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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

Uma página em branco

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A vida é uma página em branco, onde escrevemos, colorimos, apagamos, voltamos a escrever, acrescentamos novas cores, sorrindo, sempre sorrindo.   

É pelo sorriso que vamos. É pelo sorriso que somos.

É pelo sorriso que superamos, aqueles momentos, onde – o sol deixa de brilhar ou a chuva torrencial desce nos olhos, e, então, só então, sabemos que a vida é um constante renascer.

Guardamos a ternura. Abraçamos a vida. Colhemos a esperança. Sorrimos. Só quando aprendemos a viver com um sorriso a rasgar os nervos, descobrimos que a vida é tudo aquilo que construímos e transportamos no sangue, a correr nas veias, a sulcar em palavras a consciência, vivendo em paixão por tudo o que fomos e somos.

Afinal, nós somos, sempre, com tudo o que fomos.

 

A vida é uma página em branco, que, afinal, começa no branco do branco, esse, que se inscreve na memória – um sorriso. O teu sorriso!

A vida é uma página em branco a nossa responsabilidade é, nela, inscrevermos todas as palavras que nascem nas vivências que enchem o tempo, todo o tempo do qual é feito o nosso coração.

A nossa responsabilidade é colorir todos os recantos, de todos os dias, de todo o tempo que somos, assim, com todas as cores, essas, que fazem brilhar os nervos, e, sobriamente, suavemente, ternamente, fazem a memória saltar por dentro de ondas do mar, viajar por serras verdejantes, beijar as margens de um rio, voar num poema feito de vida e amor.

 

A vida é uma página em branco, onde, a cada momento, colorimos, escrevemos, sonhamos, cantamos, rimos, pensamos e amamos.

A beleza da vida reside, sim, nesse sentimento que nasce em cada dia quando, ao acordar, sentimos que cada dia é, ele mesmo, uma página em branco, onde a vida recomeça – sorrindo, sempre sorrindo!

Um beijo!

 

António Sousa Pereira

 

Mais uma página na história, mais um passo pela qualidade de vida . Um concelho que valoriza seu rio

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A semana que findou assinalou mais um passo de grande importância para o desenvolvimento da qualidade de vida do concelho do Barreiro e de ligação da cidade ao Rio Tejo.

 

O Secretário de Estado do Ambiente, Carlos Martins, aqui, anunciou que vai arrancar, em Fevereiro, a obra de ligação da rede de saneamento do Parque Empresarial do Barreiro à ETAR da Simarsul.

 

Em Maio de 2016, foi assinado o protocolo entre o Municipio com a Baía do Tejo e Águas de Lisboa e Vale do Tejo, com o objetivo de consolidar a calendarização das ações necessárias à ligação das infraestruturas de drenagem de águas residuais domésticas e industriais da Baía Tejo à rede em alta da Águas de Lisboa e Vale do Tejo, numa cerimónia, igualmente, presidida Por Carlos Martins, Secretário de Estado do Ambiente.

 

Esta semana, o fruto desse protocolo, do trabalho realizado em gabinetes e estudos, foi anunciado que vai tornar-se realidade com o arranque anunciado da obra no terreno, já em Fevereiro.

Em 2016, Carlos Humberto, presidente da Câmara Municipal do Barreiro, no decorrer da cerimónia de assinatura do protocolo referia que 98% da rede de saneamento básico do concelho do Barreiro já estava ligada à ETAR.

Recordou que cerca de 1% da rede não estava sendo tratada, referindo à zona das AUGI’S – Áreas Urbanas de Génese Ilegal.

Sublinhe-se que, entretanto, já está em marcha e aprovada uma candidatura que vai solucionar o tratamento da rede de saneamento na zona das AUGI’s.

 

Por outro lado, Carlos Humberto, na altura, referia que a assinatura do Protocolo que preconizava a ligação da rede do Parque Empresarial da Baía do Tejo à ETAR  era “um passo gigante” para atingir os 99,9% da rede de saneamento do concelho do Barreiro devidamente tratada, abrindo o caminho para, disse, “atingirmos o zero por cento no tratamento de águas residuais”.

 

O arranque das obras de ligação da rede de saneamento da área industrial, anunciado na semana que findou, é, pois, sem dúvida, um tempo histórico de um longo percurso, de anos de estudo, de investimentos de milhões de contos/ euros que contribuíram para melhorar a qualidade de vida e permitir a ligação e a fruição do Rio Tejo.

