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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

FAZER BARREIRO.

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Hoje, pela manhã, fui dar um passeio pelas ruas do Lavradio Velho. Enquanto percorria aquelas ruas, viajava pelo tempo, por dentro das memórias.

Não nasci no Lavradio. Nasci em Vila Real de Santo António, a minha terra natal, terra do meu coração. Eu, como muitos por esse país fora, vindos de muitos lados, um dia encontramos, aqui, a nossa segunda terra, esta que costumo dizer - “não é a minha terra, é a terra dos meus filhos”.

Conheci o Barreiro no ano de 1967, quando vim visitar ao Bairro das Palmeiras, o Barbeiro do Bairro – o Becinho, meu conterrâneo.

Depois, em 1971, comecei a rumar ao Lavradio, onde acabei por me fixar a partir de 1972. Esta passou, pouco a pouco, a ser a minha segunda terra. Fui conhecendo pessoas. Fui criando amigos. Integrei-me na vida da terra. Sim, também tenho inimigos, um homem nunca será um homem verdadeiramente livre se não tiver uns inimigos de estimação.

 

A primeira e grande descoberta que fiz aqui, nas minhas vivências diárias, foi o meu encontro com a importância da Liberdade enquanto valor de construção de um sentido para a vida.

Vivi de forma intensa os Jogos Juvenis do Barreiro, integrando as Comissões Organizadoras. Fiz-me sócio do Cine Clube do Barreiro e do Luso Futebol Clube. Na SFAL encontrei a porta que me integrou na vida da comunidade. Descobri antes do 25 de Abril, valores que se inscreveram na minha forma de pensar e sentir a vida. Encontrei o outro lado de um mundo, diferente, muito diferente daquele que todos os dias era propagado.

 

Enfim, hoje, cá estou, a caminhar para os 50 anos de «cidadão Lavradiense», porque, na verdade, posso afirmar-me como tal, sim AFIRMAR, com plena consciência, porque ao longo das minhas vivências sempre afirmei Lavradio, como afirmei Barreiro, porque, afinal, só é possível afirmar uma coisa que existe, que tem vida, que tem história, que tem realidade, que tem pessoas. Não se afirma nada que seja um vazio. Para que se afirme tem que existir. Eu afirmo, como dizia o outro – afirmo Pereira!  

Fiz da minha vida e faço-a com uma permanente vontade de afirmação cívica, com opinião, sempre com opinião. 

Eram estes pensamentos que me ocorriam, hoje, pela manhã, ao percorrer as ruas do Lavradio Velho.

 

Olhava à minha volta. Recordava pessoas. Sentia no pensamento as mudanças e as transformações. Recordava aquelas ruas cheias de gente rumo ao mercado ( que funcionava onde hoje está instalada a União de Freguesias) e os Mercados de Levante, aos sábados.

Recordava as filas matinais de pessoas, uns a pé, outros de bicicleta ou motorizada rumo às fábricas, por aquela entrada, perto da Praceta dos Lusíadas.

 

A vida transformou tanta coisa. O mundo mudou. E, hoje, como há muitos anos atrás, há décadas, continuo a afirmar que – o Barreiro não é um dormitório, apesar de muitos teimarem em dar-lhe esse rótulo. Continuou a afirmar que o Barreiro tem vida própria e que, por aqui, há muita criatividade.

Continuo a AFIRMAR porque sei que o Barreiro é uma terra que sempre se afirmou, na sua diferença – de ligação norte-sul, com a instalação da ferrovia, graças a Miguel Pais ( podia ter Aldegalega), de empório industrial, graças a Alfredo da Silva (podia ter sido Casa Branca), de centro urbano fruto das explosões demográficas dos anos 70.

 

Um percurso até ao que é hoje, uma cidade aberta ao futuro, que se procura a si mesma, que carece de emprego como pão para a boca, não para se afirmar, porque, ela, já se afirmou ao longo de séculos, como uma cidade com história, com memórias, com personalidades, com estórias, com rostos, muitos rostos.

Uma terra é como cada um de nós, cresce, transforma-se, envelhece e renova-se.

 

Tenho, nos últimos tempos, escutado coisas sobre o Lavradio que fico pasmado. Estereótipos. Ideias de artilharia, que só servem para disparar. Coisas bolorentas.

Mais que o buraco na rua, o lixo do contentor, a árvore que secou, a escola velha abandonada, gostava de assistir a uma discussão séria e aberta sobre o futuro deste território – o Lavrado histórico (o velhote, o velho, o que está a envelhecer, assim como os efeitos que tudo isso pode produzir sobre o dito novo).

E, sobre isso os autos, dizem nada…não basta estar de acordo com a «vox populi» é preciso dizer o que se faria diferente.

 

Há mais de uma década que venho a exigir que se desenvolva, com seriedade um estudo de reconversão urbana do território do Lavradio histórico, criando espaços de vivência social, fechando ruas ao trânsito de forma a criar uma área comercial de referência comunitária e que, até, possa atrair pessoas de outras zonas. É complicado, sei, mas é preciso dar alguns passos.

O concelho do Barreiro tem que ser pensado como «concelho-cidade», na sua diversidade polinuclear, com uma diversidade de zonas - estilo «centros comerciais a céu aberto - com dinâmicas e vidas próprias.

 

Discutir e projectar futuro, isso, sim, eu gostava de ouvir e ler. Mas, conceptualizar exige trabalho. Exige projecto. Exige cidadania activa.  

É mais fácil criticar. Mas, isto, afinal, não é mais que cultivar a banalização da critica. É o populismo afirmado em todas as suas potencialidades.

 

Eu gostava que se discutisse estratégia, visão de futuro, de tal forma que se evitasse, ver o Lavradio transformado num gueto do concelho...isso sim preocupa-me. Interrogo-me. O resto é treta.

Afinal, os buracos na rua, o lixo nos contentores, as árvores secas, irão sempre existir, e, de certeza, que não haverá nenhum messias que faça milagres…

Mas eu, como estou velho, e sou um velho de cabelos brancos que já viveu tantos filmes, cá estarei, para ver e continuar a ter opinião.

Um homem é ele e as circunstancias, como dizia, o filósofo…mas o homem também ajuda a fazer as circunstancias!

Não nasci cá, sou de VILA REAL DE SANTO ANTÓNIO, mas sendo esta a terra dos meus filhos e a terra onde vivo há quase meio século, aqui, quero continuar a viver e sonhar. Se me permitirem, claro!  

Sim e sonhar, transportando comigo aquela lição que foi a primeira que aprendi, essa sim, hoje e sempre, AFIRMAR LIBERDADE!

 

Por isso, só por tido isso, mais que afirmar o Barreiro, que já existe afirmado há séculos e, nos dias de hoje, atravessa um tempo difícil, eu opto, todos os dias, por ajudar a FAZER BARREIRO.   

 

António Sousa Pereira

 

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