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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

Uma Rede social pode ser um instrumento de relação humana positiva

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Ao longo da minha vida, por três vezes, estive alguns dias hospitalizado. Esses dias ficaram sempre como uma marca e referência na forma de olhar e sentir os dias.

 

A primeira vez, devia ter os meus dez ou onze anos, na minha terra natal, estive cerca de 10 dias internado no Hospital Marquês de Pombal, era uma sala com cerca de uns quinze doentes, de diversas idades e eu, naqueles dias fui o mascote. É verdade, como fui lá parar.

Quando havia a Feira de Vila Real, no mês de Outubro, chegavam os carroceis, pistas de automóveis, então, a malta da Rua da Espanha e Rua Estreita, juntava-se para ajudar a montar os carroceis e pistas de automóveis. Este trabalho voluntário dava direito a que, durante os dias da feira, pudéssemos fruir de viagens gratuitas, saltar e subir para o carrocel em movimento. Uma festa dentro da feira. Uma vivência única.

 

No final de um dia de montagem do carrocel, estava todo sujo de óleo e para evitar que  a minha avó se zangasse comigo, fui para a fábrica do Parodi, onde ela trabalhava para me lavar. O porteiro, cujo nome não recordo, ao ver-me todo sujo, disse-me que não me deixava entrar – “a tua avó vai ver com estás”.

 

Então, num momento que ele foi para a “casinha da guarda” resolvi pisgar-me por uma entrada lateral, uma zona onde descarregavam o carvão para as caldeiras de cozer o atum.

Só que, ao entrar e saltar, a placa de madeira de entrada estava em vão e lá dei uma cambalhota e torci o pé. Pronto estava o caldo entornado. Lá fui para ao Hospital e por lá fiquei internado.

As visitas só as tinha ao fim-de-semana, a minha avó, que recorde.

E, todas as noites, ou quase todas as noites, escutava, pelas 23 horas, aquele choro e clamor, quando a minha avó vinha do serão da fábrica e passava junto ao hospital, com a minha irmã Josefa.

Mal chegava, ali, pela zona do Café das «Janelas Verde», passando frente ao Hospital e até à zona da «Escola das Moças», lá escutava na distância, aproximando-se e distanciando-se aquele choro e clamor: “Eu quero o meu mano! Eu quero o meu mano”.

Ainda escuto, como se fosse hoje esse som a rasgar a minha memória. Uma ternura.

 

Depois, a segunda vez que estive internado, foi nos anos 80, no Hospital do Barreiro, fui transportado pelos bombeiros, em sequência de um incêndio na cozinha da minha residência, então, na Rua Grão Vasco.

Tudo muito rápido e controlado, mas o suficiente para ficar queimado nas pernas e ter que ser internado durante mais de dez dias.

Desses dias recordo as imensas visitas, dezenas de amigos que durante aquelas horas se deslocavam a dar-me um abraço ou um beijo. E amigos que trabalhavam no Hospital que, ao longo do dia, ali, se deslocavam para brincar e trazer um sorriso e abraço de amizade.

 

Este ano, no mês passado, estive sete dias no Hospital do Barreiro, dois dias nas Urgências e cinco dias em Medicina B.

As visitas eram exclusivas para a família, era uma alegria sentir chegar aquela hora, ao fim da tarde, e receber o carinho das minhas filhotas Rita, Marta, e o Neves, assim como pela hora de almoço, aquele carinho da minha Lurdes.

Sentir a presença de alguns amigos, trabalhadores do Hospital que com a sua presença davam-me alento e traziam-me uma palavra amiga e noticias do mundo lá fora e ali tão perto. Foi muito bom o carinho de Ana Teresa Xavier, ou a presença de Fátima Lourenço, Paulina Santos, assim como a Milena, a Paula Ortiz, ou outras presenças amigas que na hora da visita por ali passaram a dar-me um abraço e o apoio solidário, como Humberto Candeias ou Sofia Martins. E outros amigos que davam energia e conforto.

 

Mas, decidi escrever este texto, acima de tudo por uma razão, para agradecer o carinho, as muitas palavras de amizade que recebi através do facebook.

Algumas mensagens tocaram forte, tão forte que as lágrimas soltaram-se e brindaram o meu coração.

Nestes dias senti, afinal, como uma rede social, pode ser um instrumento de relação humana positiva, de estimulo, de solidariedade, afinal, são as nossas visitas dos tempos virtuais.