 

A visita do Secretário de Estado do Ambiente, Carlos Martins, dois anos depois da assinatura do protocolo, merece uma referência especial, por dar cumprimento ao acordado e, ser, sem dúvida, um passo significativo e histórico de valorização da qualidade ambiental do concelho e da região.

 

Um trabalho que envolveu muitos técnicos  da Câmara Municipal do Barreiro, da Baía do Tejo, das Águas de Portugal/Simarsul, e, naturalmente de decisões estratégicas assumidas, localmente, por autarcas  - Carlos Humberto e Sofia Martins – Administradores da Baía do Tejo  - Jacinto Guilherme Pereira e Sérgio Saraiva. 

 

Hoje, reconhecemos cada vez mais, a importância do saneamento básico no contributo para a qualidade da saúde pública e para a estratégia económica de uma cidade.

Foram muitos anos de trabalho, muitos esforços desenvolvidos na resolução dos problemas de saneamento básico.

 

Por exemplo, os estudos de ligação da zona industrial à ETAR foram realizados ao longo de mais de uma década, com um trabalho constante e sistemático, de colaboração da autarquia com a Quimiparque/ Baía do Tejo, ou com a FISIPE, cujos efluentes também serão em breve ligados à ETAR.

O envolvimento dos técnicos da Câmara Municipal do Barreiro foi essencial e, nos últimos anos, sem dúvida, Sofia Martins, vereadora responsável por esta área na autarquia, desenvolveu um trabalho permanente de articulação entre opções políticas e conhecimentos técnicos e científicos. Ignorar isto é querer negar a história de uma comunidade.

  
O envolvimento da Baía do Tejo e do governo, com a dedicação do Secretário de Estado do Ambiente, Carlos Martins, nestes últimos dois anos, para resolver esta «ponta final» foi muito importante para se concretizar a fusão dos sistemas de saneamento urbano e industrial, ligando tudo à ETAR.

 

Por essa razão, escrevo esta nota, para reconhecer que a acção do governo, a cooperação estratégica entre o governo e a autarquia, a cooperação estratégica entre a autarquia, governo e Baía do Tejo, são essenciais para fazer futuro.

O Secretário de Estado do Ambiente, Carlos Martins, merece um OBRIGADO dos barreirenses.

 

E escrevo esta nota, com esta consciência plena, tal como esta situação do saneamento básico, só foi resolvida com base numa estreita cooperação e diálogo entre a autarquia, Baía do Tejo e do Governo, o concelho do Barreiro, em muita coisa que é, hoje como ontem, referenciado como espaços com potencialidades só encontrará soluções se existir um permanente diálogo e constante reivindicação. Foi esse o caminho que conduziu a estarmos, hoje, sem dúvida, a um passinho de atingirmos 99,9% da ligação da rede de saneamento à ETAR e abrir o Tejo à cidade.

 

É por tudo, isto, que, hoje e aqui, quero expressar um público agradecimento a todos que fizeram este caminho e ao Secretário de Estado do Ambiente, Carlos Martins.

Acredito que deve ter sentido uma felicidade interior, para si, ver que está a caminhar para o terreno um processo que, com a sua presença, abriu em 2016.

Acredito que deve ter sentido uma felicidade interior de voltar, agora ao Barreiro, em 2018, para poder dizer – palavra dada é palava honrada.

Acredito que Carlos Humberto e Sofia Martins reconhecem.

Eu, que, por aqui acompanhei o processo no âmbito jornalístico, quero dizer-lhe, como cidadão barreirense : Obrigado pelo seu contributo para ajudar a melhorar a qualidade de vida e a permitir que o Tejo seja cada vez mais nosso.

 

Sem dúvida, foi um dia histórico que vivemos esta semana no concelho do Barreiro ao nível das politicas do ambiente.

 

António Sousa Pereira

«Se a SFAL precisar eu ajudo»

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Um dia, no começo dos anos 70, a minha vida tomou o rumo de Lisboa para o Barreiro. Aqui, afinal, construi grande parte, mesmo a maior parte, de todo o tempo que faz este tempo que é a minha existência.

Quando por aqui cheguei esta era para mim uma terra desconhecida. Foi através das portas do associativismo que me integrei nesta comunidade.

