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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

FAZER BARREIRO.

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Hoje, pela manhã, fui dar um passeio pelas ruas do Lavradio Velho. Enquanto percorria aquelas ruas, viajava pelo tempo, por dentro das memórias.

Não nasci no Lavradio. Nasci em Vila Real de Santo António, a minha terra natal, terra do meu coração. Eu, como muitos por esse país fora, vindos de muitos lados, um dia encontramos, aqui, a nossa segunda terra, esta que costumo dizer - “não é a minha terra, é a terra dos meus filhos”.

Conheci o Barreiro no ano de 1967, quando vim visitar ao Bairro das Palmeiras, o Barbeiro do Bairro – o Becinho, meu conterrâneo.

Depois, em 1971, comecei a rumar ao Lavradio, onde acabei por me fixar a partir de 1972. Esta passou, pouco a pouco, a ser a minha segunda terra. Fui conhecendo pessoas. Fui criando amigos. Integrei-me na vida da terra. Sim, também tenho inimigos, um homem nunca será um homem verdadeiramente livre se não tiver uns inimigos de estimação.

 

A primeira e grande descoberta que fiz aqui, nas minhas vivências diárias, foi o meu encontro com a importância da Liberdade enquanto valor de construção de um sentido para a vida.

Vivi de forma intensa os Jogos Juvenis do Barreiro, integrando as Comissões Organizadoras. Fiz-me sócio do Cine Clube do Barreiro e do Luso Futebol Clube. Na SFAL encontrei a porta que me integrou na vida da comunidade. Descobri antes do 25 de Abril, valores que se inscreveram na minha forma de pensar e sentir a vida. Encontrei o outro lado de um mundo, diferente, muito diferente daquele que todos os dias era propagado.

 

Enfim, hoje, cá estou, a caminhar para os 50 anos de «cidadão Lavradiense», porque, na verdade, posso afirmar-me como tal, sim AFIRMAR, com plena consciência, porque ao longo das minhas vivências sempre afirmei Lavradio, como afirmei Barreiro, porque, afinal, só é possível afirmar uma coisa que existe, que tem vida, que tem história, que tem realidade, que tem pessoas. Não se afirma nada que seja um vazio. Para que se afirme tem que existir. Eu afirmo, como dizia o outro – afirmo Pereira!  

Fiz da minha vida e faço-a com uma permanente vontade de afirmação cívica, com opinião, sempre com opinião. 

Eram estes pensamentos que me ocorriam, hoje, pela manhã, ao percorrer as ruas do Lavradio Velho.

 

Olhava à minha volta. Recordava pessoas. Sentia no pensamento as mudanças e as transformações. Recordava aquelas ruas cheias de gente rumo ao mercado ( que funcionava onde hoje está instalada a União de Freguesias) e os Mercados de Levante, aos sábados.

Recordava as filas matinais de pessoas, uns a pé, outros de bicicleta ou motorizada rumo às fábricas, por aquela entrada, perto da Praceta dos Lusíadas.

 

A vida transformou tanta coisa. O mundo mudou. E, hoje, como há muitos anos atrás, há décadas, continuo a afirmar que – o Barreiro não é um dormitório, apesar de muitos teimarem em dar-lhe esse rótulo. Continuou a afirmar que o Barreiro tem vida própria e que, por aqui, há muita criatividade.

Continuo a AFIRMAR porque sei que o Barreiro é uma terra que sempre se afirmou, na sua diferença – de ligação norte-sul, com a instalação da ferrovia, graças a Miguel Pais ( podia ter Aldegalega), de empório industrial, graças a Alfredo da Silva (podia ter sido Casa Branca), de centro urbano fruto das explosões demográficas dos anos 70.

 

Um percurso até ao que é hoje, uma cidade aberta ao futuro, que se procura a si mesma, que carece de emprego como pão para a boca, não para se afirmar, porque, ela, já se afirmou ao longo de séculos, como uma cidade com história, com memórias, com personalidades, com estórias, com rostos, muitos rostos.

Uma terra é como cada um de nós, cresce, transforma-se, envelhece e renova-se.