Depois, aquelas mensagens que recebi de amigos mais próximos, aquelas mensagens privadas, marcadas de carinho – um registo especial daquela companhia diária da Gisa - seja com uma foto de uma árvore na Avenida da Praia ou um poema, ou uma palavra escrita por dentro dos nervos. Gestos que tocavam por dentro do silêncio e, digo-vos, todos os gestos que nos tocam por dentro do silêncio, ficam inscritos nas memórias do tempo que vivemos.

 

Reconheço que partilhar, certos momentos das nossas angústias e situações, não se trata de mais nada, apenas isso, o desejo de abrirmos os braços e recebermos uma energia partilhada, a força que precisamos para enfrentar os desafios e superar as nossas debilidades. Conforta.

Obrigado a todos que me deram um abraço e acreditem, só quando vivemos certas situações é que compreendemos que há razões que a razão não compreende e só se explicam pela emoção, essa energia que toca os nervos e faz sentir que a vida é mais que o material – há o sentimento que move e faz rasgar as penumbras dos dias.

Sei que as redes sociais, nem sempre são isto, ou são isto, mas, tudo depende que quem as usa, como as usa e o que pretende ao usar, por mim, uso e continuarei a usar como um espaço de partilha dos dias, de encontros e desencontros, porque acredito que a vida partilhada é mais viva e cheia de amor.

Depois desta experiência…fiquei com esta certeza que, afinal, cada um encontra nas redes sociais o espelho da sua forma de estar na vida. Há quem cultive o ódio. Há quem cultive o amor. Cada um cultiva o que sente, são opções.

Por mim, continuarei a sorrir... sempre!

Obrigado!

 

António Sousa Pereira

Foto - Adalgisa Martins

Está ali o meu país

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Está ali o meu país. O meu país habituado a sentir a dor por dentro dos nervos. O meu país que se propaga, real, vivo, num eco feito de – “ai,ai,ai,ai…”. A dor a rasgar o silêncio.

Ali, naqueles corredores, as macas, em fila indiana, são o refúgio, o ponto de encontro com a angústia, o sofrimento e a esperança.

Lotação esgotada. Homens e mulheres, na sua grande maioria idosos. O espelho de um país envelhecido, de uma região envelhecida, de uma cidade envelhecida.

As condições estão no limite, para os utentes e para os profissionais que, de um lado para o outro, acodem e procuram dar respostas a todos os apelos. Não têm mãos a medir.

 

Observo e penso, nos muitos comentários que por vezes leio, ou escuto, sobre o Hospital do Barreiro. Ali, deitado, na maca sinto a situação real e penso no desespero de quem sofre e na ansiedade de quem trabalha em condições limite, mas que não desiste de dar respostas . Numa entrega a rasar as lágrimas contidas, numa ansiedade, que brota do amor à profissão.

 

De repente sorriu. No meio daquela angústia, entre as macas, um homem, idoso, bem idoso, certamente um utente, e, uma mulher, enfermeira ou médica, entre os sorrisos de outros nas macas, que os observam,  dançam, uma dança que faz lembrar um cena, de um qualquer filme de Fellini. O meu país, real, na sua natureza identitária, que perante as adversidades nunca deixa de sorrir, cantar e dançar. 

 

É por isso, talvez, que alguns profissionais de saúde, após alguns anos de desespero e dádiva, eles, que tudo dão, ao sentirem as criticas, por vezes infundadas, certamente, acabam por vestir uma couraça, uma forma psicológica de ignorar e responder à ingratidão. Somos muito ingratos.

O nosso Serviço Nacional de Saúde, acredito, deve ser mesmo uma das mais belas conquistas do 25 de Abril.

Ali, embatem todas as torrentes de desespero, mas também as de alegria do nascer. Um serviço único que apesar das dificuldades e limitações, existe, e todos devemos pugnar pela sua preservação e defesa.

Claro que nem tudo é perfeito. Claro que existem erros e deficiências. Mas, mesmo assim, ali está como oásis que acolhe no seu seio um país que envelhece.

 

Em torno dele movem-se milhões e milhões de interesses, mas, mesmo neste quadro de cortes, de apertar o cinto, de limitação de recursos, de problemas de carreiras – vivi nestes dias um dia de greve, notei as dificuldades – os enfermeiros a dar resposta à ausência, sentida, do pessoal auxiliar de saúde.