Talvez por essa razão, uma porta aberta ao novo tempo, e, também, por trazer comigo as vivências do escutismo, a vida associativa não me era alheia, antes pelo contrário, já fazia parte da minha forma de sentir, pensar e viver o mundo.

 

A SFAL foi a colectividade que abriu as portas para me receber e por ali, pouco a pouco, integrei-me na vida local. Criei amigos. Partilhei vontades. E descobri o amor, aquele que nasce por dentro dos nervos, forja-se nos dias, ergue-se de tal forma nas raízes do coração que acaba por ser a força central de todo o tempo que vivemos. Um nós que é feito de um eu e um tu, esse sentimento onde somos, tanto, ou tanto mais, quanto vamos sendo.   

A SFAL é, por essa razão, uma associação que tem um simbolismo muito especial em tudo o que sou e fiz, ali, descobri de tudo, mesmo tudo, do amor ao ódio, da ternura à vaidade, das carícias aos beliscões, da gratidão à ingratidão, do dar, do receber, das emoções alegres e tristes. Da entrega até ao limites, do sentir as dificuldades e lutar para superar, numa entrega que só sente quem vive o associativismo como um espaço de construção de amizade, fraternidade, solidariedade. Tudo o resto é cansaço, porque, como um dia, parafraseando o poeta escrevi – ser associativista todos os dias também cansa.

 

Uma escola de vida, de aprendizagens, onde tudo o que é humano emerge, para o bem e para o mal, mas, que, numa avaliação global, no tempo vivido, o que fica e o que vale recordar e guardar é tudo o que de belo, aqueles instantes que vivemos com as lágrimas feitas de emoções a florir. Sorrisos de crianças. Abraços.

Aqueles dias que olhamos e vimos o futuro a erguer-se em paredes, lentamente, dolorosamente, essas que ficam reais, obra que se inscreve no futuro. Valeu a pena. Isso é que conta. Porque afinal o associativismo é fazer. Sonhar, lutar e fazer. Construir solidariedade e fazer comunidade.

 

Escrevo tudo isto, hoje e aqui, porque durante alguns anos eu dizia, para mim mesmo, gostava de viver para festejar os 150 anos da SFAL – a Colectividade que faz parte da minha vida.

Tive esse prazer de durante o ano 2017recordar, evocar e festejar essa efeméride.

 

E, para encerrar os eventos e iniciativas vivi dois momentos lindos que não vou esquecer. A peça de teatro - «Memórias da minha velhinha», levada a cena pelo TISFAL, com encenação da Lurdes, um momento que tocou os meus neurónios, emocionou-me, de tal forma que senti os meus olhos tocados, brilhantes e a florir com os nervos do Tejo. Foi lindo. Obrigado TISFAL!

 

Depois a sessão solene evocativa da efeméride. Sim, sei, há os discursos que marcam estas circunstâncias sociais. Os aplausos. As evocações. Tudo aquilo que, afinal, é normal.

Mas nesta sessão, mais uma vez emocionei-me quando aquela criança, salvo erro com 9 anos - Beatriz Silva -  quando o Presidente da Mesa da Assembleia Geral perguntou se algum sócio pretendia usar da palavra, ela, de forma natural disse : “Eu quero falar”.

Levanta-se, sorrindo, senhora de si, pega no microfone e afirma: “Eu gosto muito da SFAL. Se a SFAL precisar eu ajudo”.

Aplaudi. Sorri. E pensei, só por este momento, inesquecível, valeu tudo o que vivi, tudo o que deixei de viver, tudo o que fiz para sentir, amar, ver crescer a SFAL, até, hoje e aqui, ao festejar os seus 150 anos de história.

 

Foi isso Beatriz que me fez pensar, sonhar, agir e fazer associativismo: “Eu gosto muito da SFAL”

Obrigado Beatriz, porque, naquele instante, fizeste todo o tempo de associativismo pulsar nos meus olhos.

 

António Sousa Pereira

 

Nota - Como disse, na sessão dos 150 anos, a próxima meta que quero viver será as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril.

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Sozinhos somos apenas uma ausência de comunidade.

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Todas as pessoas que se cruzam nas nossas vidas, inscrevem memórias no tempo que vivemos. É por isso, apenas por isso, que nós somos sempre, nós e os outros, nesse percurso temporal, feito de raízes, sementes, flores e frutos.