 

Tenho, nos últimos tempos, escutado coisas sobre o Lavradio que fico pasmado. Estereótipos. Ideias de artilharia, que só servem para disparar. Coisas bolorentas.

Mais que o buraco na rua, o lixo do contentor, a árvore que secou, a escola velha abandonada, gostava de assistir a uma discussão séria e aberta sobre o futuro deste território – o Lavrado histórico (o velhote, o velho, o que está a envelhecer, assim como os efeitos que tudo isso pode produzir sobre o dito novo).

E, sobre isso os autos, dizem nada…não basta estar de acordo com a «vox populi» é preciso dizer o que se faria diferente.

 

Há mais de uma década que venho a exigir que se desenvolva, com seriedade um estudo de reconversão urbana do território do Lavradio histórico, criando espaços de vivência social, fechando ruas ao trânsito de forma a criar uma área comercial de referência comunitária e que, até, possa atrair pessoas de outras zonas. É complicado, sei, mas é preciso dar alguns passos.

O concelho do Barreiro tem que ser pensado como «concelho-cidade», na sua diversidade polinuclear, com uma diversidade de zonas - estilo «centros comerciais a céu aberto - com dinâmicas e vidas próprias.

 

Discutir e projectar futuro, isso, sim, eu gostava de ouvir e ler. Mas, conceptualizar exige trabalho. Exige projecto. Exige cidadania activa.  

É mais fácil criticar. Mas, isto, afinal, não é mais que cultivar a banalização da critica. É o populismo afirmado em todas as suas potencialidades.

 

Eu gostava que se discutisse estratégia, visão de futuro, de tal forma que se evitasse, ver o Lavradio transformado num gueto do concelho...isso sim preocupa-me. Interrogo-me. O resto é treta.

Afinal, os buracos na rua, o lixo nos contentores, as árvores secas, irão sempre existir, e, de certeza, que não haverá nenhum messias que faça milagres…

Mas eu, como estou velho, e sou um velho de cabelos brancos que já viveu tantos filmes, cá estarei, para ver e continuar a ter opinião.

Um homem é ele e as circunstancias, como dizia, o filósofo…mas o homem também ajuda a fazer as circunstancias!

Não nasci cá, sou de VILA REAL DE SANTO ANTÓNIO, mas sendo esta a terra dos meus filhos e a terra onde vivo há quase meio século, aqui, quero continuar a viver e sonhar. Se me permitirem, claro!  

Sim e sonhar, transportando comigo aquela lição que foi a primeira que aprendi, essa sim, hoje e sempre, AFIRMAR LIBERDADE!

 

Por isso, só por tido isso, mais que afirmar o Barreiro, que já existe afirmado há séculos e, nos dias de hoje, atravessa um tempo difícil, eu opto, todos os dias, por ajudar a FAZER BARREIRO.   

 

António Sousa Pereira

 

Politica feita de ideias requentadas

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Há assuntos que, de facto, de tão repetidos deixam de ser assuntos, são coisas que surgem como meras escórias da memória.

Há assuntos que são causas justas, outros são meras simulações de causas, um jogo de ideias, onde não conta sequer o que se diz, mas apenas aquilo que se diz, aquilo que se repete, caixa de ressonância de causas enferrujadas pelo tempo, retomadas dos confins do hipotálamo, para justificar de forma solene e casual que se tem ideias diferentes ou que se tem uma visão diferente da vida.

 

O que mais me impressiona, por vezes, são aqueles que se dizem defensores do futuro, tolerantes, amplamente democratas, mas, na prática o que fazem é olhar para a vida como um «mercado de ideias», para usar como convém,  vasculham nas escórias da memórias, para gerar ódios de estimação – sejam as histórias de criancinhas, sejam fomentar as questiúnculas em torno dos mais que estafados temas acerca do «bom e mau patrão».

 

 Um destes dias escutava, na TVI, um comentador, que a propósito da análise dos discursos políticos, salientava que estes, por vezes, atingem os “limites da irracionalidade” e “chegam aos limites da estupidez”.

De facto, na nossa vida politica, em Portugal, naquilo em tempos definiam por “narrativa”, a forma de fazer politica atinge muitas vezes um nível de que toca o fanatismo, o populismo, explorando coisas e loisas, que são mera espuma do tempo.