É verdade, é complicado, mas este SNS, continua a prestar um serviço único e indispensável num país envelhecido.

 

Notei alguns problemas que fazem o seu quotidiano. Na enfermaria onde estive, na Medicina B, lá estava sentada numa cadeira, já com o seu problema de saúde resolvido há uns dias – pelo que ouvi dizer.

Ali estava, sentada, apenas para comer e dormir, quase sem qualquer medicamentação.

A D. Ivone, falava  – “Não tenho ninguém. Tenho um filho na Alemanha, outro em França, outro no Alentejo. Estou sozinha. Não tenho ninguém”.

Ao seu encontro veio uma assistente social.

“Temos que resolver o seu problema. Temos que ver para onde pode ir, vamos colocá-la no Montijo, durante uns dias para fazer Fisioterapia. Que diz?”, dizia-lhe a Assistente Social.

Ela comentou – “No Montijo!».

 «Onde mora?».perguntaram-lhe. “Na Verderena, mas não tenho ninguém e sozinha não consigo fazer nada”, respondeu.

Ao fim do dia lá partiu, rumo ao Montijo, porque não tem ninguém e por lá vai ficar até existir uma solução.

É este o meu país real, ali, a cruzar-se nos corredores, entre macas e dor, entre sorrisos e confortos.

 

Uma coisa tenho a certeza, as obras de ampliação anunciadas para o Serviço de Urgência do Hospital do Barreiro, já em fase de concurso, são uma necessidade urgente, para os utentes, para os profissionais de saúde, e, acima de tudo, para a prestação de um serviço de melhor qualidade, que, com todas as limitações e dificuldades, sem dúvida, ali, todos fazem o melhor e dão de si o melhor…estar de fora é fácil criticar, sentir, lá dentro, no pulsar quotidiano, de facto, ali, na vida real é que dá para perceber, como só amando o que se faz, com paixão e entrega, são dadas respostas a tantas situações...talvez por isso dói, acredito que dói… a ingratidão.

 

António Sousa Pereira

As melhoras Ti’João

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Ali, não há noite, nem há dia, não há sequer tempo, porque todo o tempo é uma luta contra o tempo.

Um tempo feito de entrega, de paixão, de combate, uma azáfama, de um lado para o outro acorrendo a todos os gritos de dor – “tenho fome”, “tenho sede”, “quero ir para casa” - ali, naquele recanto do mundo, desta cidade Barreiro, a vida aguenta-se, ou esvai-se entre os dedos da impotência, mas todos, mesmo todos, dão de si tudo, até ao limite, sem cansaço, porque, afinal, o cansaço pode quebrar o ânimo de quem vive, cada segundo com paixão e uma vivência do tempo que toca os nervos da indiferença, ao nascer do sol, ao amanhecer ou anoitecer.

 

Ali, cada momento é um acto de ternura – “vá lá princesa abre a boca”- e no meio de toda aquela luta, ainda há tempo para sorrir, comentar a vida, falar dos filhos, falar das folgas e descansos dos dias de Natal ou de passagem de ano – “isto calha sempre aos mesmos”. Porque afinal, são pessoas, também elas com os seus dramas e sonhos de vida.

 

Só quem vive aquela profissão – de médico, enfermeiro, auxiliar de saúde - com a paixão de quem abraça um modo de estar na vida e realizar-se como pessoa, consegue superar as angústias e o desespero daquele combate com o tempo, por dentro do tempo.

 

Ao meu lado estava o Ti’João. Uma situação limite. Escutava aquela lufa a lufa, ali, ao meu lado – “abra os olhos”, “olhe para mim”.

E, pelo que escutava, tentava-se numa intervenção cirúrgica ao nível pulmonar, aquele combate contra o tempo e por dentro do desespero do tempo.

Uma correria. Uma entrega que sentia-se era um combate pela vida.

 

Horas depois saí, dali, naquele recanto onde o amor se escreve com a palavra vida.

Quando o Técnico Auxiliar, de seu nome Virtuoso, empurrava a minha maca, passei na frente do Ti’João, olhei, e, num aceno disse-lhe : “As melhoras Ti’João!”.

O Virtuoso comentou : “Ele ouviu. Fez um sinal com os olhos”.

As lágrimas rasgaram o meu coração. Contive-me. Mas, à noite, deitado, lá em cima na Medicina B, senti um rio marejar meus olhos.