 

Os dias, todos os dias, são páginas brancas, onde, pintamos a vida, com as cores que escolhemos –pode ser carvão, óleo ou aguarelas – cores que emergem sempre da tonalidade das palavras, essas que são o espelho dos sentimentos. A vida.

Nunca sabemos o que será o dia de amanhã. Imaginamos, mas a imaginação tem limites desconhecidos. A ignorância do futuro é, afinal, aquilo que faz que lutemos no presente, aqui e agora, o lugar onde construímos as certezas que somos. Conhecemos o dia de hoje, na medida em que ele vai-se desocultando em gestos, desejos, vontades – silêncios e cores.

 

Por vezes, um dia que nasce com o sol a brilhar como ouro no azul – lindo – de repente transforma-se, por um acaso, um simples acaso. Um telefonema. Uma troca de olhares marcados pela indiferença. Uma notícia que faz mergulhar no tempo.

E por dentro dos neurónios, percorremos como quem viaja no espaço, de ponto em ponto, recordações, pode ser aquela noite de inauguração da primeira discoteca que existiu no Barreiro, ali na cave da SDUB «Os Franceses» - numa noite feita de gargalhadas perdidas por dentro de garrafas, ou aquela inauguração soberba da Urbanização da Habisocial, com Secretário de Estado – marisco a saltar nas mesas coloridas de um ambiente cosmopolita, no centro da aldeia-cidade, ali, vendo aquele boi a rodopiar, em glória de assado único, em plena Quinta dos Loios, anunciando o futuro, que teimava em nascer.

Ou naquelas tardes, nas bancadas do Estádio D. Manuel de Melo, em que vibravas, intensamente, pelas cores alvi rubras.     

Enfim, a vida inscreve o tempo no tempo que somos, sempre com os outros. Sozinhos somos apenas uma ausência de comunidade.

Estou a escrever e um sorriso toca meus lábios, quando recordo aquela história, que te deliciavas a contar, como exemplo de uma experiência de vida, porque a vida é sempre o grande mestre. Uma história feita de palavras repetidas : “É mentira, é mentira, é mentira! E mesmo que digam que é verdade, voltarei sempre a dizer: É mentira, é mentira, é mentira!”.

Porque, de facto, há verdades que só cada um, dentro de si, lá no fundo das experiências únicas vividas, sabe o lugar que merecem ocupar no centro das suas vidas. E, essas ficam, ternas e lindas a florir em poemas.

Assim como há pessoas que ocupam um lugar nas nossas vidas, há outras que são apenas uma miragem de um tempo que ignoramos, um tempo que existe, mas ignoramos, porque são a ausência do tempo que fomos não sendo. Ponto final.  

 

Hoje, é domingo, este dia sempre marcado por uma cadência especial, assim como quem marca o começo e o recomeço. Os domingos, por vezes, parecem um intervalo, entre o passado e o futuro –a semana que foi, a semana que vem – uma paragem para recuperar as forças que fazem emergir futuro.

 

Sorriam sempre!

 

António Sousa Pereira

 

Memória

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Há lágrimas de fogo,

na tristeza do tempo,

nesse instante, único,

onde o cérebro mirra,

por falta de memória.

 

Nada podemos fazer,

talvez, senão aceitar,

o que não está, ali,

e, ficarmos, apenas,

criando a história.

 

Assim , viver e falar,

por dentro da poesia,

o lugar sem «likes»,

sem fantasias, onde,

a memória é história.

 

Aí, tudo o que não fomos

será sempre irrecuperável!

 

S.P.

Em ti

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Nós, todos nós, sentimos os sentimentos,

dentro das palavras calcinadas, cristais

de tempo feito, porque, só o tempo faz

sentir a distância que se inscreve, entre

o que fomos, o que somos, donde viemos,

onde chegámos, donde partimos – sentir!

 

Sim, sentir, nessa profundidade intemporal,

os vincos que fazem emergir um sorriso,

uma memória, as texturas das palavras, sons,

ou, os tons brilhantes de luz e cor, em telas,

aguarelas, carvão, lápis –um rosto no tempo!