 

Claro que há a batalha da memória, claro que é preciso manter viva a memória, principalmente aquela memória de instantes e momentos que a vida deu saltos em frente, que o mundo cresceu, que a vida do presente superou o passado e fez nascer futuro. Essa memória é que é linda.

Nós todos, temos muitas lições e aprendizagens arquivadas nos neurónios. É preciso aprender para não voltar a repetir os mesmos erros, afinal, os nossos erros são momentos de aprendizagem – a memória lição.  

 

As pessoas, todos nós, ao longo da vida nascemos e morremos muitas vezes. De cada morte, quando renascemos, transportamos a lição de vida. Recomeçamos.

As cidades, como as pessoas, também sofrem ao longo da sua existência muitas mortes e, de facto, o importante, é serem capazes de renascer da morte e começar de novo, reconstruir. Renovar uma nova linha cronológica voltada para o futuro.

 

Estou cansado de temas gastos, de politicas feita de ideias requentadas. Quero pensar futuro. Quero viver, em cada presente, a certeza que estou a construir futuro.

Digam-me, isso sim, que cidade querem e desejam construir, de contrário, penso mesmo…para pior já basta assim.

 

António Sousa Pereira

 

 

Memórias rasgadas a frio

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O tempo que vivemos não é todo o tempo que guardamos na memória. Há um tempo que morre, aquele que é esquecido, apenas existiu. Depois, há outro tempo, aquele que mesmo distante, nos confins da memória, continua presente, está vivo nos sentimentos que guardamos.

Foi isto que me ocorreu, hoje, ao fim da tarde, ao receber a noticia que, na minha terra natal, faleceu o Anacleto, para mim o «Chica» ou «Gica».

Mergulhei de súbito nas memórias daqueles dias do Torneio Popular, que dava uma vida imensa ao Campo de Jogos do Lusitano, com uma sã rivalidade de diferentes clubes.

É, aí, a esses dias, quando criança, acompanhava a equipa do Futebol Clube «O Lazareto», que equipava à Belenenses. O Anacleto, era um dos jogadores de referência da equipa, onde também alinhava o Manuel José. Depois, quando começou a jogar no Lusitano ele era um dos meus heróis.

Era o «Gica» (Anacleto), ou o Manuel José que me levavam pela mão – uma espécie de mascote da equipa – a saída era da Taberna do 28, ponto de encontro, até ao campo do Lusitano. E, no decorrer do jogo, lá, no campo, eu ficava sentado na caixa do massagista. Vivendo de forma intensa os jogos do Lazareto que, era, afinal, o clube da Minha rua, da malta da Rua da Espanha.

Hoje, ao receber esta triste noticia, através do meu primaço Neto Gomes, de súbito, senti que me arrancavam um pouco dessa memória da minha infância, desse tempo vivido e sentido que não esquecemos e por isso permanece eterno.

É isso, há um tempo que fica vivo dentro da nossa memória, são marcas de vida vivida.

Foi por isso que senti, por dentro de todo o tempo que, hoje, com a partida do Anacleto, um pouco das minhas memórias foram rasgadas a frio..e, isso, dói.

Até sempre Gica!

 

António Sousa Pereira

Uma forma de amar o Barreiro.

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Os dias passam a correr, o tempo foge entre os dedos e, mesmo fazendo agenda de trabalhos, há sempre coisas que ficam para trás, por muita vontade que se coloque em realizar o programado. Os acontecimentos sucedem-se. As dinâmicas sociais não dão espaço e obrigam a refazer planos.

O Barreiro é uma cidade que pulsa vida. Nas escolas, nas associações, na vida autárquica, nas empresas. Uma cidade com vida e dinâmica. Para dar resposta, em termos de informação, antes de mais, seria necessário criar as condições e isso, de facto, só é possível com recursos.

 

Ocorreu-me isto ao pensamento, quando, hoje, ao fim da tarde, visitei no Hospital do Barreiro o meu amigo Cabóz Gonçalves. Ele, sempre com o seu espirito hedonista, comentava coisas do passado.