Não sei se o Ti’João sobreviveu, mas, uma coisa sei os heróis -  híper humanos - da Unidade de Internamento Polivalente de Agudos (UIPA), foram de uma entrega inexcedível, porque, ali, ao mesmo tempo, há outros Ti’João, há outras Ti’ Filomena, que exigem os mesmos cuidados, a mesma entrega e a mesma paixão – 24 horas, sobre 24 horas – ali, não há tempo, o único tempo escreve-se com a palavra vida!

 

António Sousa Pereira

Eu tinha acabado de fazer 15 anos e sonhava….

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Estava aqui, sentado, a pensar sobre o passado, porque o passado, pode não ser para viver, ou reviver, mas, ele, sem dúvida, é uma lição, um tempo que se junta ao tempo que somos hoje – não há presente sem passado, assim como não há futuro sem presente.

 

E não vale a pena querer pintar o passado de cores diferentes, cada um tem o passado que tem, na sua individualidade e na sua partilha.

Então, neste Portugal, feito de mimos e abraços, de estórias e historietas, de modelos de estar e ser que se perdem por dentro das memórias, esta cultura judaico-cristã, este partir e chegar que se diz e escreve saudade, com culturas de sacristia e esquinas, a morder os pensamentos, de facto, não vale mesmo a pena querer estrangular o passado, porque ele está inscrito nas nossas vidas.

 

A cultura de bons e maus, as vivências marcadas por bodes expiatórios, as acções estimuladas no criar um «inimigo comum», isso, está inscrito no nosso adn, basta recuar a Eça de Queirós. Uma monarquia constitucional feita de bons e maus. Uma República feita de bons e maus. Um Estado Novo feito de bons e maus. Um Abril feito de bons e maus. É isto o nosso passado. É isto o nosso presente – de geringonças ( os bons) e até aqui, na gerigonça há os muito bons, os bons e  os menos bons, e , até os que nunca serão bons. E os maus, são os outros – os troikianos – tão maus que me arrancaram o sorriso durante anos, mas também, aqui, eles, os troikianos, há os maus, os menos maus, os muito maus. E até há troikianos, que odeiam, alguns dos bons ( ou pouco bons).

 

Estava aqui a pensar, ao fim da tarde, no passado, nos dias que vivi no ano de 1967, um tempo que adoptei como lema de vida – procura deixar o mundo um pouco melhor que o encontraste – ali, em Odivelas, no meio de lama, tristeza, lágrimas, casas destruídas, das quais apenas restavam os alicerces, cadáveres enterrados na lama, crianças a chorar, idosos marcados nas rugas de uma vida dolorosa – o meu país real.

Eu tinha 15 anos. E sonhava num mundo diferente. Não sabia o que era politica, era me indiferente. Soube que houve uma tragédia e, ali, nos arredores de Lisboa, onde eu então vivia, pessoas precisavam de apoio e solidariedade, vesti a minha farda de escuteiro e lá fui, com esse desejo de dar um abraço solidário e ajudar os que sofriam.

 

Vi lá muitos jovens. Eram muitos os jovens, que removiam lama, abriam covas, ajudavam a descobrir cadáveres de pessoas e animais.

Dizem que morreram 400 pessoas, outros falam em 700, o número que me ficou na memória – foi 1200 mortos -  este número escutei, dito e redito, e gravei na memória.

Era este o meu país, há 50 anos, feito de territórios sem planeamento, bairros de gente pobre construídos em zonas de linhas de água.

É este o meu país, hoje, de mortes nas florestas que ardem, de pessoas que vão a um Hospital e encontram a morte, por falta de condições de salubridade.

 

É este o meu país, o país, que continua a viver, feito de bons e maus, de passados que se calam, para lançar futuros de sonho.

 

Eu tinha acabado de fazer 15 anos e sonhava….

 

António Sousa Pereira

Tens valores, sorri!

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A vida é feita de estórias, muitas estórias, algumas fazem-nos perder o sorriso, outras fazem-nos sorrir, é assim, esta caminhada, que todos fazemos, inscrevendo no tempo aquele que é o nosso tempo.

E, acredito, ser feliz é viver o tempo, todo o tempo, e, sentir que ele está guardado no coração.  