 

Fecho os olhos. Mergulho nesse infinito, tempo,

voando, como quem viaja rumo à eternidade,

e, lá longe, na palavra saudade, encontro teu olhar,

um sorriso feito miragem, ou luar, ou fé, tu, onde,

afinal, está a raiz do meu primeiro grito, meu choro,

a vida, em ti, principio e fim do tempo que sou!

 

António Sousa Pereira

6 de Janeiro de 2018

( Dia do teu aniversário)

Uma Rede social pode ser um instrumento de relação humana positiva

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Ao longo da minha vida, por três vezes, estive alguns dias hospitalizado. Esses dias ficaram sempre como uma marca e referência na forma de olhar e sentir os dias.

 

A primeira vez, devia ter os meus dez ou onze anos, na minha terra natal, estive cerca de 10 dias internado no Hospital Marquês de Pombal, era uma sala com cerca de uns quinze doentes, de diversas idades e eu, naqueles dias fui o mascote. É verdade, como fui lá parar.

Quando havia a Feira de Vila Real, no mês de Outubro, chegavam os carroceis, pistas de automóveis, então, a malta da Rua da Espanha e Rua Estreita, juntava-se para ajudar a montar os carroceis e pistas de automóveis. Este trabalho voluntário dava direito a que, durante os dias da feira, pudéssemos fruir de viagens gratuitas, saltar e subir para o carrocel em movimento. Uma festa dentro da feira. Uma vivência única.

 

No final de um dia de montagem do carrocel, estava todo sujo de óleo e para evitar que  a minha avó se zangasse comigo, fui para a fábrica do Parodi, onde ela trabalhava para me lavar. O porteiro, cujo nome não recordo, ao ver-me todo sujo, disse-me que não me deixava entrar – “a tua avó vai ver com estás”.

 

Então, num momento que ele foi para a “casinha da guarda” resolvi pisgar-me por uma entrada lateral, uma zona onde descarregavam o carvão para as caldeiras de cozer o atum.

Só que, ao entrar e saltar, a placa de madeira de entrada estava em vão e lá dei uma cambalhota e torci o pé. Pronto estava o caldo entornado. Lá fui para ao Hospital e por lá fiquei internado.

As visitas só as tinha ao fim-de-semana, a minha avó, que recorde.

E, todas as noites, ou quase todas as noites, escutava, pelas 23 horas, aquele choro e clamor, quando a minha avó vinha do serão da fábrica e passava junto ao hospital, com a minha irmã Josefa.

Mal chegava, ali, pela zona do Café das «Janelas Verde», passando frente ao Hospital e até à zona da «Escola das Moças», lá escutava na distância, aproximando-se e distanciando-se aquele choro e clamor: “Eu quero o meu mano! Eu quero o meu mano”.

Ainda escuto, como se fosse hoje esse som a rasgar a minha memória. Uma ternura.

 

Depois, a segunda vez que estive internado, foi nos anos 80, no Hospital do Barreiro, fui transportado pelos bombeiros, em sequência de um incêndio na cozinha da minha residência, então, na Rua Grão Vasco.

Tudo muito rápido e controlado, mas o suficiente para ficar queimado nas pernas e ter que ser internado durante mais de dez dias.

Desses dias recordo as imensas visitas, dezenas de amigos que durante aquelas horas se deslocavam a dar-me um abraço ou um beijo. E amigos que trabalhavam no Hospital que, ao longo do dia, ali, se deslocavam para brincar e trazer um sorriso e abraço de amizade.

 

Este ano, no mês passado, estive sete dias no Hospital do Barreiro, dois dias nas Urgências e cinco dias em Medicina B.

As visitas eram exclusivas para a família, era uma alegria sentir chegar aquela hora, ao fim da tarde, e receber o carinho das minhas filhotas Rita, Marta, e o Neves, assim como pela hora de almoço, aquele carinho da minha Lurdes.

Sentir a presença de alguns amigos, trabalhadores do Hospital que com a sua presença davam-me alento e traziam-me uma palavra amiga e noticias do mundo lá fora e ali tão perto. Foi muito bom o carinho de Ana Teresa Xavier, ou a presença de Fátima Lourenço, Paulina Santos, assim como a Milena, a Paula Ortiz, ou outras presenças amigas que na hora da visita por ali passaram a dar-me um abraço e o apoio solidário, como Humberto Candeias ou Sofia Martins. E outros amigos que davam energia e conforto.