Recordava aqueles anos 70, quando lançou um projecto de informação ao nível local, o jornal «Proposta», na mesma altura, que eu já estava a avançar com outro projecto «O Jornal Daterra».

Recordava esses dias. E referia que o seu projecto era inovador e criativo. Confirmo. Era, sem dúvida, um projecto jornalístico marcado de modernidade, com uma linha gráfica de grande qualidade e futurista. Recordo que, anos mais tarde, nasceu um jornal diário «Ponto», cujas características gráficas bebiam no estilo de paginação do «Proposta».

O jornal «Proposta» editou um único número. Enquanto «O jornal Daterra» ainda manteve a sua actividade durante cerca de uma década.

 

«O jornal Daterra» não tinha uma linha gráfica forte, inseria-se na tradição da época, própria dos jornais feitos em linotipe e impressos em tipografia.

«O Jornal Daterra» fazia um produto jornalístico com alguma intensidade, procurava ligar-se de forma activa às vivências locais e sempre viveu e sobreviveu pelos seus próprios meios e recursos.

Hoje, à distância, recordo a forma intensa como vivia a sua produção, primeiro semanal, depois quinzenário e por fim passou a mensal.

O Cabóz Gonçalves, comentou que «O jornal Daterra» se manteve porque encontrou apoios ao nível partidário. Sorri. E disse-lhe. “Estás enganado”.

Recordei-lhe que, foi uma luta muito dura manter o jornal e dar-lhe continuidade. Recordei-lhe que, por vezes, cheguei, eu próprio, a ir para a rua, vender jornais, ali junto à estátua de Alfredo da Silva, e, com a verba realizada – “juntava dinheiro para ir pagar à tipografia”.

 

Fazer um jornal é fácil. Manter vivo um jornal, isso, sim, é difícil, muito difícil. Normalmente todos solicitam a colaboração da imprensa regional, consideram útil e necessário o seu trabalho, mas, depois, quando se trata de criar condições, através de apoios publicitários, aí, como se diz – “a porca torce o rabo”.

O jornal «Proposta» não teve continuidade, porque faltaram esses apoios. E, quanto ao dito «O jornal Daterra» ele manteve-se por paixão, por muito sacrifício e amor ao jornalismo.

Nunca teve qualquer tipo de apoios especiais. Foi bom, afinal, que o Cabóz  Gonçalves fizesse aquele comentário, ficou esclarecido sobre um «mito urbano». E, neste ano que são assinalados 40 anos da fundação de «O jornal Daterra», esse meu primeiro projecto de jornalismo no concelho do Barreiro, ao recordar estes factos, senti, os dias de muito trabalho, de muitos sonhos, de muita dedicação. Mesmo, que, ao meio da tarde, me encostasse num sofá para dormitar.

 

O jornalismo local está no meu sangue, é uma paixão imensa, ideias não faltam, projectos e sonhos.

O que falta, sim, o que falta é como se costuma dizer – “aquilo com que compra os melões”. Não para enriquecer. Ninguém enriquece com o jornalismo local.

Mas, se existisse capital seria possível criar uma equipa de trabalho, desenvolver dinâmicas.

Uma cidade como o Barreiro sofreu sempre, ao longo de décadas, pela sua proximidade com a capital, a influência da grande imprensa de Lisboa.

As empresas locais dão com mais facilidade um contributo para um qualquer jornal de Lisboa, que faça um suplemento dedicado ao Barreiro, que disponibilizarem apoio à imprensa local.

 

Quando cheguei a casa, contei à minha Lurdes aquilo que Cabóz Gonçalves disse, ela sorriu e fez um ar de espanto. Porque, ela, mais que ninguém sabe os sonhos e as lutas.

Mantive sempre o jornal, mesmo quando fui para a fábrica, como operário, na Quimigal, mantive vivo o sonho do jornal. Uma luta. Uma paixão.

Bom, mas tudo isto veio a propósito de uma conversa ao fim da tarde, com o meu amigo Cabóz Gonçalves, que, na sua luta, dos dias de hoje, não deixa de manter uma enorme vontade de conversar, recordar acontecimentos e expressar as suas opiniões.

 

Dizia ele – “Gosto de ti porque sempre fostes contra a corrente e eu gosto de pessoas que são contra a corrente”.

