque sempre fostes contra a corrente e eu gosto de pessoas que são contra a corrente”.

E, aqui, quero dizer-te que sempre gostei de ti, mesmo quando discordo de ti, mesmo quando achava que estavas a exagerar, mesmo quando me irritava com as tuas palavras corrosivas e irónicas.

Sempre te conheci, assim irreverente, a falar alto, enchendo o espaço, de presença e voz, com todas as letras, a dizer o que pensas, muitas vezes ignorando o que antes pensavas, sobre máfias e outras coisas. Eras tu – um homem livre.

Um destes dias escreveste um artigo, comentaste, onde eu era referenciado. Ainda não o li.

 

Olhava para ti, ao fim da tarde, neste Maio, após Abril, esse Abril que sempre tiveste no teu coração, lutando e acreditando. E, ali, pensava por dentro dos nervos, nas memórias que se cruzavam em muitos acontecimentos que partilhámos. A vida.

Aqui, ao fim da noite, escrevo e uma lágrima espreita, sentindo que, afinal, vivemos, sonhamos, lutamos e de certeza, o que fica de nós…é aquilo que inscrevemos nos dias vividos.

 

Recordo aquela tua grande paixão do Mercado no Barreiro Velho –Mercado Marquês Pombal -  à qual dei todo o meu apoio, e, talvez, amanhã, esse teu projecto e sonho venha a ser uma realidade. Nunca se sabe. Era giro, pá!

Um projecto que tu dizias,” era uma forma de amar o Barreiro”.

A tua vida foi, afinal, isso, uma forma de amar o Barreiro. E espero, que saltes daí, dessa cama, onde continuas a sorrir e a falar, a falar intensamente, para dares ao Barreiro os teus sonhos.

Um abraço.

 

António Sousa Pereira   

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