 

Mas, decidi escrever este texto, acima de tudo por uma razão, para agradecer o carinho, as muitas palavras de amizade que recebi através do facebook.

Algumas mensagens tocaram forte, tão forte que as lágrimas soltaram-se e brindaram o meu coração.

Nestes dias senti, afinal, como uma rede social, pode ser um instrumento de relação humana positiva, de estimulo, de solidariedade, afinal, são as nossas visitas dos tempos virtuais.

Depois, aquelas mensagens que recebi de amigos mais próximos, aquelas mensagens privadas, marcadas de carinho – um registo especial daquela companhia diária da Gisa - seja com uma foto de uma árvore na Avenida da Praia ou um poema, ou uma palavra escrita por dentro dos nervos. Gestos que tocavam por dentro do silêncio e, digo-vos, todos os gestos que nos tocam por dentro do silêncio, ficam inscritos nas memórias do tempo que vivemos.

 

Reconheço que partilhar, certos momentos das nossas angústias e situações, não se trata de mais nada, apenas isso, o desejo de abrirmos os braços e recebermos uma energia partilhada, a força que precisamos para enfrentar os desafios e superar as nossas debilidades. Conforta.

Obrigado a todos que me deram um abraço e acreditem, só quando vivemos certas situações é que compreendemos que há razões que a razão não compreende e só se explicam pela emoção, essa energia que toca os nervos e faz sentir que a vida é mais que o material – há o sentimento que move e faz rasgar as penumbras dos dias.

Sei que as redes sociais, nem sempre são isto, ou são isto, mas, tudo depende que quem as usa, como as usa e o que pretende ao usar, por mim, uso e continuarei a usar como um espaço de partilha dos dias, de encontros e desencontros, porque acredito que a vida partilhada é mais viva e cheia de amor.

Depois desta experiência…fiquei com esta certeza que, afinal, cada um encontra nas redes sociais o espelho da sua forma de estar na vida. Há quem cultive o ódio. Há quem cultive o amor. Cada um cultiva o que sente, são opções.

Por mim, continuarei a sorrir... sempre!

Obrigado!

 

António Sousa Pereira

Foto - Adalgisa Martins

Está ali o meu país

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Está ali o meu país. O meu país habituado a sentir a dor por dentro dos nervos. O meu país que se propaga, real, vivo, num eco feito de – “ai,ai,ai,ai…”. A dor a rasgar o silêncio.

Ali, naqueles corredores, as macas, em fila indiana, são o refúgio, o ponto de encontro com a angústia, o sofrimento e a esperança.

Lotação esgotada. Homens e mulheres, na sua grande maioria idosos. O espelho de um país envelhecido, de uma região envelhecida, de uma cidade envelhecida.

As condições estão no limite, para os utentes e para os profissionais que, de um lado para o outro, acodem e procuram dar respostas a todos os apelos. Não têm mãos a medir.

 

Observo e penso, nos muitos comentários que por vezes leio, ou escuto, sobre o Hospital do Barreiro. Ali, deitado, na maca sinto a situação real e penso no desespero de quem sofre e na ansiedade de quem trabalha em condições limite, mas que não desiste de dar respostas . Numa entrega a rasar as lágrimas contidas, numa ansiedade, que brota do amor à profissão.

 

De repente sorriu. No meio daquela angústia, entre as macas, um homem, idoso, bem idoso, certamente um utente, e, uma mulher, enfermeira ou médica, entre os sorrisos de outros nas macas, que os observam,  dançam, uma dança que faz lembrar um cena, de um qualquer filme de Fellini. O meu país, real, na sua natureza identitária, que perante as adversidades nunca deixa de sorrir, cantar e dançar. 

 

É por isso, talvez, que alguns profissionais de saúde, após alguns anos de desespero e dádiva, eles, que tudo dão, ao sentirem as criticas, por vezes infundadas, certamente, acabam por vestir uma couraça, uma forma psicológica de ignorar e responder à ingratidão. Somos muito ingratos.

O nosso Serviço Nacional de Saúde, acredito, deve ser mesmo uma das mais belas conquistas do 25 de Abril.

Ali, embatem todas as torrentes de desespero, mas também as de alegria do nascer. Um serviço único que apesar das dificuldades e limitações, existe, e todos devemos pugnar pela sua preservação e defesa.