E, aqui, quero dizer-te que sempre gostei de ti, mesmo quando discordo de ti, mesmo quando achava que estavas a exagerar, mesmo quando me irritava com as tuas palavras corrosivas e irónicas.

Sempre te conheci, assim irreverente, a falar alto, enchendo o espaço, de presença e voz, com todas as letras, a dizer o que pensas, muitas vezes ignorando o que antes pensavas, sobre máfias e outras coisas. Eras tu – um homem livre.

Um destes dias escreveste um artigo, comentaste, onde eu era referenciado. Ainda não o li.

 

Olhava para ti, ao fim da tarde, neste Maio, após Abril, esse Abril que sempre tiveste no teu coração, lutando e acreditando. E, ali, pensava por dentro dos nervos, nas memórias que se cruzavam em muitos acontecimentos que partilhámos. A vida.

Aqui, ao fim da noite, escrevo e uma lágrima espreita, sentindo que, afinal, vivemos, sonhamos, lutamos e de certeza, o que fica de nós…é aquilo que inscrevemos nos dias vividos.

 

Recordo aquela tua grande paixão do Mercado no Barreiro Velho –Mercado Marquês Pombal -  à qual dei todo o meu apoio, e, talvez, amanhã, esse teu projecto e sonho venha a ser uma realidade. Nunca se sabe. Era giro, pá!

Um projecto que tu dizias,” era uma forma de amar o Barreiro”.

A tua vida foi, afinal, isso, uma forma de amar o Barreiro. E espero, que saltes daí, dessa cama, onde continuas a sorrir e a falar, a falar intensamente, para dares ao Barreiro os teus sonhos.

Um abraço.

 

António Sousa Pereira   

É preciso nunca desistir!

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Um destes dias vi um programa, na TVI, que abordava o tema de «assédio moral». Era referido que em Portugal serão cerca de 350 mil pessoas que são afectadas por esta realidade nas suas vivências quotidianas – empresarias ou sociais.

São, por exemplo, aquelas pessoas que, sem mais nem menos e sem qualquer justificação, são retiradas, de um momento para o outro, do seu posto de trabalho e da sua função. Apenas porque sim…

São aquelas pessoas que são colocadas num qualquer gabinete, ali, sem trabalho, apenas para consumirem o tempo e no fim do mês receberem o seu ordenado, em silêncio, porque precisam de sobreviver.

São aquelas pessoas que apresentam propostas e projectos às suas chefias e, nem respostas lhes dão, mas, depois, de súbito, essas propostas surgem com outros rótulos, para serem realizadas por uma qualquer assessoria, bem remunerada. E o autor sabe e sofre em silêncio.

São aquelas pessoas a quem lhes é negado a distinção, normal de tempo de serviço, que todos recebem, mas a elas é negada, apenas porque sim, como forma de as inferiorizar e afectar a sua dignidade.

São aquelas pessoas a quem são atribuídas funções, apenas para que tenham alguma coisa para fazer, mesmo que insignificante e que, em nada, correspondem à sua função ou méritos de uma vida que dedicaram à empresa. Um castigo. Assim como quem lhes diz – “o teu ciclo de vida acabou nesta casa”.

São aquelas pessoas a quem lhes é retirada qualquer hipótese de construir futuro, levando-os á degradação psicológica e motivando-os a desistir da vida e dos sonhos.

São aquelas pessoas sobre quem é exercido um autêntico terrorismo psicológico, acusando-o, de complexos de perseguição e descriminando-o de direitos e de dignidade humana.

São aquelas pessoas a quem se dá um grande gabinete, com muito espaço, mas a quem se filtra tudo de forma que se sinta inútil.

São aquelas pessoas, até, sujeitas a ameaças e agressões por parte de esbirros ao serviço da entidade empregadora.

São aquelas pessoas sobre as quais se inventam inverdades, que são piores que mentiras, forjam-se calúnias. Inventam-se factos. Destruição de carácter.

 

É tudo isto, e muito mais aquilo que, nos dias de hoje se define como “assédio moral”, considerada uma situação muito grave. Mas que, de facto, aqueles que a elas estão sujeitos, hoje, como ontem, calam-se e aguentam, aguentam porque, nestas situações, mais que viver é preciso sobreviver .