 

Quando somos jovens, os nossos olhos conseguem imaginar uma realidade, ampliada, cada acontecimento, por vezes, sentimo-lo como estando a fazer história – acontecimentos únicos, nunca aconteceu, nunca tal foi visto, tanta gente, tanta gente, inventamos, reinventamos, adaptamos a vida aos nossos desejos.

A nossa imaginação é fértil, de tal forma, que achamos que as páginas que estamos a escrever na história são, já hoje, uma história de futuro, ou porque não o começo de um novo mundo.

 

Só que o mundo é real, tão real, que quando vivemos muitas experiências de mudança, de transformação, e, então, neste nosso Portugal, todos aqueles que vivemos – vivendo - os dias de Abril, o PREC, e, até os dias de Novembro, aprendemos a sentir a vida, com tudo o que ela tem e com todo o peso das palavras.

Aprendemos a sentir o ódio escondido entre flores.

Aprendemos a sentir o amor nascendo no cano de uma espingarda.

Aprendemos a palavra Liberdade, no confronto com a própria Liberdade.

Aprendemos o que é populismo e manipulação. Aprendemos a sentir a arrogância e a superar a arrogância.

Aprendemos a sentir – hermenêuticamente – o peso e o sabor das palavras.

 

Quando vivemos no nosso tempo vivido, a queda de muros, ou até os campos de futebol, apinhados de pessoas, ali mortas, só porque sonhavam liberdade. Tudo isso nos ensina o que são sorrisos e lágrimas, sentidas, por dentro de ideias e valores.

 

É por isso, afinal que vale a pena sorrir, porque viver com um sorriso é viver sentindo as cores a brilhar nos nervos do pensamento.

Hoje, ao olhar-me ao espelho, onde nunca tive receio de olhar os meus próprios olhos, mas, hoje, sim hoje – sorrindo - dei comigo a pensar : se eu não tivesse valores dentro de mim já tinha enlouquecido.

É por isso, que pouso as mãos no meu rosto, cheiro uma flor e sei o que sou, sei o que penso. Um homem livre!

 

E, talvez, por essa razão, fico a pensar, porque será que eles, acham que para mudar o mundo, precisam de se enganar a si mesmos…de tal forma estão convictos que olham para a realidade, real e imaginária, e não sabem, ou não querem saber, onde começa a verdade e onde acaba a mentira, e vice versa. Escondem-se por dentro de indecisões.

São egocêntricos de imaginação, talvez, porque tudo começa e acaba no umbigo do seu estômago.

 

Hoje sorri, apeteceu-me mesmo sorrir e neste regresso sentido do meu sorriso, que estava guardado no coração, desde os tempos da troika – foi duro, muito duro – mas hoje, de novo, voltei a sentir o sorriso a pulsar nas ruas da cidade e, com os meus nervos aconchegados nesse sorriso, olhei o Tejo e pensei – oh homem vive com esse sorriso aquilo que te sobra de vida para viver, faz o que gostas, todos os dias, sente o sol a brilhar no teu sorriso ao vento!

Tens valores, sorri!

 

S.P.

Um beijo no pensamento!

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São oceanos e desertos.

São nervos e ossos.

São cores e luzes.

 

São montes e vales.

São passos na lama.

São voos no espaço.

 

São lágrimas de chocolate. 

São as veias do teu corpo.

 

São os vincos na paisagem. 

São os dons natureza.

 

São os gritos da humanidade.

 

Tudo num sentir cósmico,

 rasgando por dentro,

um beijo no pensamento!

 

António Sousa Pereira

Nota – Escrito com um olhar sobre a tela de Fátima Romão

Foi mesmo um dia especial….

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Há dias que as emoções florescem na pele, nascem em flocos de neve nos olhos, colorindo a paisagem numa penumbra, que, sentimos são os nervos a mergulhar na neblina matinal, e, lá dentro, através desse nevoeiro sonolento visualizamos as memórias, todo o tempo que vivemos.

Pode ser um abraço. Pode ser um beijo. Pode ser um sorriso. Pode ser um olhar. Pode ser um simples gesto.

 

Há dias que são mesmo dias especiais, aqueles que permitem sentir, que por mais voltas dadas na vida, de dificuldades, de adiamentos, de falta de sorrisos, de lágrimas, há sempre um tempo, aquele que abre um novo caminho, onde nascem outros novos caminhos.

E, nesse instante, podemos sonhar com o novo, mas, a experiência e a aprendizagem da vida, já permitem saber o que é a humildade, uma humildade que se faz, porque a humildade não se afirma – a humildade é um exemplo feito de acções e não de palavras.