Claro que nem tudo é perfeito. Claro que existem erros e deficiências. Mas, mesmo assim, ali está como oásis que acolhe no seu seio um país que envelhece.

 

Em torno dele movem-se milhões e milhões de interesses, mas, mesmo neste quadro de cortes, de apertar o cinto, de limitação de recursos, de problemas de carreiras – vivi nestes dias um dia de greve, notei as dificuldades – os enfermeiros a dar resposta à ausência, sentida, do pessoal auxiliar de saúde.

É verdade, é complicado, mas este SNS, continua a prestar um serviço único e indispensável num país envelhecido.

 

Notei alguns problemas que fazem o seu quotidiano. Na enfermaria onde estive, na Medicina B, lá estava sentada numa cadeira, já com o seu problema de saúde resolvido há uns dias – pelo que ouvi dizer.

Ali estava, sentada, apenas para comer e dormir, quase sem qualquer medicamentação.

A D. Ivone, falava  – “Não tenho ninguém. Tenho um filho na Alemanha, outro em França, outro no Alentejo. Estou sozinha. Não tenho ninguém”.

Ao seu encontro veio uma assistente social.

“Temos que resolver o seu problema. Temos que ver para onde pode ir, vamos colocá-la no Montijo, durante uns dias para fazer Fisioterapia. Que diz?”, dizia-lhe a Assistente Social.

Ela comentou – “No Montijo!».

 «Onde mora?».perguntaram-lhe. “Na Verderena, mas não tenho ninguém e sozinha não consigo fazer nada”, respondeu.

Ao fim do dia lá partiu, rumo ao Montijo, porque não tem ninguém e por lá vai ficar até existir uma solução.

É este o meu país real, ali, a cruzar-se nos corredores, entre macas e dor, entre sorrisos e confortos.

 

Uma coisa tenho a certeza, as obras de ampliação anunciadas para o Serviço de Urgência do Hospital do Barreiro, já em fase de concurso, são uma necessidade urgente, para os utentes, para os profissionais de saúde, e, acima de tudo, para a prestação de um serviço de melhor qualidade, que, com todas as limitações e dificuldades, sem dúvida, ali, todos fazem o melhor e dão de si o melhor…estar de fora é fácil criticar, sentir, lá dentro, no pulsar quotidiano, de facto, ali, na vida real é que dá para perceber, como só amando o que se faz, com paixão e entrega, são dadas respostas a tantas situações...talvez por isso dói, acredito que dói… a ingratidão.

 

António Sousa Pereira

As melhoras Ti’João

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Ali, não há noite, nem há dia, não há sequer tempo, porque todo o tempo é uma luta contra o tempo.

Um tempo feito de entrega, de paixão, de combate, uma azáfama, de um lado para o outro acorrendo a todos os gritos de dor – “tenho fome”, “tenho sede”, “quero ir para casa” - ali, naquele recanto do mundo, desta cidade Barreiro, a vida aguenta-se, ou esvai-se entre os dedos da impotência, mas todos, mesmo todos, dão de si tudo, até ao limite, sem cansaço, porque, afinal, o cansaço pode quebrar o ânimo de quem vive, cada segundo com paixão e uma vivência do tempo que toca os nervos da indiferença, ao nascer do sol, ao amanhecer ou anoitecer.

 

Ali, cada momento é um acto de ternura – “vá lá princesa abre a boca”- e no meio de toda aquela luta, ainda há tempo para sorrir, comentar a vida, falar dos filhos, falar das folgas e descansos dos dias de Natal ou de passagem de ano – “isto calha sempre aos mesmos”. Porque afinal, são pessoas, também elas com os seus dramas e sonhos de vida.

 

Só quem vive aquela profissão – de médico, enfermeiro, auxiliar de saúde - com a paixão de quem abraça um modo de estar na vida e realizar-se como pessoa, consegue superar as angústias e o desespero daquele combate com o tempo, por dentro do tempo.

 

Ao meu lado estava o Ti’João. Uma situação limite. Escutava aquela lufa a lufa, ali, ao meu lado – “abra os olhos”, “olhe para mim”.

E, pelo que escutava, tentava-se numa intervenção cirúrgica ao nível pulmonar, aquele combate contra o tempo e por dentro do desespero do tempo.

Uma correria. Uma entrega que sentia-se era um combate pela vida.

 

Horas depois saí, dali, naquele recanto onde o amor se escreve com a palavra vida.