Escutava o programa e sorria. Limitava-me a sorrir.

Pensava na paz e na guerra. A paz interior que dá um sentir sereno aos agredidos por assédio moral. A guerra interior que é, afinal, o estado neurótico que agita a consciência do agressor porque não consegue derrotar e isso incomoda.

 

E, no final, conclui, que todas as pessoas que vivem ou viveram situações desta natureza, conseguirão sempre sobreviver e sonhar futuro, se, acima de tudo, nunca desistirem de acreditar na vida.

É verdade, o limite do aguentar, só surge quando se começa a deixar de acreditar na vida.

Isso marca. Isso dói. E, por muito que se queira, mesmo superando as situações, as marcas do assédio moral, ficam sempre a marcar a personalidade e inscrevem-se na vida.  

Para saltar em frente, é necessário todos os dias, sim, todos os dias, ao acordar, olhar o espelho e gritar bem alto: Bom Dia!

Sentir o sol e sorrir. Ser feliz com a doçura dos nervos, assim, como quem vive Abril em Maio.   

Viver o dia. Acreditar no dia…porque, afinal, acreditem, está provado, o futuro dá sempre razão aos que nunca desistem de lutar e só é derrotado quem desiste dos seus sonhos!

É preciso nunca desistir!

 

António Sousa Pereira

Vamos ao trabalho!

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Há dias que ficam gravados, dias que não esquecemos, dias que marcam mudanças, dias que guardamos e recordamos, são as efemérides inscritas no tempo que percorremos. Registos.

O dia 1º de Maio, é um desses dias que guardo e recordo - o de 1974, esse, vivi, ali, dentro do quartel, apenas sentindo a agitação na rua e os cravos lançados para nós, militares, que junto ao muro saudávamos a multidão em festa.

Depois, ao longo dos anos, no dia 1º de Maio, lá íamos rumo a Lisboa, eu e a Lurdes ( um companheiro permanente, sempre, era o Helder Marques).  Subir do Martim Moniz até à Alameda. Sonhar. Acreditar.

Houve, um destes 1º de Maio, que no dia seguinte, lá vinha, na primeira página do «Diário de Notícias», a caminhar de casaco ao ombro e de gravata. Era o único de gravata no meio da multidão, eu, de facto, marcava, ali, uma diferença, entre gangas. Uma foto, a cores, que enchia toda a primeira página do DN, naquele dia de Maio, que um olhar atento do fotógrafo registou. Não recordo o ano, mas sei que foi nos anos 80.   

 

Mas, o 1º de Maio que ficou gravado na minha memória foi no ano de 1981.

Nesse dia findava as minhas férias de ex-operário da Quimigal, onde laborei na fábrica de Zinco Metálico.

Nesse dia, era, igualmente, o meu primeiro dia de funcionário público na Câmara Municipal do Barreiro.

E, nesse, findava a minha função de Director de «O Jornal Daterra», que passou a ser exercida pelo meu saudoso amigo Manuel Seixo.

 

O 1º de Maio foi, de facto, para mim, um dia que se inscreveu, por dentro dos nervos da vida. Um dia que marcou mudanças.

Ontem, véspera do 1º de Maio, dei uma volta pelos territórios da Baía do Tejo, recordei os dias de operário, senti os cheiros do Contacto 7, recordei as ruas de terra batida e de lamaçal ou pó. Revivi por dentro das memórias aqueles dias que se inscreveram, feitos de sonhos e lutas.

 

Sentei-me, ali, nas bancadas do antigo campo de Santa Bárbara, do Grupo Desportivo da CUF/Fabril, a olhar a distância, recordando que aquele era um espaço fechado, inacessível à cidade, e, agora, ali estava, num espaço aberto e livre, no meio daquele silêncio, apenas quebrado pelo suave ruído da Sovena.

Recordei que foi nesses dias de operário, nos anos de 1979/80 que entrei para associado do Grupo Desportivo da Quimigal, onde fui frequentar a Escola Aberta e, onde, por várias vezes, integrei o Júri dos Jogos Florais da Quimigal, que contava com centenas de participantes de todo o país e do Brasil. Era uma referência e um grande projecto de promoção da cultura.