 

Por vezes, sem querer, falamos com o coração, abrindo a mente, rasgando os nervos, fazemos isso, só, apenas, com aqueles que temos no coração.

Não por arrogância, nem por insanidade mental, fazemos, porque estamos a respirar com as palavras.

 

Hoje foi um, destes dias, levado pelas emoções que tocavam o coração senti as palavras rasgar o vento, soprando num vendaval de sentimentos.

Depois, sim depois, olhei em meu redor e, olhando a vida real, sorri! Na vida, por vezes, não há nada melhor que sorrir.

 

Hoje foi um dia especial, daqueles, que nos dizem, por mais que a vida nos ensine, há sempre mais e muito mais a aprender, essa vida feita de aprendizagens. Aprendizagens que dão a mão ao passado, ao presente, fazendo do presente esse futuro, construído diariamente, onde estamos sempre a aprender.

Sim, devemos abrir o coração, expressar os nervos em palavras, só com quem nos entende, só com quem nos abraça e, esses, são sempre os que fazem brilhar os nossos olhos e sentir que AMOR e AMIZADE, são sementes, que dão flor e fruto.

 

Hoje, senti que não há nada mais belo na vida que encontrar, nas raízes do tempo, as raízes do que somos. Aprendendo. Errando. Sorrindo.

Foi mesmo um dia especial….

Até amanhã!|

 

António Sousa Pereira

“Felizmente há luar”!

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Procuro, vou continuar a procurar, nunca vou desistir de procurar, os caminhos, os meus caminhos, sentindo o vento, o sol e o luar, porque “felizmente há luar”.

 

Olhar o Tejo. E, ali, nas suas margens pensar nas naus, ou nas pontes, ou, apenas sentir as ondas debruçarem-se nas pedras verdejantes. Sentir o cheiro de maresia. Olhar a distância.

Estar ali, apenas ali, na ternura e suavidade da minha interioridade. Pensar. É tão belo pensar. Ter pensamento próprio, que nasce nas nossas interpretações da vida e do tempo que vivemos, é lindo, muito lindo. Tudo o resto é a espuma do tempo. Sempre assim foi, sempre assim será.

É verdade – “felizmente há luar”!

 

Esta tranquilidade é a melhor energia que pode acalentar os nossos dias. A paz interior, a sensação de que não somos servos, nem escravos dos movimentos da história. Ter opinião, nos tempos de hoje é difícil, mas, que querem, essa é uma forma de caminhar, da qual nunca vou abdicar.

E ter opinião é saber perceber e entender o tempo que vivemos. Não querer ser dono da verdade, pura e única, porque a vida é feita de diversidade. É nisso que acredito.

 

As palavras são apenas palavras. Podem chocar. Podem vulgarizar. Podem ser motivação.

As palavras podem ser ódio. As palavras podem ser amor. Eu prefiro, sempre preferi, a ternura das palavras.

A maior banalidade para quem vive tranquilamente, com ideias no coração, valores que guiam os seus dias, as suas lutas e paixões,  é escutar palavras, aquelas palavras que se dizem críticas, “nobres e justas”, marcadas de superioridade intelectual, de sobranceria ideológica, essas palavras escritas e ditas, afinal, são carregadas de sal rançoso, são palavras sem sabor, inúteis, pois, de tão repetidas, não fertilizam a vida, nem incomodam quem tem sonhos e vive com a liberdade a pulsar nos nervos.

 

Vão por aí, continuem por aí, eu hei-de continuar a erguer bem alto, esta bandeira que coloquei no coração, antes de Abril nascer, vi florir com Abril, senti murchar, renascer, voltar a murchar, renascer…e, agora, nestes tempos, com estes cabelos brancos, esta bandeira – a Liberdade  - está inscrita como forma de viver.

Isso é que é lindo. Acreditem.

Afinal, ao longo da história da humanidade, em todas as épocas, em todos os tempos – “felizmente há luar”!

 

S.P.

«A democracia não é uma ideologia»

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O dia de hoje é daqueles que ficam gravados na memória. São aqueles dias que sentimos os nervos a brilhar nos olhos. A palavra amizade a fluir nos sentimentos.

A vida é um tempo de aprendizagens e constantes ensinamentos.