Quando o Técnico Auxiliar, de seu nome Virtuoso, empurrava a minha maca, passei na frente do Ti’João, olhei, e, num aceno disse-lhe : “As melhoras Ti’João!”.

O Virtuoso comentou : “Ele ouviu. Fez um sinal com os olhos”.

As lágrimas rasgaram o meu coração. Contive-me. Mas, à noite, deitado, lá em cima na Medicina B, senti um rio marejar meus olhos.

Não sei se o Ti’João sobreviveu, mas, uma coisa sei os heróis -  híper humanos - da Unidade de Internamento Polivalente de Agudos (UIPA), foram de uma entrega inexcedível, porque, ali, ao mesmo tempo, há outros Ti’João, há outras Ti’ Filomena, que exigem os mesmos cuidados, a mesma entrega e a mesma paixão – 24 horas, sobre 24 horas – ali, não há tempo, o único tempo escreve-se com a palavra vida!

 

António Sousa Pereira

Eu tinha acabado de fazer 15 anos e sonhava….

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Estava aqui, sentado, a pensar sobre o passado, porque o passado, pode não ser para viver, ou reviver, mas, ele, sem dúvida, é uma lição, um tempo que se junta ao tempo que somos hoje – não há presente sem passado, assim como não há futuro sem presente.

 

E não vale a pena querer pintar o passado de cores diferentes, cada um tem o passado que tem, na sua individualidade e na sua partilha.

Então, neste Portugal, feito de mimos e abraços, de estórias e historietas, de modelos de estar e ser que se perdem por dentro das memórias, esta cultura judaico-cristã, este partir e chegar que se diz e escreve saudade, com culturas de sacristia e esquinas, a morder os pensamentos, de facto, não vale mesmo a pena querer estrangular o passado, porque ele está inscrito nas nossas vidas.

 

A cultura de bons e maus, as vivências marcadas por bodes expiatórios, as acções estimuladas no criar um «inimigo comum», isso, está inscrito no nosso adn, basta recuar a Eça de Queirós. Uma monarquia constitucional feita de bons e maus. Uma República feita de bons e maus. Um Estado Novo feito de bons e maus. Um Abril feito de bons e maus. É isto o nosso passado. É isto o nosso presente – de geringonças ( os bons) e até aqui, na gerigonça há os muito bons, os bons e  os menos bons, e , até os que nunca serão bons. E os maus, são os outros – os troikianos – tão maus que me arrancaram o sorriso durante anos, mas também, aqui, eles, os troikianos, há os maus, os menos maus, os muito maus. E até há troikianos, que odeiam, alguns dos bons ( ou pouco bons).

 

Estava aqui a pensar, ao fim da tarde, no passado, nos dias que vivi no ano de 1967, um tempo que adoptei como lema de vida – procura deixar o mundo um pouco melhor que o encontraste – ali, em Odivelas, no meio de lama, tristeza, lágrimas, casas destruídas, das quais apenas restavam os alicerces, cadáveres enterrados na lama, crianças a chorar, idosos marcados nas rugas de uma vida dolorosa – o meu país real.

Eu tinha 15 anos. E sonhava num mundo diferente. Não sabia o que era politica, era me indiferente. Soube que houve uma tragédia e, ali, nos arredores de Lisboa, onde eu então vivia, pessoas precisavam de apoio e solidariedade, vesti a minha farda de escuteiro e lá fui, com esse desejo de dar um abraço solidário e ajudar os que sofriam.

 

Vi lá muitos jovens. Eram muitos os jovens, que removiam lama, abriam covas, ajudavam a descobrir cadáveres de pessoas e animais.

Dizem que morreram 400 pessoas, outros falam em 700, o número que me ficou na memória – foi 1200 mortos -  este número escutei, dito e redito, e gravei na memória.

Era este o meu país, há 50 anos, feito de territórios sem planeamento, bairros de gente pobre construídos em zonas de linhas de água.

É este o meu país, hoje, de mortes nas florestas que ardem, de pessoas que vão a um Hospital e encontram a morte, por falta de condições de salubridade.

 

É este o meu país, o país, que continua a viver, feito de bons e maus, de passados que se calam, para lançar futuros de sonho.

 

Eu tinha acabado de fazer 15 anos e sonhava….

 

António Sousa Pereira

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