E, agora, neste ano de 2017, a convite de Faustino Mestre, aceitei partilhar com ele os sonhos de uma equipa que quer dar força e revitalizar o Grupo Desportivo Fabril.

Fui eleito para exercer o cargo de Presidente da Mesa da Assembleia Geral, espero cumprir e dar o meu contributo. Sinto uma enorme honra por assumir este cargo, num clube com uma longa história de referência local, regional, nacional e internacional.

Foi uma enorme alegria, sentir que, todos nós, merecemos a escolha dos associados, naquelas que foram das eleições mais participadas do clube nos últimos anos. Obrigado.

 

Ali, em véspera do 1º de Maio de 2017, sentado ao meio da tarde, no antigo Campo de Santa Bárbara, no último dia de Abril, estive, intencionalmente, para recordar na memória os dias que vivi na fábrica, onde senti as palavras a fugir dos nervos, o calor das escórias dos dias e uma grande esperança de futuro a marcar os vincos das ideias numa enorme vontade de pensar e agir com sonhos no coração. Sonhando!

 

Hoje, dia 1º de Maio, escrevo estas palavras, revivendo todos os sentimentos que marcaram e marcam este dia, no seu simbolismo histórico e real, de muitas homens e mulheres que viveram acreditando que é possível, é sempre possível, construir um mundo melhor.

Eu acredito, sim, apesar de tudo acredito, continuo a acreditar que é possível cada um, com a sua pequena acção, dar um contributo para deixarmos o mundo um pouco melhor que o encontrámos.

Vamos ao trabalho!

 

António Sousa Pereira

Uma terra onde as pessoas não podiam falar

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Eu estava sentado na mesa. Ao lado tinha o meu cravo de Abril. Ao meu lado brincava uma menina.

Hoje andei com o cravo de Abril ao peito. Há alguns anos que não colocava o cravo de Abril ao peito, limitava-me a andar com ele na mão. Coisas que decidimos. Esta decidi, um dia, naquele que optei por fazer do meu coração um cravo de Abril, no qual quero que pulse sempre a Liberdade.

Hoje andei com o cravo ao peito, porque a Regina Janeiro, num impulso, ali, no decorrer do içar das bandeiras, na extinta Junta de Freguesia do Lavradio, dirigiu-se a mim e colocou-me o cravo na lapela do casaco. Sorri. E, assim, de novo, por este mero acaso, lá andei com o cravo a palpitar no meu peito, florindo como um grito.

 

Mas, regressando ao início, eu estava, ali, sentado na mesa, com o cravo ao meu lado. Uma menina brincava por ali, sorrindo. A Inês de 6 anos. Parou. Olhou o cravo e tocou nele.

Perguntei-lhe: Sabes que flor é esta? Sabes porque tenho esta flor?

Ela, pegou no cravo e disse-me: “Há muitos milhões de anos, havia uma terra onde as pessoas não podiam falar. Até que um dia, uma senhora colocou uma flor numa arma dos soldados. A partir daí as pessoas puderam começar a falar e dizer tudo uma às outras.”

 

Foi esta a história que a Inês, de 6 anos, me contou, hoje, 43 anos após o 25 de Abril. Peguei no meu cravo e juntos de cravo nas mãos fizemos um “selfie” que vou guardar.

Para recordar esta história de uma terra, onde, há “milhões de anos”, as pessoas tinha medo de falar, eram presas e perseguidas por terem opções politicas diferentes do senhores do poder, e, num dia de Abril, com cânticos a rasgar a noite e flores a sangrar nas armas, sentimos chegar esse dia de chamas, gritos e sorrisos, numa energia tão forte e tão linda, que ficou inscrita no coração.

Aquele dia que anunciou o fim da guerra colonial, o fim da censura, a Liberdade a voar, voar, em cânticos de gaivotas.

Sim, Inês, foi há 43 anos, parece que foi ontem e pode ter sido mesmo isso uma epopeia com milhões de anos, todos esses que fazem a história da humanidade – um permanente caminhada que se diz e faz amor à Liberdade.