E, afinal, é o tempo, sempre o tempo, que tudo resolve. Acima de tudo resolve quando nós, olhando o verde dos campos, sentimos que nos encontramos com aquela energia, lá dentro, bem dentro, esse lugar que só nós, apenas nós, sentimos e nos dá uma imensa tranquilidade. Um sorriso de fraternidade.

Viver é viver. Construir. Ser capaz de ser diferente e abraçar as diferenças com o coração.

Sinto que é isto a democracia. Sinto que é isto que descobri, naquele dia de Abril, erguendo cravos de esperança.

 

Ser livre é ser, acima de tudo, capaz de estar acima de pseudo conflitos e afirmar a Liberdade, com energia criadora e motivadora. Gosto de viver assim, é lindo!

 

Há pessoas que acham que para marcar a diferença o importante é cultivar o ódio, ignorando que a democracia, é isso, apenas isso, o confronto de diferenças, a conflitualidade, o diálogo, a procura de caminhos, a descoberta de diferenças, um aperfeiçoar de rumos, pela escolha de caminhos.

A democracia não é nenhuma ideologia. A democracia são muitas ideologias. São escolhas. A democracia é cultura. É cidadania. É civismo.

 

Sempre gostei de avaliar os outros pelo que fazem e não pelo que dizem, e, sempre gostei de avaliar os outros por mim próprio e não porque alguém diz, alguém comenta ou alguém rotula.

E, para mim, viver a democracia, é viver um caminhar constante no respeito pelas diferenças.

A minha barricada é essa, aquela, onde espreita a Liberdade.

Tudo o resto…são ilusões!

Até amanhã!

 

António Sousa Pereira

 

Lavei-me meus olhos no Tejo

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Andar pelas ruas é ir ao encontro do pulsar da cidade, sentir a vida. Uma cidade tem vida com as suas gentes.

Trocamos palavras, inevitavelmente, sobre o tempo que vivemos. Uns sorriem. Outros têm um semblante triste. Acho tudo isto natural.

 

Mas digo-vos, sinto que há pessoas que inscrevem pela sua acção os seus nomes na vida, em instituições, nas cidades, no tempo que viveram, e, ficam mais, muito mais inscritos, quando as suas acções foram gestos de amor, entrega, dedicação sem limites, por vezes, superando as dificuldades com sorrisos.  

Admiro essas pessoas, com um respeito que vai para além, muito mesmo, das suas ideias politicas, religiosas ou filosóficas. Gosto, porque gosto, daquele gostar que brota de dentro do coração.

 

Sei, afinal, que será o tempo, a história, que reconhecerá, lá longe, muito longe, o significado de vidas que, de facto, pelo que foram e fizeram, plantaram sementes de futuro. Um legado.

Sinto, que alguém que vive fazendo, é, de certeza indiferente à ingratidão.

Acordar, olhar o sol, sair à rua, de cabeça bem erguida, com aquela sensação de dever cumprido, de trabalho realizado, de obra, de amor ao que se ama, é, sem dúvida, mesmo lindo.

 

Hoje, ao fim da tarde, vi um homem, nas ruas da cidade, a caminhar, levando pela mão o seu neto. Sorrindo. Cumprimentando.

A nobreza de um ser humano não está em palavras, está sem dúvida nos actos. Todos os actos. Os  erros e as virtudes. Mas o mais nobre é quando a vida é marcada pela palavra – Fazer. Fazer cidade. Fazer futuro. Um legado que, lá dentro de nós mesmos, sem vaidades, sentimos que foi a nossa acção que abriu portas e rasgou caminhos. É lindo!

Um homem, de facto, só é derrotado quando desiste de viver e sonhar. Viver a vida real. Sonhar com  amor no coração.

 

Hoje, ao fim da tarde, dei uma volta pela cidade, fui até à Avenida da Praia, ali, deliciei-me a olhar o pôr-do-sol, feito de muitas cores.

Enquanto vagueava por ali, junto ao rio, meu pensamento mergulhava em memórias.

Os lugares são referências, onde, sempre, inscrevemos os passos que marcam as nossas vidas.

 

Não sei, se, no futuro, o pôr-do-sol, vai deixar de ser pôr-do-sol e começar a chamar-se «sunset», por ser mais inovador e portador de modernidade.

Olhei a paisagem. Lavei-me meus olhos no Tejo. Sorri!

Até amanhã!

 

António Sousa Pereira

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