 

Obrigado Inês. E, não esqueças, é isso o 25 de Abril, uma flor que deves colocar no teu coração para que a Liberdade seja sempre um espaço aberto que nos permita conversar, conversar, dialogar, construir…viver, voar, crescer!

 

António Sousa Pereira

Ela move- nos!

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Esta é a festa que enche os meus nervos,

esta é a flor que floresce no meu corpo,

esta é a força que vinca os meus passos,

esta a emoção que toca o meu coração.

 

Porque um dia senti o sol nascer a brilhar,

e, ali, de um dia para outro, numa noite,

marcada de passos e de esperança, o futuro,

nasceu irreversível por dentro do tempo.

 

Porque um dia, feito de ingenuidade, sonho,

as multidões saltaram as barreiras de silêncio,

a gritar, em coro, a energia calada do meu país,

relâmpago que escreveu a palavra LIBERDADE!

 

Por isso, e, afinal, por tudo que aprendi e vivi,

nessa aventura de tanto combates, lutas, cânticos,

beijos, ilusões, desilusões, caminhos percorridos,

hoje, aqui, continuo a sentir Abril, a minha festa!

 

Em cada Abril, esse tempo renasce, uma Primavera,

dos confins da memória, no encontro com a história,

tão bela, tão linda que dá força para erguer essa flor,

sentindo Abril, essa Liberdade dentro do coração!

 

Apesar de tudo… ela move- nos!

 

António Sousa Pereira

25 de Abril de 2017

 

 

O silêncio amordaçado

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Ter opinião é diferente de não ter opinião. Ter opinião é pensar o que vivemos. Não ter opinião é não pensar o que vivemos.

Ter opinião é sentir a dimensão do tempo que se vive, por dentro do tempo.

Ter opinião é pensar o nosso pensamento em confronto e diálogo com outros pensamentos. É esta a essência da cultura democrática.

Ter opinião é não aceitar que reduzam a nossa opinião a um silêncio amordaçado.

Ter opinião não é ser uma mera caixa de ressonância, de verdades sistematizadas, adquiridas como verdades absolutas.

Ter opinião não é ter razão, é ter uma visão e aceitar outras visões, com pleno respeito pelas diferenças.

Ter opinião é olhar, ver, sentir, observar, concluir, fazer diagnósticos e seguir as convicções, com honestidade e integridade. É lindo!

Um bom diagnóstico, nasce de muitas opiniões e dá uma boa estratégia.

Um mau diagnóstico, nasce de muitas opiniões e dá uma má estratégia.

É por isso, só por isso, que ao longo da história há desalinhados, aqueles que pensam ao contrário, ou,  apenas, não se querem resignar a um futuro de “frases feitas”, porque, afinal… têm opinião.

 

António Sousa Pereira

 

Beija e Baza

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As redes sociais são interessantes. É o espaço ideal para quem gosta de viver de percepções e para sentir as percepções. Quem por aqui viaja, uma das coisas que tem que aprender é «descodificar» os falsos perfis, aqueles que existem, – por vezes até com rostos, claro – mas que não correspondem a ninguém, não têm história, não têm vida própria, a única coisa que lhes dá «veracidade» são os amigos que os escolhem e os partilham com entusiasmo.

Enfim, existem para manter uma corrente de «percepções».

Por razões de actividade social, tenho o hábito regular de viajar por estes espaços e, naturalmente, isto permite-me ir conhecendo os reais e os inventados.Anónimos, obviamente.

Mas, digo-vos, começo a ficar cansado. Talvez por essa razão, hoje, decidi, decidi mesmo, que a melhor forma de manter uma relação positiva, que não interfira com a paz e serenidade dos meus dias é tomar uma opção.

Assim, decididamente, pensei que a forma de manter uma relação positiva com as redes sociais é esta, mesmo esta, que registei em fotografia, hoje, pela manhã, ali, na Avenida das Nacionalizações ( que eu gostava que voltasse ao seu nome original – Avenida dos Descobrimentos).

 

Cá por mim, nestes tempos agitados, de nervosismo social, vou mesmo tomar esta opção : Beija e Baza!

 

S.P.

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